Se Uma Obra de Arte é Ruim, Parte da Culpa é Sua


A Narrativa e a Morte Grande parte das histórias que nos são contadas por filmes, séries, quadrinhos e livros devem diretamente do gênero literário do romance. É importante lembrar que quando se diz Romance aqui não se fala de histórias de amor mas sim de livros escritos em prosa, com um personagem principal e um […]


A Narrativa e a Morte

Grande parte das histórias que nos são contadas por filmes, séries, quadrinhos e livros devem diretamente do gênero literário do romance. É importante lembrar que quando se diz Romance aqui não se fala de histórias de amor mas sim de livros escritos em prosa, com um personagem principal e um início, meio e fim. 

A característica principal deste gênero literário é o valor excessivo que se dá ao indivíduo nesta forma literária, um exercício interessante para comprovar esta influência é ver a quantidade de livros que existem com o título de seu personagem principal como Dom Casmurro, Madame Bovary e outros. Vários teóricos já pensaram bastante sobre o tema, sendo  um dos mais importantes o ensaísta alemão Walter Benjamin que no seu ensaio sobre a obra do contista russo Nikolai  Leskov dizia que o romance já não trazia mais em si a grande gama de valores pedagógicos que haviam nas narrativas clássicas, por ser um gênero que representava a formação do capitalismo e o distanciamento que este sistema construía em relação às tradições orais. 

Neste ensaio, um dos apontamentos mais interessantes que é trazido é que, ao fim do romance, o que nos resta é a morte, que muitas das vezes é representada pela morte literal do próprio personagem, deixando o leitor a contemplar este fim e a nossa própria condição humana após o final do livro. Sendo assim, o término e a morte de todos nós é uma parte central para pensarmos nas formas em que contamos nossas histórias atualmente. 

Falar sobre a morte é sempre algo muito difícil, esta experiência por mais que seja universalmente presente é, também, algo da qual nós fugimos como o diabo foge da cruz. Isso se dá também principalmente pela maneira na qual a morte para nós ocidentais é tratada, sendo sempre mediada pela instituição médica e sendo sempre tratada da maneira mais traumática possível. É difícil ver alguém que realmente esteja tão resolvido com esta questão a ponto de aceitar este fenômeno e todos os sentimentos que vem junto dele. Ninguém quer morrer, e por isso nós acabamos esquecendo que nem sempre morrer é algo ruim, e a arte popular dos últimos anos nos ensina essa lição.   

O Que Nós Sentimos Quando Uma História Morre

Na cultura pop a morte também é evitada de todas as formas possíveis, mas não pelos mesmos motivos. Quando uma história morre se cria uma falta, se ela foi realmente boa e conseguiu falar com você, dificilmente você sairá se sentindo bem do término desta obra. Claro que eu não quero dizer aqui que todo bom livro deve te fazer chorar mas sim que toda obra que seja vivida e encarnada dentro de si te deixará com saudades, e isso não é algo ruim, muito pelo contrário. 

A verdade é que nós amamos arte principalmente pela forma na qual ela nos faz sentir coisas, em como nós dissolvemos todas as nossas barreiras para sentir algo de novo que reordene todo o nosso ser, e isso é algo que nos traz uma saudade, uma falta que não é apenas dos personagens e do enredo, mas sim da maneira na qual nós nos sentimos naquele exato momento do primeiro contato e na qual nós não sentiremos nunca mais. Se não fosse assim, qual seria o valor de reler um livro ou de reler um poema até que uma boa parte dele naturalmente esteja decorada na sua cabeça? Porque qualquer pessoa se prontifica a assistir novamente o mesmo filme e perder duas horas da sua vida quando ele poderia estar assistindo algo completamente novo? A resposta é que, para além do fato de que toda boa arte terá sempre algo novo a te ensinar, você volta para uma obra antiga para sentir novamente como era o seu sentimento naquela primeira vez. 

Entretanto estas sensações não são coisas que estão apenas atreladas com esta experiência do fim. Na realidade, elas são mais como forças expansivas que nunca descansam em nenhuma parte do nosso ser, se expandindo para recriar novas formas de se sentir todo e qualquer sentimento antigo. A forma na qual você se sentia assistindo Rei Leão não apenas fica preso nas duas horas da animação, mas sim nas músicas que te marcaram e em uma série de vários outros sentimentos que seria impossível de catalogar, e isso só pode acontecer porque aquela arte é do jeito que ela é, e sendo dessa forma ela só pode adentrar dentro de ti porque ela tem um fim. Ouso dizer que a arte começa de fato nos momentos após o seu fim e, principalmente, quando saímos vamos viver as nossas vidas, e isso é uma coisa que parece escapar de todos quando o assunto é cultura. 

Quem é o Dono de Uma Obra?

O grande problema é que essa constatação não respeita as ordens do mundo em que vivemos. Imagine como seria embaraçoso dizer para o CEO da Disney que fazer um remake de Rei Leão é estúpido pois o original já cumpriu a sua função como arte ou imagine a reação de um jovem adulto médio quando eu dissesse a mesma coisa sendo que ele passou toda a sua vida em uma cultura cuja o único ciclo que é respeitado é aquele na qual um produto quebra para ser substituído por outro? A arte entra em conflito com a nossa ordem industrial de produção capitalista alarmada, e dessa briga ela nem sempre ganha. 

Neste texto o foco não é o autor mas, sendo eu mesmo um escritor, vale a pena trazer alguns apontamentos sobre este elefante na sala. A arte só conseguiu se elevar ao status de pop quando as condições materiais de distribuição da mesma conseguiram evoluir em um nível onde não mais unicamente o clássico erudito conseguiu ultrapassar as barreiras geográficas e ser, de fato, muito bem divulgado ao redor de todo o mundo. Fenômenos de livros como 50 tons de cinza chegarem a serem traduzidos para uma variedade de línguas e serem best-sellers internacionais nos mostra como você não precisa mais ser um Homero ou um Shakespeare para ter livros tanto nas livrarias de Rússia quanto nas do Brasil, e isso não é algo necessariamente ruim, pois aquilo que constitui a categoria de clássico acaba também passando por um processo de silenciamento de uma série de histórias que merecem serem divulgadas (não que este seja o caso de 50 tons de cinza). 

Entretanto, esta mudança no eixo da divulgação e da publicação também muda a postura dos autores de obras pop pois a arte nestes casos se mescla muito com a categoria de um produto de consumo e, por isso, o artista perde a sua colocação de gênio criador que constrói grandes obras e se junta em uma categoria deformada que o obriga a ter que produzir uma obra no esquema industrial da produção de enlatados, mas que ainda tenha a qualidade que o fez ser celebrado para início de conversa. Um ótimo exemplo é sobre como a série de livros que originou Game of Thrones é tratada. Mesmo que o autor seja muito bem visto por toda comunidade, o público não parece respeitar o seu processo demorado de composição e a sua própria vida pessoal e sua condição física, visto que ele é um senhor  de idade avançada.

Isso coloca uma questão muito interessante que é: quem de fato pode ditar a composição de um livro? Nesta tensão entre o artista e o público, aparentemente, quem sai ganhando é o público pois, sem a sua popularidade, as contas do artista não são pagas. 

Só que o leitor não é um vampiro malévolo com uma sede insaciável por mais conteúdo, ele é mais uma pessoa que foi educada pela forma na qual o sistema capitalista consome qualquer coisa. Por isso que nós não podemos colocar agora o público como o dono da obra mas sim o próprio capitalismo, pois é ele que funciona e nos ensina enquanto público a funcionar de tal maneira. 

Viva e Deixe Morrer

É nesta intrincada relação que surge o fenômeno das sequências e dos remakes, pois eles que são o produto natural de um mundo que não consegue fazer outra coisa com sentimentos que não enlatá-los até que eles percam o seu sabor orgânico. Sendo assim, nós enquanto consumidores constantes de obras de arte não somos nada mais que viciados em ciclos eternos que nos façam para sempre repetir os mesmos sentimentos que tivemos há muito tempo atrás, quando ainda não tínhamos sido adestrados a consumir a cultura ao invés de senti-la. 

Quando uma legião de fãs se alegra histericamente por um novo filme do star wars, não é porque eles estão animados por sentirem coisas novas e diferentes mas sim porque eles estão felizes em poder se sentir novamente da mesma forma que se sentiram quando eram crianças sem nunca, de fato, evoluir enquanto seres humanos e sem nunca aceitar que a morte existe. Ao invés disso, acabamos fazendo com que histórias vivam de tal maneira na qual ela se corrompe até que não haja mais nada que não uma sombra daquilo que nos fez amá-las para início de conversa. 

Sendo assim, não é de se estranhar que a figura do nerd ou do geek tenha virado em certos círculos a representação de homens infantis que se recusam a crescer, porque não apenas todo o público foi educada a ser assim como uma nova geração de criadores de conteúdo escrevem e produzem obras por meio dessa lógica.

Agora imagine que você é uma história e não pode morrer. Imagine os anos se passarem e você não ficar mais sábio e maduro, mas sim repetitivo, eternamente repetitivo, imagine crescer em você um cansaço por dizer as mesmas coisas todos os dias e nunca de fato poder descansar em paz, imagine o pesadelo de nunca poder mudar. É o que fazemos com toda obra de arte, e não podemos nos queixar por muitas delas serem ruins pois nós não damos a ela o espaço para continuarem sendo tão boas e vivas quanto antes. 

Por isso que, para concluir, é melhor que se deixe morrer. É melhor que seja esquecido, que corra o risco de nunca mais ser consumido pois repeti-la a exaustão é também impedir que ela seja novamente sentida por outra pessoa. É melhor que você e eu aceitemos logo que nós não voltaremos a nos sentir da mesma forma em que nós assistimos Star Wars pela primeira vez. Deixemos que ele morra, pois só assim ele vai poder viver para outras pessoas. 

A arte não existe para te excitar todos os dias, mas para que você possa sentir algo, seja bom ou ruim, e possa sentir coisas novas, inusitadas e diferentes, para que você mesmo possa também ser algo novo, inusitado e igualmente diferente, pois esta é a alquimia de uma obra arte: tocar em seu peito e penetrar muito mais fundo do que a própria pele e deixar a mão lá enquanto ela vai embora para nunca mais, te deixando apenas com a memória. Isso não é algo ruim, isso é algo vivo, pois viver é a própria sina da arte e a memória não é nada de horrível, é a melhor coisa que pode acontecer quando você ama de fato algo e se você ama um filme como star wars, porque repeti-lo por décadas e décadas com filmes, séries e jogos sem nunca deixá-los, de fato, ir embora para que você também possa ir embora em direção à algo radicalmente impossível. Abrace o nunca mais, viva e deixe morrer, alcance o impossível de virar algo além de uma criança de 30 anos, deixe ir para sempre e não tenha medo da nostalgia, o nunca mais é algo melhor do que você imagina, só tente e o sinta.



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