A Subjetividade Literária da Esquerda – parte 2.


A Subjetividade Literária da Esquerda: primeiro artigo. O Niilista O segundo processo que é gerado pelo espontaneísmo individualista é o desgosto. Períodos de manifestação e contestação à ordem vigente, quando não acabam por gerar um processo revolucionário vitorioso, acabam por criar um refluxo social na qual se sai dois tipos de reacionarismo: o ativo que […]


A Subjetividade Literária da Esquerda: primeiro artigo. 

O Niilista

O segundo processo que é gerado pelo espontaneísmo individualista é o desgosto. Períodos de manifestação e contestação à ordem vigente, quando não acabam por gerar um processo revolucionário vitorioso, acabam por criar um refluxo social na qual se sai dois tipos de reacionarismo: o ativo que procura por eliminar as forças políticas que acentuam as contradições entre as classes, sendo o exemplo mais famoso destes o fascismo, e o melancólico, que nega avidamente os valores da sociedade onde está inserido mas, pela realidade não cumprir a sua expectativa, acaba por assumir uma postura de incredulidade nas mudanças sociais. É importante ressaltar que o pessimismo enquanto sentimento não é um problema, pois seria impossível tentar suprimir a sensação de frustração que é causada quando o mundo dá passos para trás ou continua na sua mesma posição retrógrada, entretanto, o pessimismo enquanto afeto político é uma força reacionário que, na esquerda, corrói o espírito militante e, na direita, viabiliza a completa desumanização do outro. 

Saindo um pouco do âmbito do romance russo, é no clássico francês O Estrangeiro do escritor argelino Albert Camus que este arquétipo é melhor apresentado. Nele o protagonista, um homem branco em um país colonial, passa o primeiro ato do romance por viver o seu cotidiano de maneira apática: sua mãe morre, ele não se importa, o seu vizinho espanca uma mulher e ele também não se importa, sua namorada lhe pergunta sobre casamento e ele a responde que casar ou não casar não importaria em nada para ele. Seguindo nessa constante até que, por culpa de um sol muito forte, ele acaba por matar um árabe, ato este que o faz ser preso. No segundo ato, o enredo se concentra em torno do julgamento na qual o anti-herói passa e em como ele é julgado mais por não seguir o mesmo conjunto de valores que o resto da sociedade do que por ter tirado a vida de um homem. Sendo condenado à morte no fim, ele acaba sua narração com um monólogo seu sobre como tanto morrer quanto viver não possui a mínima diferença, pois a sua vida era, de fato, um absurdo na qual ser julgado por matar um árabe ou por não chorar no enterro da mãe não importava. A ótima escrita de Camus e a sua linguagem áspera e seca fazem com que esta pequena novela seja um livro perdidamente irresistível, principalmente para uma geração que se vê muito espelhada na sensação da indiferença, sentimento este que por muitos momentos é a única defesa da mente contra um mundo injusto. 

E certamente Merssault, o protagonista, não possuía os mesmos valores dos homens iluminados de Paris que controlavam e subjugaram Argélia, Vietnã e tantos outros países enquanto cantarolavam sobre a queda da autocracia absolutista e o famoso lema de liberdade, igualdade e fraternidade. A grande problemática é que o mundo não se centra nos valores internos de nenhum homem mas sim em suas ações, não importa o quanto iluminado e evoluído um sujeito é se ele trabalha como guarda em Auschwitz.. Nisso vale a pena relembrar a cena do assassinato na novela: Mata-se um homem sem querer, por culpa de um escaldante Sol que cega a vista, assim é a forma na qual agem os homens no colonialismo: matam sem querer, sem perceber e sem se importar. Ao invés de usar o sentimento de frustração e rebeldia contra a hipocrisia liberal para adquirir consciência das causas da injustiça e se engajar em uma verdadeira luta pela libertação de seu povo, o niilista só consegue olhar para as suas próprias mãos e chorar com a pequenez do homem sem olhar para seus irmãos e adquirir consciência da grandiosidade do gênero humano. Por essa passividade subjetivista aquele que tem a consciência da exploração não se levanta para agir e dar uma nova chance ao mundo pois, ao fazer, o seu ego e as suas presunções sobre possuir uma visão especial e incompreendida seriam colocadas à prova. 

Mesmo admitindo uma pequenez na existência, um absurdo em tentar compreender o  cosmos e a alma humana, o niilista ainda é uma figura absurdamente arrogante. Vemos muitos deles nos centros acadêmicos de faculdade: A vida não possui sentido e este é o único sentido que eu considero como válido, todos podem se expressar mas as visões que criticam minhas pré-suposições não. Tal postura, se analisada fora de seu contexto, pode parecer mais absurda que a suposta condição do homem, entretanto, a construção da figura do intelectual enquanto mente a frente do seu tempo que é incompreendida pela sua sociedade implica diretamente uma desvalorização completa do outro e, sendo mais específico, do povo que está fora das camadas cultas. Ao substituir uma visão idealista de racionalismo, onde as classes intelectuais seriam superiores, por uma visão que coloca a si mesmo e todos os outros como um nada o sujeito se transforma em uma espécie de iluminação da negatividade na qual todos aqueles que vivem o seu cotidiano sem achar que a existência é uma miséria se transformam em um gado alienado quando quem realmente está se alienando do meio é o sujeito.

Com base na premissa de que as bases são burras e de que todos estão perdidamente alienados por seus deuses e sua televisão, o niilista desiste da política, desiste de discutir pois o brasileiro é realmente muito burro para ter eleito bolsonaro, desiste de procurar uma melhora para o seu país pois este povo está realmente perdido e se coloca no pódio artificial de “espírito livre” de onde nunca desce para realmente encarar o mundo real. Este ímpeto por desistir que  existe dentro da nossa pequena burguesia abre um vácuo onde a esquerda procura por não dialogar com setores amplos da sociedade como os evangélicos, deixando que a direita lucre e se aproveite deles pois o povo na qual se é a favor só pode ser o povo que eu li em meus romances, nunca na forma que ele realmente é: com falhas, defeitos e desvios. 

Neste ensaio eu estou concentrado principalmente no afeto político, no sentimento de se agir perante ao mundo, entretanto, não é difícil concluir que este processo não corrói apenas a esquerda e a sua ação prática contra o fascismo como também destrói o afeto por completo, pois desistir da política é também desistir do mundo e cultuar a pureza moral do fracasso é também uma forma de desistir do material em prol do ideal. Romantizar períodos históricos e certos intelectuais por si só não é um problema, mas  utilizar apenas o idealizado enquanto tática política é dedicar esforços de maneira anticientífica e foca no fracasso e, ao se dedicar tanto por nada, uma grande parcela de militantes simplesmente desistem, pois não foram formados politicamente para entender que o problema está nesta luta e não na guerra. Depressão, ansiedade e suicídio são apenas expressões para um sistema que parece nunca ter fim e nossa esquerda também não tem a maturidade para enterrá-lo.

Morte

Por conta disso que o meu niilista favorito da literatura é Bazarov, de Pais e Filhos, pois ele tem o fim que o niilismo merece: a morte. Ao morrer, de maneira silenciosa e melancolicamente estoica, o iconoclasta russo deixa que seu pai traga um padre para confortar a sua alma. Este pequeno afeto de deixar que aquele que você ama te enterre da forma que melhor conforte o seu sentimento de perda é, para mim, uma das ações amorosas mais lindas já vistas na literatura e mostra que nós não perdemos ainda aquilo que nos constitui como esquerda, nós apenas estamos perdidos.

A crítica e a reflexão à sociedade sempre serão bem vindas, entretanto, quando a crítica vira apenas pensamento e não força, ela já se transforma em uma ideologia que acaba por invariavelmente justificar de certa forma os poderes que juraram por destruir, este é o martelo com o qual se deve atacar os desertores da luta de classes.

 Aos niilistas, os melancólicos da luta de classes, as palavras devem ser outras: Deve-se dizer que o desgosto não é um crime, é o sentimento moderno mais comum entre todos nós, entretanto blindar-se nos seus artifícios poéticos e retóricos para defendê-lo é sim uma desistência e uma traição à luta, você não é mais intelectual por ser pessimista, porque então construir a sua identidade com base nisso? 

Durante estas últimas colunas o tópico da morte vem ocupando repetidas vezes a minha escrita, seja a morte de centenas de milhares, a morte dos nossos sonhos e a nossa própria morte. Isso se dá principalmente por que o período em que vivemos a traz como um elemento necessário para se agir: devemos primeiro deixar morrer tudo aquilo que nos impediu de avançar e, a partir daí, destruirmos nós mesmos esse sistema que já é responsável por mais um genocídio. Matar ideias como o niilismo não tem aqui uma dimensão física de matar os genéricos admiradores de Nietzsche, mas sim de superar e trazer destes apontamentos críticos o que realmente conseguem tomar uma força verdadeiramente transformadora para que, então, o antigo morra e não nos perturbe mais. O filósofo Alemão Theodor Adorno é muito conhecido pela frase onde ele diz que é um ato bárbaro escrever um poema depois de Auschwitz e eu concordo plenamente com a sua colocação. Todavia, meu grande problema com este desengano com o mundo é que nós desistimos da lírica ao invés de construir um mundo na qual valha a pena escrever poemas, e esta não deveria ser uma postura aceitável dentro da esquerda.



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