A construção do casamento e o afeto como ferramenta revolucionária


Como já citei em minha publicação anterior, onde preparei Uma síntese sobre o trabalho, conhecer a origem e a composição das palavras nos dá excelentes ferramentas para compreender a construção de seu significado e por consequência os diferentes momentos históricos pelos quais o mundo passou, o que não é diferente quando falamos de relações amorosas […]


Como já citei em minha publicação anterior, onde preparei Uma síntese sobre o trabalho, conhecer a origem e a composição das palavras nos dá excelentes ferramentas para compreender a construção de seu significado e por consequência os diferentes momentos históricos pelos quais o mundo passou, o que não é diferente quando falamos de relações amorosas e de questões culturais.

O casamento é uma das instituições mais consolidadas no mundo, presente com algumas pequenas mudanças do extremo oriente ao extremo ocidente e sendo um dos pilares da sociedade judaico-cristã, por isso trago três palavras essenciais desse modelo, com objetivo de elucidar o início deste nosso debate, são elas: matrimônio, proletariado e família.

O matrimônio tem como um de seus radicais “matre”, que no latim significa mãe, utilizada como uma representação do casamento, por isso faço a seguinte provocação: se alteramos o radical para “patre”, pai em latim, a que termo chegamos? Outra palavra, essa muito utilizada no vocabulário marxista, o proletariado, tem em sua composição o radical “prole” e desde o início designou-se a pessoa que nada tinha além de sua força de trabalho e a de seus filhos, para cuidar de suas terras, ou melhor, das terras de seu senhor. Essas duas palavras citadas são hoje o que compõem a tão comentada “família” que não, não foge de uma origem um tanto quanto menos nobre do que propagam seus defensores: “famulus”, que é uma espécie de trabalhador servil – ou um conjunto deles – da casa, sob os comandos de um patriarca. No século XVII, a família também era composta pelos servos que na residência viviam – e aqui faço outra provocação: lembre-se de como a elite costuma referir-se a suas empregadas domésticas, que por coincidência são em maioria maioria mulheres negras e mal remuneradas.

Essa construção de família vem de um longo processo histórico, abrangendo diferentes núcleos de pessoas no decorrer do tempo e funcionando de diferentes maneiras, a família nuclear defendida pelos conservadores é uma criação recente, iniciando-se por volta do século XIX, historicamente é ainda um bebê que não saiu das fraldas.

O ataque a ‘família tradicional’ – que como já vimos não é tradicional – foi perseguido em todos os governos capitalistas da história – especialmente os de direita -, um grande exemplo é a ditadura brasileira, onde a pessoa mais censurada foi Cassandra Rios, com 36 de seus 50 livros, mesmo com a escritora não falando diretamente sobre política, e sim sobre relacionamentos e questões sexuais. Cassandra era uma mulher, trabalhadora e lésbica.

Mas afinal, por que a questão familiar é tão importante para o sistema capitalista e seus defensores? Por que ela é necessária para seu funcionamento e onde ela deve e onde não deve existir? Em termos históricos, o casamento é uma forma de conseguir parentes, expandir a força de trabalho ou fazer alianças, tudo depende de sua classe social e isso permanece sendo assim, de maneira mais explícita do que imaginamos, basta que vejamos como são os contratos de casamento: eles tratam explicitamente de um documento para transmissão de bens e propriedades, nada tendo a ver com amor e romantismo, que nunca foram a base do que é o casamento.

Afinal, o que seria do romantismo sem a traição? O casamento associado ao amor é, assim como a família nuclear, uma tradição recente. Em uma de suas obras, Andrea Capellano (1150-1220) cita que o casamento não é uma desculpa para não amar, mas o que parece uma defesa ao amor conjugal é na verdade sobre ter amantes, pois é a elas que o amor era destinado, o amor cortês nunca se trata sobre com quem você está casado.

Um exemplo mais próximo e mais recente é do Imperador Dom Pedro I, que casado com Maria Leopoldina da casa de Habsburgo, manteve por mais de uma década incontáveis amantes, sendo a principal delas Domitilla de Castro, a Marquesa de Santos, romance retratado no livro “Titília e o Demonão – Cartas inéditas de Dom Pedro I à Marquesa de Santos” que como mostra o título, traz documentos históricos que mostram um pouco dessa relação. Nas cartas para Domitilla, Dom Pedro I trata as relações sexuais com Leopoldina como obrigações conjugais, ou seja, serviam apenas para a procriação e geração de herdeiros, enquanto o amor com sua amante se dava pelo prazer, onde ele até mesmo jurava fidelidade – apesar de ter tido um filho com sua irmã.

Outro ponto importante a ser citado é a abolição do casamento entre os clérigos da Igreja Católica, que teve como objetivo a preservação dos bens da mesma, pois esses filhos poderiam brigar pela herança e sucessão, algo que acontecia com frequência, havendo até mesmo dinastias na cadeira papal.

A crítica ao casamento arranjado iniciou-se com o Iluminismo, essas relações começaram a desconstruir-se nos níveis mais baixos da Nobreza Europeia – elas se mantém até hoje entre as ‘famílias reais’ – mas, não coincidentemente, isso acontecia no mesmo momento da ascensão da burguesia na sociedade europeia, essa desconstrução servia muito bem aos interesses político-econômicos das classes emergentes, que eram cada vez mais fortes.

AS RELAÇÕES HOJE

Com um mundo em frequente mudança e a questão financeira não sendo mais ligada apenas aos títulos, mas a propriedade dos meios de produção e a necessidade da perpetuação deste sistema, começaram a surgir novas regras matrimoniais na sociedade ocidental, prezando pela monogamia e deixando claro o funcionamento das heranças e oferecendo produtos e necessidades a essa nova configuração social.

Essa configuração, que começou a ser questionada pelos movimentos de dissidência sexual nos anos 60 tornou-se um novo nicho de mercado e de algo a ser combatido, virou algo a ser explorado, com produtos, locais e outros bens de consumo.

Falar sobre a história do mundo é falar sobre a história do dinheiro, desde os primórdios desse sistema, qualquer manifestação de desejo que não gere lucros é reprimida, isso explica porque, como já citei, setores do mercado tentam associar-se às pautas LGBT’s: os gays, lésbicas e bissexuais se tornaram um grande nicho de poder de consumo inexplorado – e eu não citar outras letras da sigla não foi por falta de atenção. O capitalismo tem o poder de cooptar tudo para si, vemos desde a Revolução Cubana que líderes como Che Guevara e Fidel Castro tornarem-se camisetas, chaveiros, bottons, adesivos, etc, não seria diferente com questões sexuais.

Hoje até mesmo as lutas antis-sistêmicas são cooptadas, e quando acusadas de coisas como “Querer destruir a família” a negação é imediata: não se luta mais pelo fim dessa configuração, mas pela inserção na mesma, e a cada vez que alguns adquirem novos direitos, a luta não é para que sejam universais, mas para que se mantenham para si.

Mesmo que muito menos radicais do que poderiam ser, existe a resposta de quem perde a exclusividade dos privilégios e com isso a homofobia e o machismo perpetuam-se de maneira direta ou indireta, isso mostra ainda mais a necessidade de uma mudança social radical. Como diz Slavoj Zizek, o verdadeiro teste moral não está em ajudar as vítimas, mas em destruir quem as colocou nessa posição.

Falar sobre este tema não é necessariamente uma defesa ao fim do casamento ou da monogamia, acredito que as liberdades são um bem inalienável do ser humano e a luta deve ser a favor disso, para que não haja uma opressão sistêmica que crie modelos inquestionáveis que oprimem os indivíduos na expressão de suas individualidades. Que a mulher tenha a mesma liberdade do homem ao aproveitar sua vida de solteira, que a união familiar trate de um ambiente de colaboração e respeito, e não de opressão servil, que os gêneros e sexualidades sejam respeitados em sua expressão e que os movimentos de dissidência sejam acima de tudo políticos, pois só assim as conquistas são reais.

Ser verdadeiramente radical é tornar a esperança possível e não o desespero convincente. – Raymond Williams


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