Desculpe, me perdi na contagem dos dias.

Quando a minha prima vem me visitar, logo sei que a calmaria interior cultivada será removida para as galáxias. Sou tomada de um êxtase que parece que é só dosagem normalizada de endorfina, mas com uma pitada de preocupação alarmante. Ela, no auge dos seus seis anos e com uma retórica notável, passa a maior parte do tempo me falando de desenhos, escola e brincadeiras. Brincadeiras essas que envolvem até me fazer de cobaia para os mais variados vídeos do TikTok. Quando não estou dando atenção, mexe na maior quantidade que consegue de objetos por toda a casa, variando em deixá-los cair ou perguntando para quê servem. Outro dia, fazendo o almoço numa sexta-feira dessas, fixando a atenção no que precisava ser feito para que não acontecesse de, sei lá, perder um dedo na tabua de legumes, ela perguntou se faltava muito para que ela chegasse a minha altura. Balancei a cabeça em confirmação e ela dando pulos na cozinha, soltou: — Se eu tivesse a sua idade, ou você a minha, seriamos duas pestinhas. Aprontaríamos muito. Nessa hora, foi quase impossível não rir compulsivamente. Pensei em contar a ela sobre tudo o que eu “aprontei” em sua idade, e até depois (risos), mas preferi me conter acreditando que, talvez, as minhas histórias dessem ainda mais imaginação àquele serzinho tão pequeno e grandemente desbravador, mas que parecia se equiparar a um furacão de menores proporções em cinco minutos de distração.


Ontem, ela me perguntou que dia era e eu, acreditando enfática, respondi que era dia 21. Pouco tempo depois me dei conta que era 23 e que, provavelmente me perdi na contagem dos dias por não saber quantos dias faltavam e nem por quê. Na tentativa de corrigir a informação, expliquei o equívoco. Ela disse: — Deve ser cansaço, né? — Com um olhar vago, olhei para frente como se buscasse entender se era cansaço mesmo, ou tédio, ou sono, ou qualquer outra conotação dessas que falo por gostar de dar nome as coisas. Acabei respondendo que sim, afinal, naquele momento, estava difícil entender o que de fato ocorrera. Ela disse que então preferiria dormir com a vó, para que a sua agitação noturna, o que ela chama de “eu chuto dormindo”, não me incomodasse, e assim, eu pudesse dormir tranquilamente.

Cheguei a pensar que poderia ser um adulto num corpo infantil, o que me soaria mais aceitável. Senti uma alegria tão fugaz que só quando criança fui condecorada. Não era possível que eu também tivesse tido tamanha vividez em algum momento, liberdade de dogmas e tanta ausência da necessidade de aprovação e que isto, sem aviso, tivesse se perdido desnaturalizando a imagem das primeiras fases do crescimento e a pura liberdade de viver aquilo que se é.


Agora, que ela foi embora, queria ter falado sobre a importância de se conservar assim, tão alegre, sonhadora e destemida, porque era justamente isso que eu gostaria que tivessem falado comigo também. Se é mesmo que não o fizeram e eu o perdi pelo experimento do mundo, da vida, que permite que partes de nós mesmos se percam e a gente nem se dê conta.

Não perderei a oportunidade quando ela vier. Falarei a ela para que cresça repetindo mentalmente a importância da liberdade e da alegria genuína. Que se desvincule desses pensamentos da fase adulta, que exigem e reprimem, pois, se for analisar, muitos deles para nada servem. Que não se permita caber em protocolos, que os questione veementemente para ter certeza se são do tamanho da imensidão que ela é. E que se tiver que escolher entre ela e eles, não pense duas vezes, e sempre escolha a si ainda que consciente da importância da empatia e da generosidade no viver.

E ainda assim, se esquecer, a lembrarei. Falarei sobre a experiência de vê-la crescer e caminhar corajosamente por locais desconhecimentos transpirando colágeno e vivacidade.

Mas hoje me perdi na contagem dos dias, e não há nada que eu possa fazer.



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