O ativismo e o poder do indivíduo

Parceria colaborativa com O Sabiá — texto por Gabriel Furlan

Em 1953, o escritor francês Jean Giono publicou um conto chamado O homem que plantava árvores.A história começa um ano antes da Primeira Guerra Mundial, num vale remoto dos Alpes franceses afetado pela exploração do carvão vegetal. A demanda pela matéria prima consumiu florestas, pequenos rios secaram e a paisagem se desertificou. A prosperidade deu vez à escassez e o êxodo dos habitantes para centros urbanos criou vilas abandonadas.

Mas um pastor de ovelhas, chamado Elzéard Bouffier, permaneceu no vale que morava e dedicou-se a transformar o lugar onde vivia. A cada dia, enquanto pastoreava o seu rebanho, ele plantava 100 sementes de carvalho.

O que movia o pastor era a perspectiva de que o seu gesto faria a diferença usando a capacidade de transformar o seu entorno.

Segundo o dicionário Dicio, a palavra ativismo significa “a prática efetiva de transformação da realidade em detrimento da atividade exclusivamente especulativa”.

Na Bíblia, no livro de Tiago, podemos considerar este versículo com uma analogia ao ativismo:

“Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma” Tg 2:17

Ou seja, a crença em determinada ideia, tanto quanto a defesa de valores, se dá pela aplicação dos mesmos princípios, onde a teoria se valida na prática.

E onde nós nos encaixamos? Como parte da sociedade, dividimos leis, cultura, espaços, acontecimentos, recursos e política. E também dividimos as experiências dos problemas, injustiças e desigualdades, tanto localmente com globalmente. Tudo isso pode criar um sentimento de impotência, mas ao rejeitarmos soluções que consideramos insuficientes, damos um passo em direção ao ativismo.

A frase “ninguém pode mudar o mundo, mas todo mundo pode mudar alguma coisa” parte do ponto de que qualquer um pode ser um agente de mudança e não somente um recipiente passivo da realidade. Ao ignorar o nosso poder de realização, delegamos essa responsabilidade a outras pessoas, que vão influenciar o mundo que vivemos.

Coisas simples como o fim de semana, que tomamos como coisa normal, não seria possível sem a mobilização de trabalhadores industriais no século XIX. Muitas conquistas levam gerações para serem garantidas, mas todas tiveram um começo: o potencial de imaginar as coisas diferentes do que são na atualidade, mesmo que a sociedade diga que atingimos o melhor patamar em algum assunto em determinado momento.

Mas ao defendermos uma causa, nos sentimos bem e esse é o primeiro resultado do empoderamento: o reconhecimento da nossa capacidade de transformar e melhorar a realidade.

O ativismo geralmente é associado a protestos e extremismos, mas essa é uma visão limitada.

A multiplicidade de recursos hoje em dia nos apresenta caminhos variados e mostra o quão abrangente é o poder do individuo.

Por exemplo, o poder de consumo pode ser exercido de forma consciente, escolhendo empresas que respeitam os direitos trabalhistas e o meio ambiente, optando por produtos feitos de forma ética e responsável, ou que priorizam produção local ou artesanal.

Temos o poder de criar, de organizar grupos, de fazer trabalho voluntário, de proteger a natureza e a vida, de influenciar, de inovar, de compartilhar informação e talvez o mais importante de todos: o poder de dar o exemplo.

O nosso ativismo pode ser a fagulha que desperta o desejo de outra pessoa em se manifestar e buscar mudanças.

O poeta libanês Kahlil Gibran escreveu em seu livro O profeta: “A semente que se esconde no interior de uma maçã tem o potencial de um pomar invisível”.

Mas e o homem que plantava árvores?

Embora muitas pessoas acreditassem que o pastor descrito por Giono fosse real, ele mesmo esclareceu em uma carta: “o pastor Elzéard Bouffier é um personagem ficticio. O objetivo era tornar árvores mais atraentes, sendo mais específico, fazer o plantio de árvores ser mais atraente”.

O ativista era na verdade o próprio escritor, que era também um pacifista, sobrevivendo a duas guerras mundiais (lutando como soldado em 1914). O livro foi traduzido em inúmeras línguas, rendeu uma animação em 1987, mas Giono doou sua obra à humanidade e depois escreveu:

“Não lucrei um centavo, mas é o trabalho de que mais me orgulho”.

Mais de 67 anos depois da publicação do conto, com as alterações climáticas e a destruição do meio ambiente, sua lição continua mais atual do que nunca.



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