Um Artista de Máscara: Sobre a Composição na Quarentena

O gênio e o Desespero

A quarentena tem sido um momento especialmente complicado pra mim, assim como está sendo para todos. Os meus apontamentos sobre isso não poderiam ser mais supérfluos pois todo mundo já fez a mesma reflexão: estamos em um momento histórico ridiculamente difícil de se viver fisicamente e mentalmente, com um número de pessoas próximas e queridas reduzidas ao máximo e tendo que, mesmo assim, tocar as nossas tarefas para continuarmos vivendo sem perder o emprego ou repetir nas matérias da faculdade. Mas nesse ponto da reflexão sobre termos que ser mais pacientes consigo mesmo e tentar não se forçar a converter tudo em produtividade para não sairmos da quarentena mais exaustos do que quando entramos tem algo que é particularmente complicado quando se é um artista. 

Eu escrevo desde que eu me entendo por gente, desde criança indo até a minha adolescência, agora tendo o compromisso de escrever semanalmente para este jornal e tentando publicar um livro que eu escrevi ano passado. O que é mais difícil para mim nessa quarentena acaba sendo então o fato de que eu não consigo nem ler e nem escrever. A minha tripla obrigação com livros (para a escrita, para dar minhas aulas e para a faculdade) acaba transformando esse fato que é muito comum entre muita gente acabe sendo muito frustrante, a minha sensibilidade com a arte por onde eu consigo consumir e me expressar simplesmente se enclausurou dentro de mim e não consegue sair pois a complexidade emocional que seria ter que me preocupar com questões maiores do que a quantidade de cândida que eu tenho em casa e as minhas obrigações diárias sacrificaria a minha saúde mental já meio capenga neste processo. Isso tudo me coloca em uma posição de repensar muito quais são as raízes dessa frustração tão latente dentro de mim enquanto sujeito no mundo e é, partindo disso, que eu quero abordar este tema hoje. 

Para quem não sabe a forma que nós vemos o criador de uma obra de arte hoje é muito trazida das ideias do romantismo sobre o Autor. Geralmente é comum em sala de aula que o aluno se pergunte o que o autor queria dizer com este poema ou passagem do seu livro, e isso é uma indagação que vem para todo leitor, principalmente os de poesia, quando querem tentar entender um texto, e tal processo vem justamente desta visão romântica que vê no Autor um papel de criador mestre, que constrói uma intricada e complexa rede de imagens e personagens que querem sempre significar alguma coisa que, de início, vem do plano subjetivo para o campo da arte. 

Nós não poderíamos ter uma visão que valorizasse tanto o sujeito assim se nós não vivêssemos também em um mundo que é profundamente individualista e que projeta o indivíduo enquanto a medida de todas as coisas. Existem uma série de consequências políticas nesta forma de ser pensar arte que se relacionam com a formação da branquitude e do individualismo burguês mas, por enquanto, quero me atentar ao fato de que não apenas se é formado leitores a partir deste ponto de vista mas também artistas, alguns bons e outros nem tanto, que procuram profundamente dentro de si algo a ser dito que signifique alguma coisa para o mundo

Isso não é algo especialmente prejudicial para ser bem sincero, a subjetividade humana carrega dentro de si uma verdade que é por si só especial e que merece atenção e dedicação de todo mundo. Nós não somos apenas pessoas que trabalham e fazem cursos de capacitação online mas também somos pessoas que choram, amam, se entediam, desesperam-se e ficam tristes. Essa bola de neve forma uma voz que todo mundo tem e nunca vai realmente embora, seja você um escritor compulsivo no seu quinquagésimo livro seja você uma pessoa que infelizmente acabou por não aprender a ler e escrever na vida. Entretanto, mesmo assim, existe uma narrativa por trás disso que, novamente, não é exclusivamente ruim mas que acaba esquecendo coisas que, ao meu ver, dão características especiais para a nossa voz na arte. Do mesmo jeito que a voz literal não ocorre no vácuo, pois lá não passa som, mas sim em locais que possuem especialidades acústicas muito próprias e que acabam gerando fenômenos como o eco, a voz do Artista também está em condições de temperatura e pressão que são impossíveis de serem separadas da própria, às vezes o que se quer dizer com uma imagem em um poema não apenas vem de uma intencionalidade ou de um ato do inconsciente mas sim do lugar onde o artista está no mundo e este lugar é habitado por mais pessoas que moldam esta fala e que está totalmente inserido no complexo sistema de relações que fazem as coisas serem do jeito que estão no nosso país. As intrincadas relações materiais que permitiram eu poder estar dentro de casa enquanto muitas pessoas não têm essa opção também faz com que a forma na qual eu experiencio e faço a minha arte sejam da forma que são e não de outras maneiras.

Estas relações são, nesta pandemia, uma política de genocídio tomada por um governo que representa uma burguesia de capitalismo dependente que lucra ativamente com mil pessoas todos os dias morrendo e, relacionando isso com a arte, o Autor acaba entrando em uma encruzilhada mórbida.

A Realidade é Impossível 

Nos primeiros momentos da quarentena minha professora de literatura africana contou uma pequena anedota de Tolstoi. O escritor russo em sua juventude uma vez fez uma brincadeira com o seu irmão mais novo em que o mesmo deveria entrar em um quarto escuro e ficar lá até que ele não conseguisse mais pensar no urso branco. Passaram-se algumas horas desde que o irmão tinha entrado lá sem ainda ter saído ainda e, quando adentrou dentro do quarto para checar se estava tudo bem, Tolstoi encontrou o seu irmão inerte. Preocupado, o escritor pergunta porque ainda não havia saído de lá, o jovem diz para ele que, agora que ele estava trancado naquele lugar, a única coisa na qual ele conseguia pensar era naquele Urso Branco.  

O sentimento geral em relação a pandemia é este, agora que estamos todos dentro de casa, escondidos como o animal com medo que somos, não existe outro assunto que passe tanto pelas nossas mentes como é as coisas que acontecem no mundo lá fora, as várias covas, os hospitais cheios, as mortes, não tem nada que se imponha tanto agora quanto a realidade, esta que sempre foi mas nos últimos meses anda sendo impossível de escapar. O que acontece agora é um evento traumático que com certeza irá influenciar as formas como vemos o mundo mesmo após uma vacina e uma cura mas isso não quer dizer que este será um tema na arte, porque mesmo sendo esse o pensamento tirano dentro das mentes de tantos artistas ele ainda é algo tão complexo que parece igualmente impossível olhá-lo de frente como um monstro na qual você nunca consegue fugir das suas garras mas que te aperta de maneira tão firme que você não consegue se virar e olhar em seus olhos.

Nós podemos dizer que invariavelmente a arte vai falar do mundo, do lugar tênue onde os sentimentos se encontram com a realidade, podendo se focar em uma abordagem que pense na nossa história enquanto nação ou nos sentimentos que viver neste mundo traz. Sendo assim, como que se fala com verdade de uma pandemia que se passa pelo ar e isola os seus pacientes em hospitais lotados, tirando gradualmente o seu ar até o momento em que ele morre sozinho sem ninguém para segurar a sua mão e, ao fim, não recebe nem um funeral com aqueles que o amaram? Como se consegue cantar ou narrar uma nação ou algo assim? Qual é o nosso mundo agora? É uma série de filas distribuídas pelas grandes cidades nas agências da caixa-federal? Ou será que é a nossa casa, onde nós ficamos presos e com medo sem saber como viver sem ter culpa e estando em um corpo cuja a sensorialidade se dissolve porque sentir, agora, é a pior coisa a se fazer? Como, como escrever alguma coisa deste mundo? Estas perguntas colocam um peso em escrever pois é impossível falar do nosso Urso Branco sem se sentir desrespeitando de certa forma aqueles que foram dilacerados por ele enquanto é igualmente impossível não falar deste maldito.

O mundo claramente não é mais o mesmo e, para a arte, eu o vejo apenas se encolhendo. Se pensa muito no escritor como esta figura reclusa mas isso é uma gigantesca mentira, o artista para fazer algo precisa andar, ouvir, conversar, procurar lugares, sentir o lugar onde ele está e como fazer isso trocando um mundo inteiro por uma casa? As proporções que eu tinha em relação ao meu mundo com certeza mudaram drasticamente, eu me sinto procurando com uma lupa alguma coisa que não seja o cotidiano e que dê algum material, mas o mundo fica cada vez menor, e nesse processo ele fica cada vez mais ordinário, pois ser comum é ter a estabilidade necessária para não se deixar consumir mas estabilidade não é sempre aquilo que gera algo para se fazer arte. 

Qual mundo exatamente existe para a arte agora? Esta, como todas as outras perguntas são difíceis e sem nenhuma resposta muito clara agora, mas eu acho que, na verdade, estamos em um momento em que este mundo está literalmente acabando, se dissolvendo nas nossas mãos. É válido lembrar de que quando o mundo acaba quem é destruído primeiro são todas as instituições que moldam a vida social, os jornalistas não conseguem mais defender o projeto neoliberal que eles fecundaram, os governos capitalistas já não possuem mais explicações para o sangue que está em suas mãos e tudo simplesmente está deslocado de uma forma na qual as coisas estão estranhamente na mesma ordem só que em outro lugar e, conforme vai se ruindo, cada uma destas vai sendo sepultada um palmo mais fundo do que já estava e as nossas canções acabam nesta armadilha entre ser um canto fúnebre ou não ser canto nenhum.

Por uma Poética do Caixão 

O mundo está no seu fim, não quero dizer com isso que estamos fisicamente no último holocausto que irá varrer a humanidade da face da terra mas sim que o mundo como conhecemos, com o seu modo de produção e suas construções sociais está implodindo e chegando ao fim. Isso não é algo que por si só é ruim mas é péssimo que ele esteja levando consigo centenas de milhares de mortos e sem nenhuma garantia de melhora. O mundo já acabou várias vezes antes e por muitas outras irá acabar, tivemos a peste negra, a primeira guerra mundial e o holocausto, o olhar desesperado para a sua própria mão já é um questionamento antigo na história da arte. Mas, mesmo assim, o que fazer agora? 

O artista agora acaba sendo como um defunto sepultado. Como ele está morto, ele tem de deixar ir, deixar ir algumas coisas e manter a sua pele fria, mas não apenas dentro de si as coisas estão indo embora como praticamente todo o seu mundo também o foi, e já não há mais volta, até que a porta da tumba se abra. Creio que o primeiro passo seria se perguntar do que você, leitor, está disposto a deixar ir, visto que é sempre mais fácil perguntar aos outros. O que você deixaria ir embora? 

Após isso, sabendo muito bem o que temos por hora, acho que um caminho seria por fazer uma poesia da porta que cotidianamente olhamos quando acordamos em nosso caixão, cantar sobre ela, sobre suas lascas de madeira e até mesmo sobre os vermes que passam por ela, acho que talvez o caminho seja por aí. 



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