A Subjetividade Literária da Esquerda – parte 1.

Raskolnikov e a Fantasia de Poder

O Romance é um gênero literário que se desenvolve por volta do século XVIII e tem como uma de suas primeiras expressões o livro “Robinson Crusoe” do escritor inglês Daniel Defoe. Mesmo que, para o senso comum, o gênero seja algo que existiu desde sempre na literatura, é interessante observar como ele é uma construção histórica que diz muito sobre o nosso entendimento sobre subjetividade e história. 

Em uma das primeiras cenas do romance, Crusoe encontra o seu pai e o mesmo lhe dá um conselho para que ele procure se manter em uma vida pacata, vivendo em uma “low-life” (“vida-baixa” se traduzindo literalmente) onde não se vive as tentações do poder como a nobreza mas também sem experimentar o sofrimento da classe camponesa e operária. O protagonista ignora o conselho e parte para viver como um marinheiro, sofrendo um naufrágio e conseguindo depois chegar ao Brasil, onde ele vive como um dono de latifúndio até embarcar em uma tentativa de contrabando de escravos para acabar naufragando em uma ilha deserta. Esta primeira parte do romance, que é também a menos relembrada, demonstra uma relação estreita entre o conceito de sujeito que estava sendo inaugurado com a obra junto com questão colonial e de gênero. 

Tal individualidade vem da crescente concepção individualista burguesa. Crusoe é, sem dúvidas, um típico herói da burguesia, sofrendo com as intempéries do destino mas que, pela sua vontade e esforço individual consegue sempre tirar o melhor de sua situação. A sua característica principal como herói é ter internalizado em si a negação de viver a low-life, pois, se ele tivesse realmente abandonado o seu ímpeto pela aventura, o livro teria menos de cinquenta páginas e não seria tão interessante ou marcante na mente de leitores como  o é até hoje. O conceito de aventura é, também, algo com um forte contexto histórico, que remonta para às grandes navegações e o início do colonialismo clássico. Sendo assim, Crusoe só é um herói pois ele é, em si, um burguês que ascende e sobrevive pelo seu próprio mérito, mas não apenas isso, ele faz parte da casta seleta de homens brancos que podem se colocar como heróis nesta situação, e é por isso que não vemos personagens racializados na história tendo o mesmo ímpeto e vontade. 

Mesmo que o livro traga um personagem que não representa os grandes feitos da história de sua civilização, como acontecia nas epopéias clássicas, podemos ver que Defoe edifica sim um tipo social ascendente de sua época: O Burguês Europeu. 

É muito interessante vermos o desenvolver esta concepção de subjetividade nas nossas mídias contemporâneas, como é o exemplo dos videogames. Geralmente em jogos nós somos colocados no papel de um herói que é inserido dentro de um mundo onde ele possui um papel único dentro dele e que vai evoluindo e melhorando os seus equipamentos assim como suas habilidades até que ele termine com a principal ameaça dentro do jogo, podendo se estender até que todas as missões sejam completadas. O conceito que resume esta experiência é chamado de Fantasia de Poder (Power Fantasy traduzido do inglês) na qual nós, enquanto jogadores, assumimos a experiência imersiva de ser uma figura que fará, pela sua vontade individual, atos históricos e grandiosos que, na realidade, apenas pouquíssimas pessoas terão. 

O meu intuito não é plenamente criticar este tipo de jogos, pois eu pessoalmente gosto muito deles, e nem dizer que eles sejam abertamente racistas, pois na verdade é possível que este tipo de narrativa na verdade assuma o papel inverso, e “empodere” pessoas negras e marginalizadas que geralmente não são representar por maior parte da cultura pop (por mais que isso dificilmente aconteça). Entretanto é sim o meu intuito mostrar como que as nossas expectativas para a nossa subjetividade é gigantesca: este conceito de fantasia de poder representa, na realidade, uma forma de se ver a história que é fortemente subjetivista e irreal [1], onde a história se mostra como uma sucessão dos grandes feitos dos grandes homens, em que um indivíduo com sua força de vontade e o seu poder pode, de fato, mudar o mundo completamente sozinho pois a sua vontade é excepcional. 

Quando vemos o cotidiano, entretanto, percebemos constantemente uma frustração entre a forma como as aspirações individuais funcionam e a maneira como a história e o mundo no geral funciona. Os processos históricos na realidade acontecem pelo movimento das massas que são formadas pelas condições materiais existentes e mesmo que muitas vezes a vontade individual possa afetar os eventos históricos, ela também possui um local historicamente  estabelecido e dificilmente seria totalmente construída pelo intelecto separado do indivíduo e não a sua reação com o mundo a sua volta. Napoleão não passaria de mais um homem francês de baixa estatura se não houvesse todos os processos que geraram a revolução francesa e Hitler também não passaria de mais um artista alemão anti semita se não tivesse acontecido o processo histórico que gerou a primeira guerra mundial e o tratado de Versalhes. 

Também é válido lembrar que uma vertente ideológica tão forte assim dificilmente teria se expandido e permanecido tão enraizada no nosso pensamento se ela não se mesclasse absurdamente com a formação da masculinidade moderna. Esta narrativa que constrói o que é o papel do homem e que tem como objetivo a manutenção da parte administrativa do capitalismo é uma narrativa de poder. Não teríamos um desenvolvimento tão grande dela se vivêssemos em uma sociedade que não tivesse passado maior parte do tempo produzindo narrativas sobre homens e para homens, pois na divisão sexual do trabalho a agência quase sempre foi pensada em termos masculinos.

Ironicamente, é na literatura russa em que podemos encontrar uma série de obras que brincam, subvertem e refletem de maneira crítica o papel da individualidade na modernidade. O primeiro dos casos que mais me interessa é o do clássico “Crime e Castigo” de Fiódor Dostoiévski, onde a fantasia de poder molda os conceitos éticos do seu protagonista. No livro, o anti-herói da história Raskolnikov possui uma moralidade que vê na figura dos grandes homens uma posição de exceção ética, onde por muitas vezes as grandes figuras da história poderiam cometer atos horrendos que não seriam julgados da mesma forma que seriam se fossem cometidos por uma pessoa comum. Claramente que o personagem em questão se vê nesta linhagem de “Grandes Homens” e, por isso, ele decide por matar uma velha senhora que vive de explorar de pessoas pobres com uma série de empréstimos abusivos.  

Esta fantasia de poder não se sustenta na realidade pois nela, muitas vezes, para sermos um dos grandes precisaríamos ou ter o dinheiro que bancaria tais empreitadas ou seria necessário que tivéssemos crueldade suficiente para sujarmos nossas mãos. Voltando aos videogames, é interessante refletir nisso quando pensamos em quantas pessoas nós matamos em nossa última jogatina. Mais do que um fato dado de que jogos possuem combates e mortes eu acho que é interessante vê-lo como a parte constitutiva da consolidação desta individualidade, este conceito de grandes homens só consegue vir a partir de uma leitura que desconsidera a existência da sociedade e do, pensando nela a partir da centralidade do seu próprio umbigo. 

Esta ideologia é parte central do pensamento direitista, mas não se restringe a ele. Após a queda do marxismo enquanto vertente política dominante na esquerda se forma e fortalece uma oposição que procurar jogar nas mesmas regras da burguesia, pois elas não seriam realmente da burguesia mas sim da sociedade civil, e que não mais considera agora o conceito de classe social como aplicável e, sendo assim, propõe deveríamos pensar em outras formas de mudar o mundo, visando agregar todas as subjetividades possíveis e possibilitar a existência de agora “Grandes Pessoas” que sejam mais diversas do que a identidade “universal” criada pelo homem branco europeu. 

Por mais que tenha trazido muitos avanços interessantes, principalmente para o lado do debate público, a mudança social que preza o jogar nas mesmas regras que a burguesia já se mostrou um  grande fracasso que não sobreviveu às ofensivas do grande capital nos últimos anos. Esta não é uma afirmação nova ou que seja ignorada por grande parte da esquerda, visto que a oposição ao reformismo vem crescendo constatemente, entretanto, esta esquerda revolucionária também cai nos mesmos erros subjetivistas.

Isso se dá pelo fato de que ainda vivemos em um período onde o pensamento da classe-média (ou da pequena-burguesia se preferir) ditou a regra no pensamento de esquerda, e não o poderia ser diferente, pois nos primeiros anos de nosso século foi esta a camada social que mais se alargou no país e que possui uma posição social que é atraída, ao mesmo tempo, à crítica radical da sociedade e à fantasia de poder. 

Tendo vindo e estando ainda muito próxima do proletariado, a pequena-burguesia consegue se ver a um passo de voltar para a miséria e ainda se vê presa à exploração do capital, conseguindo então perceber que existe uma necessidade de ruptura e de mudança da ordem política vigente. Entretanto, ao mesmo tempo, as suas condições materiais não são as mesmas da periferia e a toda a formação de sua subjetividade é construída sobre a fantasia de atingir a grandiosidade da forma como ela foi concebida pela burguesia.

Eu utilizei mais cedo nesta seção o caso de Crime e Castigo pois ele justamente coloca um valor central que é muitas vezes ignorado por este mesmo setor ideológico da esquerda: O de que valorizar o individualismo sobre as condições materiais tem como custo a repressão do perceber o sujeito e a sua agência na história dentro da nossa realidade, que nada tem a ver com as aspirações românticas que os revolucionários muitas vezes tem como objetivo final.

O Desgosto de Lady Macbeth

Existe uma novela escrita pelo contista russo Nikolai Leskov chamada “Lady Macbeth no distrito de Mtzensk” onde aquela que seria uma das figuras mais famosas da obra de shakespeare é colocada na condição de uma dama pequena-burguesa que, por tédio, conspira com um amante que era seu empregado, para matar o seu marido e ficar com a sua fortuna. É interessante pensarmos em termos alegóricos que, aqui, há duas pessoas oprimidas, ela oprimida pelo sistema familiar patriarcal e ele oprimido por ser um proletário [2], que então procuram por tramar contra a vida daquele que parece ser a figura de poder que é a causa destas mesmas. Ao decorrer da novela, entretanto, os personagens acabam por serem tão cruéis quanto a mesma estrutura social que os oprimia justamente por pensar nos termos desta mesma estrutura. 

As análises mais famosas em relação à classe-média acabam por ser muito errôneas por colocar na sua culpa aquilo que na verdade é culpa da burguesia, a usando, assim como uma categoria que supostamente seria a chave central para entendermos a sociedade após o suposto fim da centralidade do mundo do trabalho e do antagonismo de classes. Entretanto, isso não tira o fato de que a classe média branca formou e ainda forma grande parte da intelectualidade do Brasil, tanto na esquerda quanto na direita. Na esquerda nós podemos ver esta intelectualidade, principalmente após o estado de convulsão social de 2013, como uma espécie de Lady Macbeth: O seu anseio por se juntar ao povo e fazer mudanças sociais fez com que o seu pensamento desse uma guinada à esquerda, entretanto, a sua visão limitada ao individualismo burguês a fez perder o debate político e permitiu a guinada radical à extrema-direita que todo o Brasil teve. 

O Movimento Passe Livre (MPL) acaba por ser o grande exemplo disso. A sua orientação anarquista e autogestionário inflamou uma série de passeatas por todo o Brasil, que deu início ao processo de instabilidade política que se formou com as grandes manifestações das jornadas de junho de 2013. Entretanto, a radicalidade sempre gera faíscas mas nem sempre consegue formar incendiar o celeiro certo e neste caso, mesmo que a radicalidade desta posição tenha sido essencial para a formação de uma série de pessoas que iriam fazer parte da esquerda, a sua visão antipartidária e espontaneísta permitiu uma falta de organização e de mobilização permitiu à burguesia que aproveitasse da situação para os seus próprios fins e trouxessem para o seu lado os mais largos setores da sociedade. 

Quando o anticapitalismo sempre tem por objetivo o “imaginar novos mundos” e criar uma “nova esquerda” ele sempre acaba por assumir uma posição que ignora como que a esquerda efetivamente conseguiu conquistar o poder, pois tais experiências seriam revoluções traídas ou estados antidemocráticos. A partir desse momento em que a esquerda renega a si mesma por ter em si a mesma visão da direita, o que sobra é uma concepção de processos históricos que, mesmo dando importância para as massas, pensa nelas como um indivíduo só e não como um complexo de pessoas que se relacionam com outras e que devem estar organizadas de uma maneira que destrua o estado capitalista. Mas a questão não é apenas destruir o estado capitalista para este tipo de pensamento, mas sim destruir todo tipo de estado que se assemelhe ao moderno, o que é em si uma proposta válida mas que não entende que em processos históricos não existe algo tão simples como abolir o estado. Justamente por ele estar inserido na história, você só pode combatê-la por meio também de um processo histórico, não colocando todas as suas esperanças numa grande luta final que terá por objetivo a dissolução total do estado como um acontecimento único. Esta posição infantil e esquerdista se mostra quando  o MPL, após ter perdido o controle do processo de convulsão que ele gerou, abriu mão de disputar este espaço com a direita e deixou-se perder a presença da esquerda no sentimento de insatisfação geral.

Eu utilizei aqui o movimento anarquista como exemplo pois ele é aquele que mais abre brecha para isso, entretanto, a visão espontaneísta de “só me chama pra manifestação quando a gente for queimar carro” é muito frequente em todos os espectros da esquerda radical pois, sendo formados pela concepção de que a história é feita pelos grandes acontecimentos e grandes figuras históricas, várias pessoas que querem uma mudança radical acham que só nos processo de convulsão social a sua militância é necessária, que só quando estivermos com um partido leninista de vanguarda é que ele entrará nas fileira da luta contra o capital, sendo que isso é basicamente sentar na mesa de jantar esperando por uma janta que você mesmo deveria estar fazendo agora.

Essa postura gera dois processos. O primeiro é uma fetichização de manifestações, onde qualquer demonstração de insatisfação é o símbolo da revolução mundial e que todas elas trarão a tão esperada revolução libertária. Vemos isso, por exemplo, no apoio em que Luciana Genro deu ao processo de tomada de poder fascista que aconteceu na Ucrânia e no apoio geral que o trotskismo dá às manifestações bancadas pelos EUA que acontecem em Hong Kong . Esta negação da realidade vem a gerar um processo de desgosto de toda a mudança social no geral, visto que elas não vão suprir as expectativas sociais de ruptura aventuresca e radical que é tão presente no imaginário esquerdista. Esse desgosto leva a colocações como a da coluna do Safatle no jornal El País, em que ele declara a esquerda como morta[3] por não conseguir impor um outro horizonte que vá além do populismo. Ora, se a esquerda tivesse se dedicado a estudar e a propor aquilo que deu certo na sua vasta história e não ser apenas repetidores dos mesmo teóricos radicais de esquerda europeus que nunca chegaram perto da tomada de poder talvez nós poderíamos, agora, estar impondo este novo horizonte de uma forma em que a maioria das pessoas visse como viável e, por mais que seja louvável a postura dele de admitir isso, o derrotismo e o pessimismo não passa da mesma postura que o MPL tomou em 2013: a de se ausentar e não disputar pois isso iria contra a superioridade moral enquanto desta suposta esquerda combativa e revolucionária que nunca conseguiu, de fato, impor estes novos horizontes. O desgosto se alastra pois é realmente muito frustrante ser de esquerda e é muito mais difícil construir um processo revolucionário, mas sempre foi assim e, sinceramente, a postura de um derrotismo é só a resignação de quem, de fato, nunca lutou com os pés no chão.

Notas:

1. É importante lembrar que esta lógica é historicamente produzida para o telespectador homem branco cis hétero. Entretanto, a sua lógica pode ser replicada para outras comunidades marginalizadas e pode ter um efeito cultural extremamente positivo na qual meu objetivo não é julgar. Mesmo assim, a concepção histórica que exponho possui um caráter historicamente burguês e individualista possui expressões claras na militância, como demonstrarei mais a frente. O objetivo com esta nota de rodapé é dizer que a representação da fantasia de poder pode ser indicada para outras tipos de telespectadores mas, ao mudar esta ótica, ela por si só se expande para mais do que o individualismo burguês e europeu, visto que a opressão que a faz ser uma subversão em primeiro lugar é coletiva, e não individual. Mesmo assim, como estamos falando de construções ideológicas, esta concepção individualista também influencia todas as comunidades, mesmo que de formas distintas. A linha entre a subversão da representação individualista para a coletiva e a replicação da primeira de uma forma inclusive mas acritica é tão tênue e varia de tantas formas para cada tipo de representação e a concepção política daqueles que estão trabalhando neste tipo de obra (seja uma mais liberal ou radical) que eu sinceramente não sou apto para entrar neste intricamento. Então lembrem-se que a análise acaba possuindo este recorte e que, mesmo atingindo todos pois todos consomem em certo grau a ideologia dominante, as atuais obras que trabalham no espectro daquilo que é chamado usualmente de representatividade acabam tendo tanto os vícios da concepção burguesa e individualista de sociedade quanto um enfrentamento do mesmo.

2. Neste ensaio o objetivo não é tanto destrinchar as obras citadas quanto o é realmente analisar a condição da nossa subjetividade as usando como dispositivos alegóricos. Quem tiver o interesse e acabar por ler a história vai perceber que esta interpretação acaba por generalizar várias das suas nuances mas, como meu objetivo não é tanto em si as obras, já estejam então avisados.

3. https://brasil.elpais.com/opiniao/2020-02-10/como-a-esquerda-brasileira-morreu.html



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