A América Latina precisa emancipar-se


Durante nossa existência, vivemos uma constante construção intelectual, onde nossas leituras — seja de grandes obras ou de simples noticiários —, as músicas que ouvimos, as conversas que temos ou os momentos que passamos, nos agregam novos conhecimentos que influenciam diretamente em nossa vida e em nossas tomadas de decisão, com isso influenciamos não apenas […]


Durante nossa existência, vivemos uma constante construção intelectual, onde nossas leituras — seja de grandes obras ou de simples noticiários —, as músicas que ouvimos, as conversas que temos ou os momentos que passamos, nos agregam novos conhecimentos que influenciam diretamente em nossa vida e em nossas tomadas de decisão, com isso influenciamos não apenas em nosso futuro, mas no de toda nossa sociedade, tendo em vista que nosso destino afeta também o destino de quem está à nossa volta, que afeta o de quem está a sua volta, e assim por diante.

Essa construção de conhecimento que se inicia em casa, é direcionada de forma mais profunda durante o ensino básico, médio e superior, aflorando-se até nossos últimos dias. Todos esses ambientes têm uma característica em comum: a predominância da cultura e dos costumes eurocêntricos. A filosofia, mãe de toda ciência, teoricamente começa com os gregos, mas pouco vemos sobre o pensamento e visão de mundo de povos altamente intelectualizados, como os maias, astecas, toltecas, incas e diversos outros povos pré-colombianos, que possuíam o domínio de conhecimentos astronômicos, de artesanato, agricultura e uma sociedade riquíssima, com costumes diversos e muito a nos ensinar.

Na chegada dos europeus, os povos incas praticavam uma agricultura extremamente desenvolvida em territórios inóspitos, irregulares e montanhosos, plantando batata, feijão, tomate, abóbora, pimenta, mandioca, cacau, algodão, amendoim, milho e outras culturas, os astecas eram conquistadores vorazes, com um grande exército, hábitos, e culturas diversos. Adeptos a uma religião politeísta, construíram grandes templos e praticavam sacrifícios aos deuses, os maias tinham complexos conhecimentos astronômicos, desenvolvendo calendários solares, compreendendo o acontecimento de eclipses, alteração de estações, luas e uma implantação de melhoramentos genéticos muito antes que isso fosse imaginado.

Foram as riquezas naturais das Américas, roubadas dos povos dizimados e escravizados que possibilitaram o período do renascimento europeu, visto como um momento de grande demonstração das capacidades da raça humana, com enormes palácios, grandes artistas de produções incalculáveis, catedrais revestidas de ouro, prata e outros minérios, tudo isso bancado pelo que era produzido aqui, no canteiro de obras do mundo moderno, com mão de obra escrava ou análoga. Por onde passavam, os colonizadores traziam uma esperança de prosperidade que se esvaiu junto aos recursos naturais, por mais irônico que pareça, os momentos de prosperidade foram os que mais geraram miséria, pois a exploração dos bens era finita e as localidades não suportavam o seu fim.

Apesar de a questão econômica ser a mais visível das ‘heranças malditas’ deixadas pela colonização, alguns outros fatores não devem passar despercebidos, como o esvaziamento cultural e a demonização de costumes e crenças locais, dizimados junto a seus praticantes, que padeceram tanto a força das armas como das doenças.

Para uma América Latina próspera e saiba tirar de si o melhor que se pode produzir, não precisamos olhar para fora, mas para dentro. O povo diverso e de capacidades ímpares, com culturas riquíssimas e realidades fascinantes têm seus conhecimentos desvalorizados e deixados de lado, muitas vezes marginalizados por quem mais precisava deles. Muito além de um ‘workshop’ com assuntos europeizados, a América Latina tem uma vastidão de conhecimentos para oferecer, da literatura às artes, da música à agricultura, dos escritórios às ruas, somos dotados de capacidades únicas de ver e lidar com o mundo, estando sempre entre os povos mais felizes, mesmo nas condições mais precárias, dando sempre um jeito de mantermo-nos vivos e próximos uns aos outros.

Que nas mesas de bar discutamos a riquíssima obra do inestimável Eduardo Galeano ao invés d’A Sutil Arte de Ligar o F*da-se, que no táxi falemos sobre o esplendor da produção de Gabriel García Márquez e da sutileza crítica de Isabel Allende, que Os Sertões de Euclides da Cunha sejam mais importantes que a música Country e a voz de Cazuza reverbere mais que os sons de Lady Gaga. Sonho pelo dia em que a mensagem de Carlos Marighella soe mais alta que a de John F. Kennedy, que estejamos mais próximos de nossos irmãos argentinos, uruguaios, bolivianos, venezuelanos, paraguaios, chilenos, peruanos, equatorianos mexicanos, cubanos e tantos outros, do que dos grandes centros, pois apenas com a união se tem o progresso, que pensemos em nossas indústrias, em nossa produção, em nossa natureza.

Que paremos de olhar nossa história como vira-latas inferiores, colocando-nos aos pés dos grandes impérios e possamos conhecer nossa capacidade e o poder que temos quando descruzamos os braços e vamos à luta, lembrem-se de Emiliano Zapata, de Fidel Castro, de Chê Guevara, de Simon Bolívar, de Juan Domingo Perón, de Carlos Marighella, de José Mujica e de tantos outros que lutaram por liberdade e não aceitaram a submissão.

Não somos um só povo, mas somos uma união rica e diversa, que longe das garras do imperialismo ianque e da tão confortável submissão superaremos a exploração e construiremos um continente rico e próspero, de respeito, diversidade e fraternidade.


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