Por que você está Tremendo, Folha? Uma Resposta à Coluna de Joel Pinheiro da Fonseca


Quem Tem Medo do Comunismo? Para certas pessoas, não há maior ofensa do que chamar o seu adversário político de stalinista. Desde um académico tentando estrangeiro silenciar um jovem intelectual negro até os homens esclarecidos do jornal Folha de São Paulo, o termo “stalinista” é o que mais suscita medo, nojo e controvérsia, mas porquê? […]


Quem Tem Medo do Comunismo?

Para certas pessoas, não há maior ofensa do que chamar o seu adversário político de stalinista. Desde um académico tentando estrangeiro silenciar um jovem intelectual negro até os homens esclarecidos do jornal Folha de São Paulo, o termo “stalinista” é o que mais suscita medo, nojo e controvérsia, mas porquê? Afinal, Stalin morreu já faz quase 70 anos e não existe mais nenhuma potência socialista no ocidente. Então, porque um bigode gera tanto medo assim? 

Uma resposta superficial é dizer que este alarmismo seria uma preocupação necessária para que atos como os cometidos por Stalin não sejam repetidos, entretanto, é interessante perceber que quase nunca se usa o termo “stalinismo” para pessoas que produzam um conteúdo que explicitamente defenda o líder soviético. Vamos pegar Jones Manoel como um dos maiores exemplos dos assim chamados “influenciadores stalinistas” e ver se o seu conteúdo realmente seria pró-Stalin. No dia em que escrevo este artigo (dia 08 de Setembro de 2020), o seu canal conta com 111 vídeos onde em nenhum deles há uma defesa de Stalin. Mesmo havendo sim vídeos e outros conteúdos na qual ele trata de temas em que Stalin aparece (como é a questão da Segunda Guerra Mundial, ou da teoria de revolução permanente contra a teoria de socialismo em um país só), não existe uma prova sólida que pendesse para o julgamento de que o Historiador Marxista é, de fato, um stalinista. 

Mesmo assim, eu não consigo simplesmente ignorar essa coluna como eu geralmente faço com obras difamatórias de baixa qualidade e isso se deve pelo fato de que esta fina obra de histeria publicada pelo Sr Joel Pinheiro da Fonseca é um perfeito exemplo deste medo profundo que faz com que ninguém, desde o mais liberal do instituto mises até o mais trotskista na fileira do PSTU, consiga tirar nunca o nome de Stalin de suas rodas de conversa.

O Medo do Stalinismo tem Validade Historiográfica?

Em primeiro lugar é importante dizer que há sim uma discussão aprofundada sobre Joseph Stalin e o período na qual ele governou a URSS, sendo tratada de maneira sólida entre acadêmicos que são referências mundiais em relação a história da União Soviética, entretanto, estas referências nunca são utilizadas tanto nas academias quanto no debate público brasileiro. O maior exemplo disso seria a chamada escola “revisionista”, que traz uma série de contestações metodológicas em relação às fontes utilizadas e números feitos pelos primeiros acadêmicos sobre a história do período Stalin, que são comumente chamado de “guerreiros frios” (em referência à guerra fria, apenas pelo nome já é possível imaginar a imparcialidade destes Senhores). Isto não quer dizer que se “defenda” Stalin mas sim que os indefinidos milhões de mortos citados por João Pinheiro da Fonseca variam, estatisticamente, de maneira absurda, tendo como máximo aproximadamente 60 milhões e como mínimo 3 dependendo de cada autor. Isso de dá pois, como a União Soviética era um país que não tinha os seus documentos de estado abertos (assim como os EUA) para pesquisadores. Por isso, cada autor utilizou de métodos diferentes para contar os mortos, desde uma simples subtração entre o  número populacional no ano do início do Regime Stalinista e o número de soviéticos após a sua morte (o que é um método extremamente vago e preguiçoso) até  o uso de fontes em segunda mão visto que, para o ocidente, nada era muito claro do Muro de Berlim para o leste. 

Para a felicidade dos estudiosos, entretanto, quando a União Soviética deixou de existir vários arquivos confidenciais foram abertos para a comunidade científica. Com isso o resultado destas fontes de primeira mão é um número ainda mais baixo do que o apresentado. De acordo com a tabela estatística feita no trabalho acadêmico Vítimas do Sistema Penal Soviético, o número documentado de mortes chega na casa de 799 mil vítimas da repressão. Isso significa que na verdade não existiram erros no governo Stalin e que milhares mortes decorrentes da repressão não importam? Não, mas realmente mostra que, para um homem que diz ser um defensor da ciência e do bom senso, a pesquisa científica que o Senhor Joel Pinheiro tanto defende na sua coluna só presta quando o seu lado “imparcial” sente que é necessário. E não poderia ser de outra forma, a grande filósofa para este tipo homem defensor do livre-pensamento é a Alemã Hannah Arendt, que é explicitamente racista em vários de seus trabalhos e cuja o termo “totalitarismo” só é usada para comparar a União Soviética com a Alemanha Nazista, sem realmente explicar o que constitui essa definição e quais são os fatos que provam isso.

Sendo assim, pode-se responder a pergunta do título com um não, realmente não existe base historiográfica para se ter medo do Stalinismo. Ou, pelo menos, não mais do que se ter medo do nazismo pois, enquanto não se existe marchas gigantescas com um grande número de defensores de Stalin, existe a mesma coisa com grupos defensores de hitler, como foi o caso de Charlottesville. Mas isso não assusta o nosso querido Joel Pinheira, o que realmente tira o seu sono é este vago fantasma do Stalinismo.

Sabrina Fernandes e Olavo de Carvalho são semelhantes?

Um dos elementos que mais me deixou intrigado na coluna da qual eu falo é a aproximação entre a figura dos “Influenciadores Stalinistas” e o ideólogo da extrema direita Olavo de Carvalho. Na opinião do nosso superior paladino das instituições liberais, estas duas figuras tão opostas em pensamento e prática na verdade são parecidas pois elas desvalidam a ciência. Mas que ciência seria essa? Pois realmente já vimos que a “ciência” aqui falada não é necessariamente a análise metodológica de fatos e fontes pois, se o fosse, o próprio autor a aplicaria. 

Para tentar traçar uma explicação em relação a isso eu gostaria de trazer um episódio muito parecido, onde a jornalista do jornal Roda Viva Vera Magalhães se recusou em entrevistar a mestra em sociologia Sabrina Fernandes, a comparando com o astrólogo terra-planista de uma maneira muito parecida com este caso. Seria a produtora de conteúdo do canal tese onze a stalinista que faz com que o nosso ilustre Sr Joel tenha pesadelos à noite? Não se é possível dizer pois, da mesma forma que a ciência supostamente defendida na coluna é um termo vago e obtuso que não tem nenhuma ligação com o real, o próprio autor prefere traçar um arquétipo do que realmente usar exemplos. Mesmo assim, Sabrina e qualquer que seja o stalinista que tenha ferido os sentimentos desse estandarte do debate sério e bem informado tem algo realmente em comum: ambos são de extrema esquerda. 

E neste ponto vale a pena fazer a pergunta do título desta seção: Seria mesmo essas duas figuras equivalentes em ações e ideias? Em aspectos formais a pergunta também é não. O programa econômico defendido pelos dois extremos é absolutamente díspar, da mesma forma que as suas teses organizativas e das instituições que os mesmos apoiam, entretanto, os dois tem uma postura que, em abstrato, é semelhante: elas fogem dos limites colocados pelo liberalismo “democrata”. Enquanto uma esquerda como o  PT e certos setores mais eleitorais do PSOL defendem exatamente as mesmas instituições que a Folha de São Paulo e o PSDB defendem, colocando apenas as suas próprias interpretações de como elas deveriam funcionar, a extrema esquerda não se contenta com a sua existência, ela quer uma nova forma de se aplicar a democracia que vá muito além do jogo de cartas marcadas dos ricos senhores que, curiosamente, lêem sempre muito atentamente o jornal Folha de São Paulo. Sendo assim, até pareceria lógica a aproximação típica daqueles simpáticos com a teoria onde os dois extremos políticos se encontram, entretanto, a análise verdadeiramente fiel aos fatos não se é feita por abstrações, já realidade não funciona como um sonho. 

Quando observamos de maneira mais atenta e científica é possível ver que estas duas posturas também são antagônicas. Enquanto a esquerda radical defende o fim da propriedade privada e uma nova gama de instituições que tenha como princípio a democracia direta e a autodeterminação dos povos, a direita radical defende um estado que tenha um forte relacionamento com os setores privados da sociedade e que o defenda, a qualquer custo. Esta defesa da propriedade privada, curiosamente, é a mesma que existe no jornal Folha de São Paulo, que inclusive defendeu o golpe militar em 1964 e o golpe institucional em 2016.

Neste aspecto vale a pena falar sobre a queda da presidente Dilma Rousseff. É interessante perceber que um senhor tão preocupado em defender as livres instituições democráticas simplesmente ignora o fato de que o processo de impeachment foi uma transgressão a estas mesmas e que também consiga ignorar o fato de que várias das pautas defendidas pelos maldosos radicais de esquerda como demarcação de terras indígenas e redistribuição de terra já existe na constituição de 1988. Tendo em vista tudo isso, me é irônico sair de um jornal que tem um histórico tão anti-institucional assim uma suposta defesa das livres instituições. 

Essa postura hipócrita, e é necessário que se utilize a palavra correta, é totalmente condizente com a forma na qual o liberalismo trata as instituições públicas, onde as “regras” da casa só são seguidas quando o grande empresariado está contente. Ironicamente, a direita de Bolsonaro e Olavo de Carvalho segue a mesma máxima, só que sem ter em seu corpo de funcionários pessoas que saibam francês como o FHC ou que saibam utilizar mesóclise como  Michel Temer. Sendo, então, tão próximos o liberalismo do fascismo bolsonarista, porque você está suando tão frio com o governo Bolsonaro e com o “stalinismo”, Sra Folha de São Paulo?

Ao ver que a classe econômica que lhes banca financeiramente já não apoia mais as formalidades de seu regime político, a classe intelectual formada pela burguesia olha para o regime que eles mesmos ajudaram a criar e se horrorizam, um horror tão cósmico que eles nem percebem que esse bebê monstruoso, lá no fundo, fala as mesmas coisas que eles defendem em suas linhas editoriais e colunas  econômicas. Justamente por estar se opondo à uma falta de formalidade e não ao genocídio da população brasileira, estes intelectuais procuram ainda uma forma de aproximar aqueles que realmente estão no front de batalha contra o governo Bolsonaro para que estes mesmos Senhores racionais e ilustrados não tenha que olhar para suas mão e sentir as gotas de sangue da população brasileira caindo em cima de suas calças armani. Por isso que estas figuras simplesmente não conseguem simpatizar nem com o mais água com açúcar dentro da esquerda, como o senador americano Bernie Sanders. Estes frios e imparciais homens da época das luzes sentem, de súbito, um medo que lhes atravessa a espinha e que chega a lhes tirar a lógica, como pode-se ver muito bem no editorial da Folha de São Paulo em que o senador democrata foi comparado ao Bolsonaro.

Os Genocídios que Estão na Frente e no Verso da Folha de São Paulo

Dando uma pequena trégua agora, eu gostaria de dizer que eu tenho um medo muito parecido com o qual Joel Pinheiro da Fonseca tem em sua coluna. Eu, como cidadão informado e educado que sou, também tenho medo da reabilitação que líderes mundiais responsáveis por milhões de mortes tem hoje em dia. E é justamente por isso que eu sou contrário à adoração que certa parte da esquerda faz de Barack Obama, que teve um governo na qual conseguiu reduzir o país com maior IDH da África à condição onde atualmente são vendidos escravos. É justamente pela minha preocupação com o esquecimento de genocídios que eu tenho um genuíno medo da forma na qual o Japão e as forças ocidentais abafam os crimes de guerra cometidos pelo império do Sol Nascente nos territórios ocupados em Ásia e, para encerrar, é por isso que nunca esqueço dos LGBTs que foram deixados para morrer pelo governo de Ronald Reagan. Entretanto, nenhum destes genocídios aparecem na frente do jornal na qual o Joel trabalha, quando muito eles aparecem no seu verso mas, geralmente, eles viram uma nota de rodapé. 

E é justamente por isso que eles sentem medo destes supostos stalinistas, pois o stalinismo é só um sinônimo ofensivo que a direita usa para falar do comunismo e, curiosamente, aqueles que estão nesta tradição de pensamento são justamente aqueles que lembram dos genocídios que os defensores das instituições liberais não lembram. Sendo assim, para acabar com o  incômodo que é olhar para os próprios crimes, tem fórmula melhor de silenciamento do que acusar qualquer opositor ao genocídio de genocida?

Para o querido Joel eu já não tenho mais muito o que falar sobre o texto, e nem gostaria de dedicar mais tempo, pois existem intelectuais mais honestos que merecem a minha atenção. Agora eu me refiro a própria esquerda, que pede desculpas por ser de esquerda e a repete de tal forma que, conforme o tempo passa, ela acaba esquecendo de dizer aquilo que a fazia ser de esquerda em primeiro lugar. Estes “progressistas” que esquecem do que foi feito em Líbia, Iraque, Coreia, China e que ainda ocorre em países como a Palestina são exatamente o tipo político que a  direita quer: aquele na qual não consegue fazer nada que não chorar como uma criança perdida quando o fascismo aparece para suprir o desejo da burguesia. 

É importante lembrar que, mesmo com alguns erros, ainda é historicamente verdade o fato de que a União Soviética foi a grande força que venceu os nazistas, e ela não o venceu na base de memes ou de posturas parlamentares, mas sim com luta nos frontes de guerra. Mesmo tendo diversas discordâncias, eu não tenho medo de sentir orgulho e de levar em consideração estas vitórias palpáveis contra o genocídio na minha militância.

Diferente do Joel, eu não vejo estes stalinistas no sofá apenas rezando para o Santo Joseph. Vejo, na realidade, muitos daqueles que são chamados de stalinistas na rua, nas associações de bairro e nas periferias. Claro que existem os stalinistas de internet mas eles não causam medo no Joel, são estes os stalinistas que fazem o nosso querido Joelzinho ter medo. 

Para encerrar, eu gostaria de dizer que há sim uma razão para se temer este tipo. Pois estes que te fazem molhar os papéis do seu jornal são aqueles que levam uma tradição de causar assombro em todos aqueles que dizem para nós que devemos comer brioches. Fomos nós o medo de Maria Antonietta, também fomos os responsáveis pelo suicídio de Hitler e ainda somos nós aqueles que põe medo em você, querido Joel. Se me permite a intimidade, eu lhe recomendo que você procure um bom remédio para dormir, pois as forças de esquerda crescem enquanto vocês esperneiam em sua mídia decadente. Por isso me alegra ler a sua coluna, é muito bom ser temido pelos ideólogos do prolongado e oculto genocídio que é a história do liberalismo.

Gostaria apenas de fazer um pequeno acréscimo de informação que me surgiu enquanto revisava esta coluna: ao pesquisar mais sobre o Sr Joel Pinheiro da Fonseca descobri que ele foi o mesmo liberal que apoiou a criação de um mercado de órgãos na qual pessoas pobres pudessem vendê-los. Saber disso me faz pensar na ironia que foi esta coluna na qual acabei de responder, então uma sociedade é doente por terem pessoas de esquerda mas a mesma é totalmente saudável quando um economista acha que é natural e correto os pobres venderem seus órgãos? É interessante também perceber como que um homem branco consegue defender que certos órgãos têm menor utilidade e poderiam ser vendidos enquanto um intelectual negro como Jones Manoel produz uma série de conteúdos, todos recheados de fontes sérias, e é ainda assim chamado de “treteiro de twitter” pela nossa nem um pouco racista camada intelectual branca.


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