Uma Reflexão Sobre os Debates da CNN

Dois Pesos e Duas Medidas

Gostaria de começar contando dois causos acontecidos nos últimos tempos e que, ao meu ver, dão um ótimo ponto de partida para o problema geral. O primeiro é sobre a Vera Magalhães, jornalista liberal que faz parte do programa de entrevistas “Roda-Viva” que já entrevistou grandes figuras da história como Fidel Castro, Hugo Chávez e ultimamente ganhou novamente uma certa notoriedade entrevistando algumas  figuras públicas populares como Felipe Neto e Átila Iamarino, dialogando sobre o atual momento político do país e sobre a crise do coronavírus. 

Vendo o clima político contemporâneo no Brasil e nos EUA, a jornalista expressou em suas redes sociais que estava procurando figuras mais “diversas” para serem recebidas em seu programa de entrevistas. Vendo isso, o historiador e militante comunista Jones Manoel lançou uma campanha em hashtag para que tal figura fosse a socióloga Sabrina Fernandes, uma das figuras mais populares da esquerda marxista nos últimos anos, esta manifestação atingiu uma grande popularidade, chegando a ficar nos trending topics do twitter.

Entretanto, aquilo que nos serve de mais interessante neste acontecimento foi a resposta da jornalista em relação a indicação. Lançando um tweet extremamente sarcástico desmerecendo a indicação, Vera compara a massa de pessoas que gostariam de ver a intelectual sendo entrevistada com a massa de perfis falsos que serve de militância ao atual presidente da república. 

Este episódio apareceu como um paralelo muito irônico para mim ao ver de relance, no início desta semana, o bacharel em direito Caio Coppola chamando um estudo de Cambridge de “enviesado” por atribuir culpa à Jair Bolsonaro pelo alto número de mortos brasileiros na pandemia de covid-19. Uma coisa que me deixou pensando comigo mesmo foi: até onde vai a nossa assim dita “democracia”? Porque a mídia brasileira tem tanto medo de entrevistar uma socióloga mas não se importa em ter diariamente no seu programa um Senhor cujo único feito na vida foi ser polêmico? 

O Grande Debate da CNN e a Nossa Democracia Ateniense

Para quem não sabe, o  Grande Debate é um dos grandes atrativos do recém-criado canal de notícias (CNN). Importado do exterior, o programa consiste em duas figuras “qualificadas” discutindo sobre algum assunto que esteja em pauta no momento. O grande representante da direita é o ex-vocalista de rock Caio Coppola, enquanto, hoje em dia, o grande representante mais à “esquerda” é atualmente o advogado Bruno Salles, sucedendo já 3 outras figuras que abandonaram por cansaço o programa. 

Quando vamos comparar a quantidade de debatedores que já passaram pelos dois lados vemos que há uma grande disparidade. Quase que a cada mês alguma nova figura aparece para substituir o último debatedor na ala da esquerda enquanto o Caio continua lá, com um sorriso no rosto de quem acredita ser um grande vencedor. Seria o Caio realmente um mestre dos debates? Bem, a resposta desta pergunta depende muito do que você considera como debate. Se um debate, para você, te lembra algo muito parecido com a vida política na Pólis ateniense então não, Caio é apenas um menino mimado que vence por gritar mais alto, agora o grande problema é que um debate, para maior parte das pessoas não significa isso. A maioria dos apoiadores de Coppola, na verdade, imaginam um debate mais como uma rinha de galo do que qualquer outra coisa, pois os debatedores, neste ponto de vista, não são mais dois representantes de lados opostos discutindo para que o telespectador veja qual é o lado que ele julgue que possui mais razão, mas sim dois comediantes de stand-up denegrindo a imagem um do outro. A partir disto, entendemos o porquê de ninguém de fato querer continuar toda noite debatendo com uma pessoa que possui o mesmo modo de pensar de um galo raivoso. 

Na Atenas clássica havia um tipo de intelectual que parece muito com o nosso porta-voz da direita: O Sofista. Com um discurso aguçado e uma retórica infalível, o sofista conseguia escrever belos discursos que conseguiria convencer o seu interlocutor em relação a qualquer coisa. Claro que “belo” seria um adjetivo delirante para se tratar da retórica de Caio, mas o que realmente une essa comparação é a questão de que, nas perfeitas condições de temperatura e pressão combinado com uma retórica que divirta os seus ouvintes, é possível se convencer uma pessoa de qualquer coisa. 

Mas quais seriam estas condições? Voltando ao exemplo clássico, tem algo na concepção grega de democracia que sempre me interessou muito: É o fato de que a Democracia, de fato, não existia na Grécia antiga. A partir do momento em que todas as mulheres eram consideradas seres de uma categoria inferior e que todo cidadão ateniense só conseguia elaborar sobre as grandes questões da humanidade tendo vários escravos para satisfazer todas as suas necessidades, não se pode dizer efetivamente que havia uma democracia. Sendo assim, este cidadão hipotético dificilmente aceitaria a hipótese de que o seu escravo era um ser humano igual a ele, mas realmente havia a possibilidade de, ao se defrontar com um homem de igual categoria social que a sua, ele concordasse que dois mais dois é sete, por exemplo.

Por mais que desde cedo nos seja ensinado que vivemos em um regime democrático, onde as decisões são tomadas pela maioria, a verdade é que na nossa sociedade ainda há uma parcela da população que consegue elaborar temas como o Justo e o Belo enquanto existe outra que limpa o banheiro desta primeira.  Mesmo havendo significativos avanços nas últimas décadas em relação a uma maior inclusão da população pobre e periférica da sociedade na universidade, a verdade é que aqueles qualificados para falar em um grande jornal, na maior parte das vezes, tem classe e tem cor.  Todos nós recebemos as notícias, primariamente, das mesmas fontes, seja um ecônomo saudando a reforma da previdência no jornal da Globo, seja a BBC replicando piadas de um site de humor em relação à Coreia do Norte como se fossem fatos confiáveis porque, na verdade, quem banca os dois citados acima são pessoas com interesses muito diversos da verdadeira Verdade. Por isso que não surpreende uma reprimenda tão irracional de uma pessoa que se diz reportar a verdade como foi no episódio de Vera, porque a verdade, neste caso, é uma música tocada por um violinista em uma festa: ele não escolhe aquilo que ele está tocando, quem o está pagando escolhe. 

Quem pariu o fascismo? 

Estes mesmos violinistas que eu citei acima dariam uma série de respostas difusas em relação a esta pergunta. A Polarização seria provavelmente a hipótese mais citada, mas ela, por si só, é uma interpretação burguesa que busca colocar no mesmo campo dois interesses antagônicos. O jornalista neoliberal provavelmente diria que, por culpa da corrupção nos governos petistas e por culpa da radicalidade do PT (porque aparentemente escrever uma carta aos empresários prometendo não fazer um governo socialista é algo radical demais) as massas caíram num estado de histeria anti-iluminista por um homem que trazia respostas fáceis, mas  ele muito fortuitamente esqueceria da campanha midiática que foi feito em 2016 para um golpe parlamentar ou sobre como estes próprios grandes órgãos de comunicação apoiaram o golpe contra Jango e, ainda hoje, publicam descaradamente mentiras sobre qualquer experiência socialista. 

O exemplo que eu dei na seção anterior sobre a Coreia Popular explicita muito bem a hipocrisia da nossa classe intelectual. Antes de falarmos sobre Fake News usadas para alavancar o fascismo, nós deveríamos lembrar que, desde quando a grande mídia é mídia, ela mesma utiliza de mentiras para defender os interesses econômicos de quem a paga. No Brasil, atualmente, nós temos um dos centros de estudos mais importantes do mundo em estudos sobre a Coreia do Norte mas, mesmo assim, nenhum dos grandes jornais nunca sequer os utilizou como fontes. 

A cada notícia falsa ou deturpada publicada por estes ilustres membros do jornalismo criou, gradativamente, uma tolerância crescente para notícias que não tem nenhuma correlação com a realidade. Sendo assim, esta honradíssima elite intelectual abana as suas mãos e grita com todas as suas forças contra o seu próprio filho. O fascismo, tanto na Alemanha quanto na Itália e no Brasil, nunca teria tido a chance de florescer se houvesse realmente uma democracia para todos e se tivéssemos uma mídia que não estivesse ocupada demais lambendo os pés da nossa burguesia dependente. Se aquilo que os nossos Sr.s versados em Rousseau e Montesquieu prezassem fosse realmente a Verdade e a Razão eles não teriam tanto medo de entrevistar uma intelectual marxista, do mesmo jeito que eles nem estariam defendendo um sistema econômico que gera um trilionário em um momento histórico onde maior parte da população está sofrendo economicamente. 

Justamente por serem pagos para defenderem este sistema é que o debate democrático só é democrático para Caio Coppola e não para Sabrina Fernandes, ao mesmo tempo que a Razão e ciência só são importantes para gerar novos computadores e foguetes, mas não para alimentar toda a população mundial e dar casas para todos. 

O fascismo e a ditadura são a alternativa mais economicamente viável para um capitalismo em crise, pois um holocausto é um preço que não é tão pesado para os ricos quanto um mundo que consiga dar para todos a educação ao nível superior. Os seus jornalistas podem e vão continuar defendendo uma democracia parecida com os países europeus que sustentam os seus chefes e, em certos momentos, esta postura crítica certamente será importante para que toda a população não aceite facilmente este novo genocídio que está acontecendo, mas, sinceramente, este não passa de um marketing muito superficial, visto que nenhum rico quer dormir com a consciência pesada pelo fato de ele fazer dinheiro na base do sangue de maior parte da população, então o seu canal na televisão a cabo favorito deve dar um tapinha em suas costas, para ele dormir bem na sua cama com um lençol egípcio e travesseiros com penas de ganso. Ao mesmo tempo que os jornais da rede aberta precisam trazer este espírito democrático porque nenhum regime se sustentaria defendendo a linha de um país que se chama de “a terra da liberdade” sem pelo menos se esforçar em tentar transparecer que tal liberdade realmente existe. 

Sendo assim, me parece quase uma piada ouvir todos os dias os grandes comentadores da Globo e da CNN falando que a democracia funciona assim, com o debate entre lados contrários. Sendo que este debate, em primeiro lugar, não existe, pois, não há lados contrários, só lados estritamente divergentes. 

Para Encerrar: O Jornalismo é A Ponta de Lança Contra o Autoritarismo? 

Você, leitor, se lembra de quando toda a redação do Jornal Folha de São Paulo foi assassinada e, um ano depois, toda a redação do Jornal O Estadão foi igualmente dizimado pela ditadura militar? Não? Isto é porque estes fatos não aconteceram, o que realmente aconteceu na ditadura militar é que todo o comando das duas maiores frentes de luta contra o capitalismo e a ditadura no país ( o PCB e o PCdoB) foram covardemente assassinados, com mais uma série de militantes da sua base sendo presos, “desaparecidos” e torturados. Mesmo tendo existido uma censura fortíssima contra a mídia na ditadura militar e existindo sim, jornalistas que sofreram, eles não eram uma ameaça tão grande assim a ponto de serem fechados.

É por isso que, militando no PCB e tendo esse lembrete quase diário de que se as tensões aumentarem demais eu tenho mais chance de ser desaparecido do que a Vera Magalhães, é extremamente incômodo ver uma boa parte da esquerda esquecendo da sua história e colocando a mídia liberal neste pedestal idílico de resistência contra o governo Bolsonaro. Nenhum dos grandes jornalistas faz algo além de noticiar muito porcamente os fatos que interessam os seus chefes e as opiniões destes mesmos, que tipo de resistência é essa? 

Tal posição vem, de fato, de algo verdadeiro: Quando se entra em contato com a realidade social, é impossível apoiar este governo. Entretanto, esta mesma posição erra porcamente ao achar que aquilo feito nas grandes redações é uma apresentação da realidade social, isto é uma contradição lógica e seria impossível de ser feita pelos mesmos fatos que vêm sendo apresentados ao longo deste texto. 

O primeiro passo para que algo como um jornal possa de fato resistir contra o fascismo é que ele tenha na sua linha o apreço pela realidade e que quem o sustente não seja as mesmas pessoas que apoiaram os golpes de 2016 e 1964. Entretanto, apenas isto não é uma postura muito efetiva de resistência, um ótimo exemplo sobre como jornais mais contra hegemônicos como o The Intercept (que mesmo assim ainda possui uma linha derivada de um pensamento pequeno burguês de centro-esquerda e não consegue defender nada mais radical do que o Bernie Sanders) com a falta de consequências políticas que ocorreram em decorrência da Vaza-Jato. Este exemplo muito bem nos mostra que só retratar e reportar os fatos não basta. 

Nossa cultura coletiva tem o péssimo vício de tentar sempre ter como norte uma visão deturpada da Grécia Antiga como exemplo de política, que acontece na Polis com homens discutindo fatos e falando e decidindo pelo bem comum. A política não é uma conversa entre duas pessoas que se respeitam enquanto indivíduos, ela é uma briga de bar, nossa conjuntura já a mostra muito bem. Nesta situação não basta apenas reportar a realidade, é preciso ter como objetivo e prática a mudança dela mesma.



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