O telemarketing que lute.


Acordei tão cedo que desejei profundamente ser abduzida apenas para continuar dormindo no caminho para não sei onde. Pensei nas mais variadas possibilidades de me fazer pegar no sono de novo e, de tanto rolar na cama, o alarme tocou. Era ligação. — Oi, quem fala? Pensei no que Buda diria se tentassem estressa-lo ao […]


Acordei tão cedo que desejei profundamente ser abduzida apenas para continuar dormindo no caminho para não sei onde. Pensei nas mais variadas possibilidades de me fazer pegar no sono de novo e, de tanto rolar na cama, o alarme tocou. Era ligação. — Oi, quem fala? Pensei no que Buda diria se tentassem estressa-lo ao desabrochar do dia. Ando muito good vibes para perder a compostura às 6 da manhã.

A primeira foi a Fabiana, num barulho ensurdecedor, achei que estivesse me ligando do trânsito da Avenida Paulista em horário de pico. Disse um monte de palavras desconexas que só consegui captar “seis meses de fidelidade e um brinde personalizado”. Queria ter dito a ela que de fidelidade eu entendo e até queria o brinde, pois me sinto especial e ainda, no combo, gosto também de me iludir, mas a ligação caiu antes. Coloquei o celular no silencioso e pensei em algo que pudesse criar o ânimo que eu precisava, ultimamente inexistente na minha rotina atordoada. Quando resolvi olhar o telefone, sete ligações perdidas com o DDD do Paraná, mas não conheço ninguém que mora no Paraná, não há porque retornar, que sorte. O dia seguiu entre ligações de um tal de Carolina que queria saber se a Teresa estava, depois veio o Pedro falando de doação para entidades filantrópicas e eu, comovida, antes de doar o que ele pretendia, me doei.

Durante as obrigações do home office e pequenas pausas para profundas respirações, houveram outras ligações que se alternavam em desligar ao atender e tocar algumas vezes desligando antes do atendimento. Nessa hora eu já me sentia exausta e quase pensei em marcar uma consulta porque vai que rola um calmante, mas o telefone tocou de novo e dessa vez era uma tia perguntando sobre o número de telefone de algum lugar que eu não conheço. —Tudo bem, tia. Vou pensar com quem posso conseguir e te ligo de volta. – Te ligo? Parei. Até a palavra ligar já havia me incomodado nessa altura, irritadiça, pensei no suco de maracujá tão natural que estava na geladeira, típico de quando eu acho que fazer tal coisa me deixará melhor que o estado anterior. Talvez fosse melhor não me perder em devaneios que não mereciam tamanho espaço. Se as empresas que utilizam do telemarketing como forma de comunicação com seus prospects e credores soubessem a quantidade de ligações que eu havia recebido durante todo o dia, certamente se comoveriam falando: — Ah, coitada! Vamos deixa-la em paz!

O problema já havia deixado de ser as ligações e transformou-se no mundo, na inabilidade de cuidar das suas necessidades viscerais. Quantas elucubrações cabiam na existência humana que fazia de tudo para se anestesiar do que realmente pulsa dentro de nós? Começar com uma sensação e terminar em outra, nada mais homo sapiens. Fluidez contemporânea e todos aqueles termos que criamos para os novos temas que vão surgindo e não sabemos decifrar.

Mas chegou a vez da Rosa me ligar e, para o seu desgosto, quem estava cheia de espinhos era eu, desliguei.


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