A distopia e a queima de livros brasileira


No mundo, frequentemente a ficção se mistura com a realidade e nos proporciona novas armas para analisa-lo e compreende-lo através dela, isso nos faz observar fatos que muitas vezes parecem frutos de uma história distópica que há pouco tempo encontrávamos apenas na televisão, ou então víamos incrédulos nos livros de história, questionando como tais ações […]


No mundo, frequentemente a ficção se mistura com a realidade e nos proporciona novas armas para analisa-lo e compreende-lo através dela, isso nos faz observar fatos que muitas vezes parecem frutos de uma história distópica que há pouco tempo encontrávamos apenas na televisão, ou então víamos incrédulos nos livros de história, questionando como tais ações foram possíveis e como o povo não se rebelou contra medidas que os prejudicava, tomadas por líderes absolutamente incapazes, afetando e piorando a vida da população, distribuindo privilégios, entregando bens públicos e a riqueza nacional a bilionários estrangeiros, etc.

Apesar de todo tipo de obra ficcional poder ser atrelado à realidade, ao meu ver os universos distópicos sempre foram os mais interessantes, pois através de elementos reais constrói um universo paralelo ao que vivemos, ou melhor, que tenta ser paralelo, já que diversos dos acontecimentos se baseiam em fatos reais, como ações do regime nazista da Alemanha, do colonialismo europeu pelo mundo e até mesmo do sistema político norte-americano.

Apesar das diferenças que cada uma das obras distópicas possuem, algumas semelhanças estão presentes quase na totalidade delas, que são a anti-intelectualidade dos governos ou grupos dominantes, que se dá através de censura, supressão de ideias, controle de comunicações e a completa irrelevância da verdade, dando assim início a seus regimes e ao funcionamento de mundo apresentado.

Apesar de contarmos com milhares de obras distópicas, focar-me-ei em pensar quatro delas: 1984 (George Orwell, 1949), Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley, 1931), Fahrenheit 451 (Ray Bradubury, 1953) e O Conto de Aia – também chamado de The Handmaid’s Tale, seu título original – (Margaret Atwood, 1985), que estão entre as principais obras deste estilo literário/cinematográfico.

As obras

Abordarei brevemente cada uma das histórias para que o leitor, caso não as conheça, se familiarize com a razão de existir deste texto, recomendo que busquem e conheçam estas publicações que são extremamente importantes e constituem leituras prazerosas. Ao final de cada descrição, grifo o ponto ao qual pretendo abordar na posterior reflexão.

1984, de George Orwell, apresenta um país fictício, que governado de forma ditatorial, tem seus cidadãos controlados pelo Partido através de meios como o “Big Brother”, a “Novilíngua”, que manipulam a verdade e controlam a forma de pensar da população, nessa realidade, o partido cuida do que pode ou não pode ser publicado e confisca, prende, mata e tortura tudo com que ele não está de acordo.

Em O Conto de Aia, Margaret Atwood apresenta uma realidade onde com a fertilidade feminina em queda e a desculpa do terrorismo, uma ditadura fundamentalista religiosa se instaura nos Estados Unidos e revoga o direito das mulheres, fazendo com que as poucas que ainda podem engravidar tornem-se serviçais para a reprodução de uma elite político-econômica. Tudo isso é feito gradualmente, com primeiro elas sendo impedidas de trabalhar, tendo seus bens bloqueados e por fim sendo submetidas a tais papéis. Em O Conto de Aia, as mulheres estão proibidas de ler.

Aldous Huxley explora em Admirável Mundo Novo um estado científico-totalitário onde os seres humanos são nascidos de proveta, separados por castas e vivem sem questionar ordens, cultuando uma exacerbada produção, consumo e progresso, na obra, a tristeza é proibida e a felicidade é uma droga sintética. O condicionamento, a manipulação psicológica, o controle de comportamento e a implantação de valores específicos através da hipnopedia faz com que os seres humanos não sejam capazes de pensar por si próprios e hajam e pautem suas vidas como lhes é imposto.

Fahrenheit 451 de Ray Bradbury é a que aborda mais brilhantemente as questões das quais focarei nesta publicação. A obra apresenta um estado governado por um grupo totalitário que proíbe qualquer livro para que o conhecimento não dê ao povo motivos para se rebelar, a ditadura foi apoiada pela população que passivamente renunciou a suas liberdades a favor de uma sociedade sem conflitos, focada no consumo e entretenimento, a tecnologia é usada como forma de censurar os rebeldes, os intelectuais e o principal elemento da sociedade é a televisão.

Neste mundo os livros são queimados e, como já dito, a leitura é proibida, os rebeldes se unem para memorizar as obras evitando que sejam apagadas. As bibliotecas são ilegais e ficam escondidas.

A realidade

Vendo mais sobre cada uma das quatro obras distópicas, é impossível não relacioná-las à realidade mundial – e principalmente a brasileira – do presente ano de 2020. Sequentes crises formaram um mundo politicamente fragmentado e economicamente em frangalhos, com o extremismo de direita ganhando espaço nas principais democracias do ocidente e velhas práticas políticas do período entreguerras voltando a tona ao redor do mundo. A internet explicitou e tornou cada vez mais frequentes manifestações nazifascistas, louvores à ditadura e a um passado idealizado, que se destaca diante a incapacidade de oferecer um futuro próspero neste sistema capitalista predatório, que acentua as desigualdades e coloca trilionários em formação ao mesmo tempo em que mais de 820 milhões de pessoas passam fome e 1,3 bilhão de toneladas de comida são desperdiçados todos os anos. Neste cenário, a extrema direita chega ao poder em países como Estados Unidos, Inglaterra, Hungria, Polônia, Ucrânia e Brasil, além de grande parte da América Latina, e um crescimento exponencial em Alemanha, Espanha, Suécia, Itália, etc.

Apesar dos movimentos de direita serem diversos ao redor do mundo e utilizarem-se de um discurso nacionalista muito focado na história político-social de seus países, a estratégia é globalizada, tendo como fortes elementos a xenofobia, o racismo, o desprezo pela democracia – em locais como no Brasil, louvando ditaduras passadas -, o fetiche bélico, o ataque à diversidade sexual (veja também meu texto anterior: A construção do casamento e o afeto como ferramenta revolucionária), as fortes ligações religiosas, o ataque às ciências e um anticomunismo latente. 

A internet proporciona hoje incríveis ferramentas de disseminação de conteúdos absurdos, que frequentemente são impulsionados pelos algoritmos dos mecanismos de busca e das redes sociais, dando espaço para a exploração de notícias falsas que engajem por ter um cunho absurdo e reverberam socialmente, algo fortemente explorado nas eleições estadunidenses e brasileiras. Um dos grandes nomes que organizam estrategicamente essa ascensão da extrema-direita e a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, Steve Bannon, foi preso na última quinta-feira por um esquema de desvio de dinheiro, algo recorrente nessa classe política.

O Brasil e Bolsonaro

No Brasil de 2020 não há nenhuma vergonha em mostrar quais são suas referências. Elementos de inspiração nazista são claramente utilizados, como pudemos ver no pronunciamento divulgado pelo então Secretário Especial da Cultura do Brasil, Roberto Alvim, que reconstruiu além do conteúdo, o ambiente, as vestimentas e até mesmo a trilha sonora dos discursos de Joseph Goebbels, o Ministro da Propaganda de Hitler, outro conhecido nome que desprezava as ciências, perseguia pessoas, ideias e livros. Alvim promete uma cultura que salvará a juventude, colocando-a como a base da pátria e enraizada na nobreza dos “mitos fundantes” brasileiros, que segundo ele é “a pátria, a coragem do povo e sua profunda ligação com Deus”, “defendo as virtudes da fé, lealdade, do auto sacrifício e da luta contra o mal”, que para esses grupos consiste em tudo o que difere deles. O secretário destaca que “a arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional, dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e igualmente imperativa, profundamente vinculada às aspirações urgentes de nosso povo”. Não há como questionar suas inspirações e nem mesmo suas intenções.

A arte, a sexualidade e a cultura são os três primeiros elementos a serem atacados por um governo de viés autoritário, pois são também elementos de resistência e protesto, utilizados para reproduzir insatisfação e dar a voz a quem não a tem, é por isso que são tão atacados pelo governo de Jair Bolsonaro, que de cara, ao ser eleito, acabou com o Ministério da Cultura criado em 1985, logo após a redemocratização do país, e ataca com frequência artistas e obras nacionais, apesar de apresentar-se como patriota.

Além da ação referente ao antigo Ministério e atual Secretaria da Cultura, a Ancine vem sendo utilizada como meio de censura a ideias contrárias ao governo e financiamento de aliados, cobrando que quaisquer filmes produzidos nacionalmente estejam ideologicamente alinhados às ideias da extrema-direita, seguindo a exata cartilha de seus antecessores, como na já citada Alemanha Nazista, onde Joseph Goebbels foi até mesmo diretor de filmes que serviriam como propaganda do regime e de suas ideias. A maior polêmica desta área foi sobre a negação da agência em liberar, por duas vezes, a estreia do longa “Marighella”, que fala sobre a vida do guerrilheiro e militante comunista Carlos Marighella, um dos principais opositores da ditadura militar, considerado por eles o inimigo número um do regime.

O último golpe do governo – até o momento – veio do Ministro da Economia e pupilo do ditador chileno Augusto Pinochet, Paulo Guedes, que anunciou que em sua reforma tributária (que desde o princípio já oferece privilégios aos ricos rentistas, já que dá aos bancos uma taxação muito mais baixa que a aplicada aos setores produtivos e não mexe em impostos sobre renda), que inconstitucionalmente pretende remover a isenção de impostos dos livros, adicionado a eles uma alíquota de 12%.

A estratégia de Guedes é a mesma utilizada no Chile de Pinochet, que após ver a ineficiência e o alarde que geravam as grandes fogueiras de livros, preferiu agir por debaixo dos panos: colocou nos livros a segunda maior taxação do mundo a época (atrás apenas da Dinamarca, um dos países mais ricos do mundo e com vastos incentivos a cultura), com incríveis 19%, ou seja, praticamente um quinto do valor dos mesmos. Com essas ações, o mercado editorial foi fortemente sufocado, principalmente as pequenas editoras e os escritores independentes, que perderam a rentabilidade de suas publicações e com isso facilitaram os esforços de censura do governo.

As estratégias divergem ao longo do tempo, e com os novos meios de comunicação a censura pode ter diferentes faces do que apenas o confisco de obras e a proibição de ideias, como podemos ver através da pressão financeira ou dos frequentes ataques e disseminação de mentiras sobre os opositores, invalidando o discurso através da fonte ao invés de criar debates e construir novas formas de pensar.

Paulo Guedes, para justificar a taxação dos livros, disse que no Brasil são “coisa de elite” e não há razão para não serem tributados. Talvez, na limitada cabeça do Chicago boy, os livros sejam coisas da elite, mas as contas bancárias com dezenas de dígitos, os jatinhos, helicópteros e iates, não.


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