A pandemia de corona vírus já causou um desastre na sociedade brasileira e não estamos nem na metade. Talvez o mais importante, além do que estamos fazendo hoje, seja o que faremos no futuro para conter; ou mediar, as consequências. O papel da arte em períodos de desordem, não é novo. Em momentos de caos, desespero e descontrole, a arte sempre permaneceu como forma de libertação, recuperação ou revolução.

“Quando eu penso em arte, eu penso em refúgio, mas eu também penso numa trincheira, um lugar que você se esconde para tomar um ar, se alimentar, traçar estratégia enquanto tem uma guerra rolando lá em cima. Acho que arte estimula muito as pessoas a serem elas mesmas e, portanto, autênticas, originais. […]”. Esta analogia da arte – expressa pelo ator – como lugar de descanso durante o combate é terrivelmente verdadeira. Uso esse advérbio porque sei, que muitos artistas se encontram em uma guerra constante. Uma nobre resistência, mas que parece ser interminável no Brasil.

No mundo pós-covid, as consequências não serão fáceis de se lidar. Algumas, começaram desde já, como as consequências econômicas para a América Latina. Outras, como o peso da quantidade de vidas perdidas, o desemprego, o provável futuro aumento da polarização, são algumas. Porém, no fundo, acredito que a consequência mais impactante será o cansaço social.

Claro que todos estamos cansados. Uma pandemia com centenas de milhares de mortos, o Brasil sendo declarado o novo epicentro de corona vírus, uma grande saturação do sistema de saúde nas capitais, o aumento do desemprego, o crescimento contínuo da polarização e extremismo político… Mas é claro, que todos vamos estar cansados no final de tudo isso, a maior parte de nós, já está. É aí que, novamente, entra o papel da arte. Ao perguntar para Victor qual o papel da arte como forma de terapia para os que perderam queridos, e para apenas tratar de ansiedades comuns, disse:

“Em uma aula de teatro ou num processo de ensaio, é preciso que você trabalhe com suas emoções, e é nesse sentido que eu digo que o teatro te ensina a ir ao contrário do que a sociedade normalmente diz, que é engolir suas emoções. […] Um dos maiores nomes do teatro brasileiro e mundial, Augusto Boal, desenvolveu o método do Teatro do Oprimido, que consiste em uma série de exercícios com a função de democratizar o fazer teatral para quem tem menos acesso/oportunidade e propor meios de transformação da realidade, faz justamente isso. Um dos exercícios consiste em você apresentar uma foto de algo que te oprime, que te faz sentir oprimido, e trabalha concretamente em cima disso em grupo.”

A resposta de Victor exibe, mais uma vez, a importância da arte; agora especificamente as artes cênicas, no psicológico. É crucial, que a sociedade brasileira se torne mais aberta para esse tipo de terapia. A arte terapia é mundialmente reconhecida, aplicada e estudada, já que sua eficácia foi comprovada várias vezes. Mas sabemos a resistência por parte da população brasileira pela própria arte e cultura nacional. Não é novidade que o protagonismo cultural no Brasil nos últimos anos sempre é de filmes, obras, peças, pinturas estrangeiros, sobretudo americanos. Ironicamente, o número de brasileiros que se intitulam patriotas cresce, mas o consumo da cultura nacional, decai.

“Olha, acredito que essa é a grande questão. Porque esse monopólio do cinema norte-americano está diretamente ligado com a exploração imperialista […] O que eu sinto é que muitos filmes acabam falhando em alguns aspectos por que não têm dinheiro para bancar a produção da melhor maneira. Sem falar no retorno financeiro depois da circulação. Mas digo tudo isso como um ator com alguma experiência com cinema. Acredito que diretores e outros profissionais possam ter algo mais concreto a falar sobre como não deixar nosso cinema morrer.”