Há felicidade apesar de.

Quando acontecia de ser feliz repentinamente, ela se assustava.
Era como se não pudesse encarar essa pseudo alegria que se instalava de frente, pois, a qualquer momento, poderia como um copo de vidro, escorregar da própria mão e se estilhaçar no chão limpo.


O que fazia nestes momentos era viver sem profundas reflexões. Pensava que a vida era meticulosamente intrigante e tinha sempre uma tendência enorme em entrar em contato com a imensidão que considerava o sentir. Observava as pessoas com uma certa ingenuidade que não lhe permitia atravessar fronteiras as quais ela mesma chamava de sagradas, então, sorria de forma exuberante e respondia em leve tom: realmente é um lindo dia. Caminhando à beira-mar, se deparava com enorme gratidão a tudo que existe. Agradecia pela vida em tempos tão complicados, e não desistia. Sempre falaram a ela da importância da gratidão para se manter satisfeito em meio aos gritos de insatisfação do mundo, ela conservava essa clareza apática de quem aprende certas coisas e as absorve até mesmo quando não fazem o menor sentido. Mas sobre o sentimento de gratidão, ela parecia compreender. Sentido tinha a ver com sentir e ela adorava ter sensações. “Tais sentimentos são os meus segredos, que acabaram de deixar de ser”, pensou. Percebeu que havia pressa no seu andar e, em seguida, tentando controlar os passos e a sua respiração ofegante com as mãos apoiadas ao joelho, avistou uma mulher que, de longe, parecia chorar. Não tinha a certeza, pois os cabelos longos cobriam parte do seu rosto. Pensou em se aproximar.
E se fosse invasivo? – Não gostou dessa ideia. Seguiu respirando fundo, tentando voltar ao equilíbrio. Em seguida, num relance, a mulher veio caminhando em sua direção e até que de súbito lhe perguntou: – Onde posso doar tudo de mais belo que tenho para oferecer, mas como toda boa doação não precisará de retribuição? Seus olhos, espantados de certa tensão, não foram capazes de exprimir outra reação que fosse mais acolhedora e a mulher continuou: – Não serei de capaz de adquirir a humildade necessária para admitir minhas derrotas pessoais? – “O que será que ela queria dizer”, pensava. Era com ela mesmo essas indagações? Sem esperar respostas, a mulher seguiu adiante sem olhar para trás e, para sua infelicidade, não levou as perguntas que ainda pairavam em sua mente atordoada. Talvez fosse preciso tê-la respondido qualquer coisa que a pudesse aliviar, mas o espanto tomou conta da sua alma antes que pudesse sequer refletir.

Ficou alguns minutos ali, estática, tentando achar respostas para aquelas perguntas que, agora, pareciam sem dono.
E se for o seu modo de buscar sustentações nessa imensidão de sentimentos que vivem em conflito mútuo? – Pensou novamente.

— Eu a deixei ir, ela me deixou ser. E agora não há nada que possamos fazer uma pela outra. A passagem do tempo já nos esperava e alterava esse espelho que, por segundos, refletiu um para cada lado. Como o côncavo e o convexo, um quase ajuste perfeito de indagações.

O dia estava feliz e, ainda que o presságio tivesse sido impactante, ela pensou como tentativa de consolo naquela mulher que já não existia: por mais que doa, dói só um por um tempo.



TEM UMA PAUTA?
ESTAMOS AQUI!

Toda ideia tem o potencial de ser uma boa ideia. Gostamos de ouvir ideias de pauta, denúncias ou sugestões de nossos leitores. Se quiser compartilhar, conte conosco — e olha, pode ser anônimo, tá?


Em destaque

RECENTES

A revista o sabiá é um veículo de mídia independente e sem fins lucrativos, que busca usar o jornalismo e a comunicação como um mecanismo de mudança no futuro das novas gerações.