O paradoxo das gerações.

Não me recordo onde aprendi a enxergar os idosos numa escala evolutiva à muitos degraus acima dos meus. Não consigo lembrar em que momento isso se aflorou em mim. Parece que já estava sempre. Eu os observava como quem diz: – Melhor não falar sobre os meus anseios, soará imaturo. Certamente na visão deles eu pouco vivi, ainda há o cheiro da jovialidade adormecida.

Eles não sabiam, mas eu tenho um enorme orgulho da juventude.

Por outro lado, pela ordem que se segue desde que este mundo é mundo, imaginava que em seus íntimos era assim que me enxergariam. Como aquela que ainda não sabe nada sobre viver.

Foi então que eu tive uma enorme surpresa. Muitos deles ainda eram como sou hoje. Os medos, costumes, manias, eram os meus neste mesmo estado da atualidade em que vivo. Só que eu hoje, não gostaria de ser a mesma amanhã. E nem acredito que realmente seja possível manter-se completamente inerte. A vida nos obriga e empurra, ainda que não queira movimentar-se, e jamais se curva a sua necessidade de preparo.

Para quem devo pedir para morrer antes?

Pois a minha ficha caiu!

A mudança que se deseja é agora. Está na fala, no jeito de pensar e agir. Acreditar que amanhã será diferente não é o suficiente. Era agir. E rápido. O álibi era a alegria. Só a alegria futura então poderá me salvar dos holocaustos que viriam por manter a décadas costumes irrelevantes. Preciso salvar-me de mim futuramente, porque não se sabe em qual esquina cruzarei com o meu eu de hoje. Daqui a cinquenta anos vou reclamar e mal dormir pelas mesmas escolhas mal estruturadas que insisto em errar agora. A sorte é que nem todo dia se perde e se ganha, o que é um conforto.

Nessas oscilações sentimentais da matéria, a vida segue esbravejante em silêncio.

Que Deus permita que futuramente eu seja alguém que lutou muito para combater as inclinações turvas que vou identificando no caminho e, certamente, o amanhã será muito melhor que hoje.



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