Loucura e meritocracia

A priori, a questão de determinar o que seria ou não um “ser louco” é bastante ampla e sem um consenso. Aparentemente, o conceito de loucura é apenas interpretado no âmbito da doença mental. A face da loucura socialmente vista, por muitos, é tratada com desprezo, desumanizada e animalesca. Muita das vezes, as patologias podem vir de várias formas, como transtornos, abusos de drogas e álcool, reações psicológicas como estresse e causas genéticas.Entretanto, a loucura não está tão distante de nossas realidades diárias, atingindo a todos, mesmo que de modo quase imperceptível. Logo, há uma linha tênue entre a sanidade e a loucura diante do olhar crítico social. “A cabeça, que virará crânio, já está vazia. A loucura é o já-estar-aí da morte.” Isto é, “o louco pressagia o macabro.”, segundo João Augusto Frayze-Pereira. E a sanidade se define pelo equilíbrio cognitivo ou emocional do ser humano. o louco não é um doente psicótico, mas sim um indivíduo estranho o bastante para ser caracterizado como tal. Sendo a sociedade um lugar árido em que a diferença não é aceita, tampouco acolhida.

Já no quesito da esquizofrenia, é caracterizada por pensamentos ou experiências que parecem não ter contato com a realidade, fala ou comportamento desorganizado e participação reduzida nas atividades cotidianas, além da dificuldade de concentração e memória. Não se sabe qual a causa exata desta doença, muito menos há uma cura endógena, mas consente-se que uma combinação de fatores, como genética, ambiente, estrutura e química cerebrais alteradas, pode influenciar. A esquizofrenia é distinguida internamente por quatro categorias: paranoide, catatônica, hebefrênica e simples. É comum a presença de delírios e alucinações. Um exemplo de esquizofrênico popularmente conhecido é o Coringa (melhor interpretado por Joaquin Phoenix), com suas crises incontroláveis de gargalhada sem motivo aparente e dificuldade de distinguir o real do imaginário, agindo involuntariamente e por impulso.

Em paralelo, ao analisar o caso do sequestro do ônibus 174 – episódio comumente estudado nos cursos de Psicologia Forense – , é visível que a violência de Sandro, o autor, é motivada pelos traumas antecessores, principalmente pelo abandono paterno e por presenciar o brutal assassinato de sua mãe. Sozinho e morando nas ruas, teve envolvimento com drogas e, para sustentar o vício, começou a roubar. Outro episódio que o marcou foi a sua presença na Chacina da Candelária. Após enfrentar a adolescência entrando e saindo de instituições de menores infratores, Sandro fora sentenciado a cumprir pena por assalto à mão armada. Todos esses episódios canalizam sua insanidade mental e conturbação psicológica. Erroneamente, a opinião popular caracterizara-o como louco.

Contudo, a defesa da meritocracia é uma forma de silenciar os contextos socioculturais de cada indivíduo que levaram-os a cometer um delito. A desestruturação familiar, a falta de incentivo estatal para o ensino, a desigualdade econômica, o racismo estrutural e a escassa perspectiva de sobrevivência são a base da radiografia da violência brasileira. Atrelado a isso, também há a falta de diversidade e representatividade social e midiática para um jovem preto, pobre e periférico, sendo os bandidos da sua área o mal exemplo a ser espelhado por quem almeja ascensão financeira.

Nisso, discute-se a ineficiência de detenção para menores infratores (retratada no documentário Juízo), como o Instituto Padre Severino e a Fundação Casa (antiga Febem) . Infelizmente, a meritíssima (no documentário, representada pela juíza Luciana Fiala de Siqueira Carvalho da 24ª Vara da Infância e da Juventude do Rio de Janeiro) que julga-os pelos crimes nas audiências, apesar da intenção de causar-lhes um choque de realidade ao ser incisiva e crua, demonstra-se ser prepotente em seu discurso, com requintes de preconceito, ao humilhar-los por sua baixa escolaridade e escolhas erradas que levara-os à sentença penal. Coincidentemente, a mesma defendia a mentalidade que, caso o menor estudasse, seu destino seria totalmente diferente, ignorando, assim, todo e qualquer contexto em que o jovem está inserido.

Em meio a condições de insalubridade do ambiente e da falha referente à reeducação do jovem, o egresso do sistema prisional reflete na desumanização dos presos, como Mano Brown retrata na obra Diário de um Detento no seguinte trecho: “Ladrão sangue bom tem moral na quebrada, mas pro Estado é só um número, mais nada. Nove pavilhões, sete mil homens que custam trezentos reais por mês cada”; No sistema carcerário brasileiro, é de ampla notoriedade que as casas de detenção recebem a função de serem “escolas do crime”. Lá, os cidadãos encarcerados se misturam com os mais diversos criminosos, das mais diversas especialidades maléficas e, assim, traficando informações para que, após o cumprimento da pena, os presidiários retornem à sociedade com “novos aprendizados”, já que sua ressocialização legítima é inviabilizada pelo estigma de seus antecedentes. Entretanto, desde o período da Ditadura Militar, houve uma crescente de facções criminosas no país. Este fenômeno se deu devido aos presos políticos (militantes de oposição ao governo da época) serem levados aos mesmos presídios que os demais criminosos, cuja perspectiva e ambição eram pequenas. Dentro das celas, eles ensinavam aos presos comuns as táticas de guerrilha e formação de quadrilha que utilizavam contra a polícia. Assim, um simples assaltante de galinhas, por exemplo, poderia se tornar dono de uma boca de fumo de sua favela ao sair da cadeia.


Com o surgimento de organizações como o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital, instaurou-se uma guerra constante contra o Estado. Como o mesmo não poderia alcançar as comunidades, o crime teve que fazer suas próprias leis para que haja uma coexistência harmônica entre os rivais nas cadeias e nas favelas, assim como entre os moradores delas, tal qual define o artigo segundo do Terceiro Estatuto do P.C.C.: “Lutar sempre pela Paz, Justiça, Liberdade, Igualdade e União, visando o crescimento da nossa organização, respeitando sempre a ética do crime”. Tais normas de conduta decretam respeito a hierarquia, ordem e disciplina para que não haja a necessidade de intervenção policial nas comunidades e, assim, preservando a paz, mesmo que por circunstâncias violentas.

Loucura e Meritocracia: Como o pobre preto perde a sanidade conforme a construção da violência na realidade brasileira - material por Devaldo Braga



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