100.000 Fitas de Atari Mortas


1. Vocês conhecem a história das fitas de Atari do ET? É uma pequena anedota que anda na minha cabeça há algum tempo já. Hoje em dia isso já não acontece mais tanto mas durante um bom tempo existiam jogos de videogame para cada filme que fazia sucesso, eles eram feitos com um grande enfoque […]


1. Vocês conhecem a história das fitas de Atari do ET? É uma pequena anedota que anda na minha cabeça há algum tempo já. Hoje em dia isso já não acontece mais tanto mas durante um bom tempo existiam jogos de videogame para cada filme que fazia sucesso, eles eram feitos com um grande enfoque em filmes infantis, visto que as crianças seriam as pessoas mais suscetíveis a comprar depois de assistir um filme. Com o sucesso massivo de ET O Extraterrestre, a empresa detentora dos direitos do filme produziu um jogo com o mesmo nome e que acabou sendo um grande fracasso, considerado até hoje como um dos piores jogos já lançados e como um dos maiores fiascos comerciais dentro da indústria de jogos.

O intuito original quando se fabrica algum produto, desde uma cadeira até um jogo, é que ele seja comprado para que, assim, ele possa pagar o seu custo. Entretanto, quando você não consegue vender ele, o próprio fato de estar armazenado em algum lugar já é um custo, e, para não barateá-lo absurdamente, muitas vezes os donos de empresas acabam optando por destruí-lo e jogado no lixo, para manter o preço e se livrar do produto. Uma das história mais famosas em relação a isso aqui no Brasil foi quando houve a crise de 1929 e as vendas de café caíram drasticamente, causando uma grande queima das sacas de café. Diz a lenda que era possível sentir o cheiro do café queimado de Santos até São Paulo.

A mesma coisa aconteceu com o jogo do ET, a empresa Atari enterrou em um deserto do Novo México milhares de fitas desse jogo, junto com excessos de estoque que haviam dentro. Essa é uma história que pode te fazer pensar muito sobre desperdício, ou sobre como nós preferimos enterrar uma série de produtos que são produzidos com materiais que demoram séculos para se decompor ao invés de distribuí-los ou, até mesmo, diminuir o seu valor. Ela também pode não te suscitar nenhum desses pensamentos e você vai tocar a sua vida, certo? 

E não poderia ser de outra forma, afinal, o mundo é assim mesmo. Você age de acordo com a lei da oferta e da demanda, se não há demanda o suficiente, você tem o direito de jogar algo que é seu fora, pois o mesmo é a sua propriedade e nós, de fato, fazemos isso todo o dia. Agora, enquanto eu escrevo, é o dia de jogar o lixo fora e eu mesmo empacotei um saco com uns 2 Quilos de lixo. Esse lixo só é chamado de lixo para mim porque ele não tem mais nenhuma utilidade na minha vida. Na verdade, é do meu interesse que o lixo seja jogado fora pois ele não só não me serve mais como ele me desagrada dentro da minha casa, ele fede e atrai ratos, e ninguém poderia me julgar em relação a isso, eu não jogo o lixo na rua e nem no mar, mas será se é só por isso? Quando eu penso sobre o meu lixo também me vem a resposta de que ninguém se importa com o lixo, o lixo é uma coisa, eu só jogo ele fora para ser enterrado em uma vala e toco a minha vida, certo? 

2.  Lixo também me lembra morte: No fim nós acabamos também sendo jogados fora como se fossemos coisas. Geralmente quando nós falamos de morte nós somos muito ingênuos, como se sempre continuássemos sendo crianças. Uma vez um poeta alemão disse que você pode matar um homem de muitas formas: Cravando um punhal em seu coração, não tratando a sua doença, tirando o seu alimento, fazendo-o trabalhar até a morte ou impelir o pobre coitado ao suicídio, entretanto, apenas uma destas ações é considerada crimes pelo estado. E não poderia ser de outra forma, porque quando um homem trabalha ele o faz vendendo o seu trabalho e ele, por si só é um produto, ele pode escolher entre oferecer aquilo que eu demando ou ofertar para outro, certo? Da mesma forma que se eu for o dono de um banco e um sujeito ficar devendo para mim eu posso cobrar juros absurdos, tomar a sua casa e todos os seus bens de valor para ressarcir a sua dívida, mesmo que ele acabe na rua sem ter onde dormir ou acabe cometendo suicídio, pois, afinal, o dinheiro me pertence e se ele não pagou então o problema é dele, certo? Ao fim do dia, você toca a sua vida. 

3. Quando o assunto acaba sendo o mundo das coisas e o mundo das pessoas a linha sempre me parece um pouco turva. Em casa eu tenho algumas plantas, e elas são seres vivos que respiram, se alimentam e se reproduzem, elas podem não serem seres vivos como eu e você mas com toda a certeza estão vivas, isso é biologia, não há contestação. Se um dia eu for convidado para viver 6 meses na casa da minha irmã, eu posso deixá-las murcharem, deixarem de tomar sol e água, até que elas morram, certo? Todo mundo já tentou ter uma plantinha em casa e acabou esquecendo de colocar água, é algo que acontece. E mesmo que eu não tenha sido apenas irresponsável, caso eu tenha sido verdadeiramente cruel com estes seres vivos e deixado eles morrerem por negligência minha e porque simplesmente seria muito caro pagar a condução de metrô até a minha casa apenas para alimentá-las ninguém poderia se opor, porque elas são minhas e ninguém pode me chamar de assassino em massa, certo? No final das contas, a gente toca a vida, plantas morrem, assim como todo mundo. 

4. Uma outra linha que me parece um pouco turva é entre uma propriedade e outra. Por exemplo, todo mundo tem algo, desde um celular, um computador, roupas até casas e afins, todas essas coisas que nós compramos com dinheiro da mesma forma que um dono de uma empresa compra prédios e máquinas. Só que, mesmo que me digam que as duas aquisições são a mesma coisa, ainda assim me parece que a responsabilidade do dono da empresa deveria ser maior do que a minha, mesmo nós dois tendo comprado coisas com dinheiro. Voltando aos exemplos das plantas, o aquecimento global não é a minha culpa porque eu deixei minhas plantas morrerem, entretanto se eu fosse dono de uma floresta inteira seria, e é por isso eu acho que, mesmo usando a mesma forma de obter coisas, que é o dinheiro, certos donos de coisas tem mais responsabilidade do que outras. Precisaria acontecer um evento muito improvável para que, de alguma forma, a minha casa acabasse fazendo com que o meu vizinho tivesse menos dinheiro para sustentar a sua família e acabasse trabalhando 12 horas por dia, só que se eu fosse o dono da empresa onde ele trabalha eu teria muito mais poder e responsabilidade sobre algum evento assim.

Nisso se adiciona um outro fator, eu não ganho nada com as minhas plantas, eu não vendo os meus pés de alecrim para ninguém e as minhas arrudas infelizmente não constroem brinquedos ou outros bens que eu pudesse vender, só que existem pessoas que possuem o trabalho de outras pessoas, trabalho este que gera dinheiro, dinheiro que não vai integralmente para quem trabalha. Como vivemos em um mundo livre, se eu fosse uma pessoa deste tipo eu poderia escolher o quanto eu gostaria de pagar e a pessoa dona deste trabalho poderia escolher se aceita ou não. Ninguém poderia me chamar de um assassino caso esta pessoa acabasse por não conseguir pagar algum remédio para os seus problemas de saúde, certo? Vida que segue.

5. Claro que alguém pode dizer que eu sou dono daquelas plantinhas, mas o dono da empresa não é dono de ninguém, só que esta é uma outra afirmação que me deixa desconfortável. Claro que se o dono de um restaurante der um tiro no seu garçom ele vai ser preso porque nós não vivemos mais em um regime de escravidão, só que se o dono do restaurante obrigar alguém a trabalhar 12 horas sem nenhuma pausa, correndo o risco de perder o emprego isso não seria chamado de assassinato. É bom lembrar que, como eu disse antes, vivemos em um mundo livre, então o garçom poderia pedir as contas e ir embora quando ele quisesse mas e se não houvesse mais restaurantes aceitando garçons? As vezes quando a demanda é baixa, as pessoas tomam atitudes que elas não tomariam em outro contexto, assim como na história do jogo do ET que eu contei no início desse texto. 

Sendo assim, uma outra linha que fica turva para mim é entre um ser humano e o trabalho que ele exerce, quando alguém me pergunta qual é a minha profissão eu digo que eu sou professor de português. Ser é um verbo que tem o significado de representar uma condição muito intrínseca da identidade do sujeito e, de fato, essa definição cabe muito na maneira em que empregos funcionem. Meu pai também é professor, assim como minha mãe, se eles não tivessem um emprego, eles não poderiam fazer as coisas que eles gostam, assistir os filmes que os agradam e se divertir com o que lhes fazem bem, será que eles seriam realmente a mesma pessoa? 

E sim, você pode dizer que nenhuma destas coisas que eles usufruem fazem as suas identidades mas será que isso é realmente verdade? Será que uma grande personalidade como Shakespeare teria pensamentos tão profundos sobre a condição do ser humano se ele tivesse que trabalhar tecendo lã para pagar o pão do próximo dia? Por mais que eu concorde que nós não somos o que temos, para mim nós somos o que fazemos e a verdade é que para fazer algo você precisa em maior parte das vezes ter coisas para fazer ou mesmo pagar alguém que o tem, se você não tem uma bola você não pode ser um jogador de futebol. Por isso eu acho que o verbo ser é perfeito para falarmos sobre empregos, nós somos os nossos empregos porque, para maior parte da população, sem eles nós não poderíamos ter as condições de existir e, sendo assim, nós somos também o produto de alguém, alguém que tem o poder de decidir se hoje você come ou não. E não é como se ninguém soubesse disso, você sabe, e a gente toca a nossa vida em frente.

6. É triste pensar que temos donos, certo? A categoria de objeto simplesmente não consegue explicar porque uma pessoa chora ou é feliz, ou porque ela gosta de alcaparras e até mesmo porque alguém chora quando ela morre. O sentimento de tristeza que eu tive quando o meu computador morreu quando eu precisava dele para assistir aula e trabalhar não é o mesmo que eu tive quando eu perdi a minha melhor amiga. 

Só que, infelizmente, nós pertencemos a certas pessoas, de maneiras bem piores do que nós imaginamos. Se lembra da história do jogo do ET? Então, nós não somos objetos de uma categoria muito distinta que uma fita de Atari. Quando uma crise acontece, os excedentes precisam ser queimados, sejam eles fitas, sacas de café, ou seres humanos. Isso ocorre pois há uma quantidade enorme de pessoas que ficam desempregadas, e isso é péssimo pois estas pessoas podem desestabilizar o governo por meio de manifestações ou outros tipos de revolta e o fato de haver tantas pessoas sem condições de comprar produtos faz com que a produção entre em crise. Convenientemente, sempre muito próximo de uma crise econômica acontece uma guerra, com foram as duas guerras mundiais, por exemplo. Isso se explica porque uma guerra demanda um esforço industrial enorme para produzir provisões como comida e armamento só que não apenas isso, a guerra também leva milhões de pessoas para a morte, isso diminui a quantidade de mão de obra disponível e consegue fazer com que a economia volte de volta aos trilhos. 

Claro que nem sempre precisa-se de uma guerra, mas é muito difícil que aconteça um evento histórico que consiga gerar uma quantidade de mortos diários que ultrapasse a mil, certo? Quando as pessoas falam que a quarentena é ruim para a economia elas estão certas, mas não porque o comércio vai resolver a crise econômica, principalmente porque ela já estava em curso. A economia vai se regenerar matando o excedente da mão de obra de uma maneira que a produção consiga voltar.

Entretanto, o espiral da desgraça infelizmente não acaba só nisso. Todo mundo sabe que quando você é dono de uma empresa você recebe ganha uma quantia de dinheiro que vai além do que você gastou, isso se chama lucro. Uma das coisas que diminuem o lucro é justamente quando não há pessoas desempregadas, porque se todo mundo está trabalhando todo mundo pode escolher parar de trabalhar para demandar receber maiores salários, então, para aumentar a taxa de lucro você precisa, paradoxalmente, que haja pessoas desempregadas o suficiente para que você possa demitir grevistas ou qualquer um que não aceite as condições de serviço.

No fim das contas, se há desemprego demais é um problema porque não tem gente suficiente comprando e se não o há também é um problema porque é lucro de menos no bolso de quem é dono da empresa, e em ambos os processo pessoas morrem por não terem o que comer ou onde dormir. Você não precisa usar um punhal para matar um homem, você pode tirar todos os bebedouros das ruas e deixar alguém que não tem dinheiro para pagar uma garrafa de água morrer de sede, e tudo bem, pois se a praça é sua ninguém pode lhe chamar de cruel ou assassino, certo? 

7. Uma outra maneira que pode também aumentar a taxa de lucro é ter um governo fascista no poder. Porque ele vai ser contra todo e qualquer movimento que lute por melhoria das qualidades de vida. Não é a toa que muitos liberais olharam com bons olhos para a ascensão de Mussolini, Hitler e Pinochet. Quando você ameaça de matar qualquer um que entre em greve, você mantém os lucros e ainda consegue se expandir economicamente.

Mesmo que isso acabe incomodando certos setores da elite, no final das contas pessoas censuradas e mortas acabam sendo um preço pequeno para se pagar quando o assunto é economia, você não acha?

isso só me faz pensar em como que, por mais que nós tenhamos eleições e sufrágio universal, este não é uma garantia de democracia, e nem o pode ser porque geralmente quem tem o dinheiro para imprimir panfletos e fazer propagandas massivas pela internet não precisa vender o seu trabalho para viver. Para além disso, as mesmas pessoas que pagam por estes panfletos também pagam por redes de televisão, streamings de vídeo, produtoras de filmes e afins. Logo, existe uma série de formas na qual um projeto político pode ser vendido como melhor do que o outro e, mesmo que nada disso importe quem tem o dinheiro para um filme blockbuster também tem o dinheiro suficiente para influenciar um exército. Entretanto, nada disso é violento, ainda que tenha gerado o holocausto e cem mil mortos no Brasil, nada disso é violento pois o que é errado para uma pessoa é aquilo na qual ela tem consciência da sua existência. Se eu disser que os donos de grandes empresas foram os responsáveis pelo holocausto e são os responsáveis pelos mortos de coronavírus no Brasil todo mundo me diria que o problema, agora e antes, não estava na classe econômica e sim nos políticos que estavam no poder. Entretanto, quem foi que pagou os folhetins do partido nazista? E quem pagou as propagandas do PSL? 

Para terminar, eu gostaria de concluir o meu raciocínio sobre pessoas e coisas. Acho que aquilo que delimite o que é uma pessoa e o que é algo está na sua reação, se eu falar pra minha mãe que eu considero ela um objeto ela provavelmente me daria uma tapa na cara, se eu falasse isso com um celular ele não faria nada, mesmo se entendesse. Para além disso, se eu cortasse a mão de alguém, dificilmente essa pessoa não faria nada, ela faria qualquer coisa para expressar e se revoltar contra essa situação, se eu esmago um objeto qualquer ele não vai me fazer nada.

Uma fita de Atari seria uma pessoa se ela cortasse a cabeça de quem quer que tivesse sido o responsável por enterrá-la em um deserto. Provavelmente algum teórico ilustrado nos cafés de Paris chamaria isso de totalitário, acharia algo completamente avesso aos ideais iluministas, e talvez ele estivesse certo, porque estes ideais foram constituídos para quem tinha uma certa cor, uma certa raça e um certo gênero ou, resumindo, uma certa categoria de pessoa, não de objeto. Uma cabeça cortada não é um objeto, é um fóssil de um mundo que era cruel e já não é mais. Mas isso é história, coisa de esquerdista, eu ouvi hoje no jornal que precisamos tocar a nossa vida então vida que segue!


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