“Num tempo, página infeliz da nossa história…”, cantava o Chico Buarque em uma das suas célebres músicas que comumente são marcos históricos no Brasil. Poucas coisas se revelavam tão surpreendentes como ouvi-lo cantar. A cada letra um aprendizado intrínseco. Sentimentos, vivência e muita sensibilidade.

Passei meses intrigada em entender o quanto essa música dizia sobre a atualidade vivenciada, mesmo não sendo atual. O Brasil se repetia. Será que é assim que ele também enxergava? Intensos percalços separavam as margens do passado até o presente. E não há como negar a dualidade. Não que fosse clara a trajetória, na verdade, era tão cheia de modulações e características, mas de fato, algo se repetia.

Chico Buarque sabia, acho que ele sempre soube. Talvez seja este o segredo dos poetas, a sutileza em observar o que passa despercebido em muitos olhares. O momento não era dos melhores e o “vai passar” do Chico, preencheu. Tudo aquilo que passou num outro tempo há de passar novamente, afinal, e ele sabia. Não me recordo quando aprendi a amá-lo, Clarice dizia que já era amor antes de ser.

Sua existência me animava e eu buscava nele infinitos motivos para continuar acreditando que, uma hora, vai passar. Os acontecimentos diários seguiam uma ordem cronológica que soava atemporal, as informações chegavam como mísseis em colos que pareciam despreparados a recebê-los. Deviam ter encontrado um mundo tão vazio a ponto de não estragarem nada. Mas isto não ocorreu. Tudo estava tão preenchido que o estrago tomava proporções alarmantes e decapitava a possibilidade de um vislumbre esplêndido.

Os dias seguiam assim.

Uma ofegante epidemia que, dessa vez, não se chamava carnaval.

Sabiá

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