Permita-se ver o final feliz


É fácil resumir “Sing Street” em uma sinopse: Conor Lawlor (Ferdia Walsh-Peelo) conhece e encanta-se por Raphina (Lucy Boynton), uma aspirante a modelo e, para impressioná-la, resolve convida-la a participar da gravação do videoclipe de sua banda; só que ele não faz parte de banda alguma, então precisa recrutar integrantes o mais rápido possível e […]


É fácil resumir “Sing Street” em uma sinopse: Conor Lawlor (Ferdia Walsh-Peelo) conhece e encanta-se por Raphina (Lucy Boynton), uma aspirante a modelo e, para impressioná-la, resolve convida-la a participar da gravação do videoclipe de sua banda; só que ele não faz parte de banda alguma, então precisa recrutar integrantes o mais rápido possível e começar um grupo do zero. Esse filme é um musical, uma comédia-romântica, uma história sobre amadurecimento e sobre adolescência: uma fórmula relativamente comum. Porém, os nuances que possui foram o que fizeram com que eu me apaixonasse por ele e, depois de revê-lo algumas vezes, foram se revelando os detalhes e as entrelinhas do roteiro que acabam escapando às pessoas que o veem pela primeira vez.

Logo no início, o filme coloca a história em seu contexto: uma Irlanda dos anos 80 em meio a uma crise; uma família Lawlor em meio a outra. Dinheiro está faltando, Conor vai mudar de escola a contragosto e, para piorar, seus pais (Aidan Gillen e Marya Doyle Kennedy) estão sempre brigando. Tendo essa conjuntura estabelecida, sigamos para o que mais me chama a atenção nesse longa: Brendan Lawlor (Jack Reynor), o irmão mais velho de Conor, que, apesar de ser um “fracasso”largou a faculdade, não trabalha, não sai de casa há meses e está quase sempre chapado –, é uma figura-modelo para seu irmão caçula. Mesmo que menosprezado por aqueles ao seu redor, seu papel nesse filme é o de um guia (e um protetor) para seu irmão menor, sobretudo, na súbita jornada musical em que ele acabou de entrar.

As melhores partes do filme são aquelas em que os irmãos Lawlor revelam, por meio da música, a sua conexão: o irmão mais velho é um mentor e uma inspiração para o mais novo, e muito mais além disso.

“Toda banda cover tem um membro de meia-idade que nunca saberá se teria feito sucesso porque nunca tiveram coragem de compor nada. O rock n’roll é um risco. Você se arrisca ao ridículo”

Em uma das primeiras dessas cenas, Conor mostra, orgulhoso, o cover que sua banda acabou de gravar, mas, em um relampejar, Brendan destrói a fita – que “fede a música ruim” – e declara seu irmão ouvirá vinis e os estudará até a madrugada – porque, agora, música é o seu dever de casa.  Em outra cena, logo depois de seus pais anunciarem sua separação, Conor se lamenta por saber que eles não vão para o seu show cuja data se aproxima, e isso é o estopim para Brendan, que inicia um monólogo magnífico sobre a realidade dele, um irmão mais velho, naquela família: ele, como primeiro filho, viveu anos, sozinho, com pais que nunca se amaram, situação essa que só foi mais branda para seu irmão caçula porque tinha um mais velho para protegê-lo. E, mesmo com essa proteção, Conor está lá, lamentando-se porque seus pais não ligam para o que ele faz. Mas Brendan enfrentou essa mesma indiferença e nunca teve ninguém para ser seu escudo; ele foi o protetor, mas nunca o protegido. É nessa hora, que nós, os espectadores, entendemos e verdadeiramente enxergamos esse personagem. Ele ama seu irmão, mas não pode deixar de sentir inveja de seu potencial: Conor ainda é muito novo, ainda está no ensino médio e, acima de tudo, está mostrando talento e paixão para seguir o caminho da música – o que era o sonho de Brendan antes de sua vida sair dos trilhos… Nós crescemos assistindo a filmes e séries que mostram figuras-modelo como exemplares ideais de equilíbrio, sucesso e empatia, o que acaba criando uma falsa expectativa para a vida real, na qual nossos ídolos e inspirações têm tantas falhas e cometem tantos erros quanto nós (ou até muito mais). Eu admiro tanto a imagem escrita para Brendan justamente porque ela é a antítese do lugar-comum a que estamos acostumados e, consequentemente, está muito mais próxima de nossa realidade do que a maioria do que nos é mostrado.

Eu gostaria de ter ouvido mais sobre a história de Raphina. O pouco que nós sabemos é que ela veio de um lar conturbado – seu pai alcoólatra havia morrido e sua mãe sofria de transtorno bipolar – e estava em um relacionamento abusivo com um homem adulto. Por mais que eu tivesse gostado de ouvir mais sobre essa adolescente, entendo a escolha de escrevê-la dessa forma. Raphina claramente não se sentia confortável ao conversar sobre os sofrimentos por que passou.

“Não dá para ficar alegre quando se está triste. Mas o amor é assim, Cosmo. Alegre e triste

Por seguir uma filosofia de ser “alegre-triste”, sempre que começava a se abrir sobre as dificuldades que enfrentava, Raphina rapidamente dava um sorriso sem graça – como que dizendo Não se preocupe, não foi nada. Eu estou bem agora, não estou?” – e mudava de assunto. Então, muito do que a ouvimos dizer deixa um tom ambíguo, confuso, que nós faz murmurar “Ahn?” e, apesar de as palavras dela continuarem ecoando em nossas cabeças, nós apenas prosseguimos com o filme na expectativa de entendê-la melhor. Mas eu gosto de pensar que esse jeito de ser de Raphina é o meio pelo qual ela consegue focar no futuro, fazer o melhor que puder com o que a vida fez dela. Por outro lado, a “aura de mistério” que Raphina emana é o que atrai Conor: quando perguntado sobre o que é a música “The Riddle of the Model” (“O Enigma da Modelo”, uma óbvia homenagem a Raphina), ele diz:

“Quando não conhecemos a pessoa, ela é mais interessante. Ela pode ser tudo o que você quiser

O “enigma” que aquela garota com um cigarro apagado na boca representa é a primeira peça de dominó a cair para que o filme se desenrole.

Outra coisa que eu admiro em “Sing Street” é que, ainda sendo um filme  musical, ele não peca na romantização. Os diálogos e as reações dos personagens soam e parecem legítimos porque, no fim das contas (e na vida real), o jeito como nós conseguimos sentir ira, decepção, alegria… não é teatralmente expressivo – muitos de nós nem sabem transparecer seus próprios sentimentos, deixando-os apenas entalarem-se na garganta. Então, quando seu irmão explode de raiva, Conor fica sem reação – como nós reagiríamos a um irmão furioso desabafando um peso que você nunca imaginou que ele sentisse? Outro exemplo desse realismo é como, quando o romance entre Conor e Raphina começa a se desenvolver, nós não vemos cenas idealizadas ou “beijos de cinema”; o que o filme nos mostra é o quão estranho e desengonçado é entrar em um relacionamento novo. No piquenique, uma espécie de primeiro encontro entre eles dois, Conor não tem ideia de como se portar – qual é a etiqueta a ser seguida em primeiros encontros?? –, então nós assistimos a um beijo constrangedor seguido por mais outro que nos faz serrar os dentes de vergonha alheia. O que estamos vendo é nada menos que um apanhado fiel das (aterrorizantes, por assim dizer) descobertas da adolescência.

Quando mostrei “Sing Street” ao meu pai, tudo que ele disse depois de ver Conor e Raphina indo para a Inglaterra em um barquinho no meio de uma tempestade foi “Não gostei muito desse filme… O fim foi irreal demais, eles vão obviamente morrer”. Na hora, eu só fiquei um pouco sem graça, porque não esperava essa reação a um filme que julgo tão bom, mas, hoje, olho para trás e digo: é muito melhor visualizar um final feliz para uma história do que analisar tudo que pode dar errado para os protagonistas. Meu longa favorito poderia ser “Parasita” ou “A Vida Invisível”, mas a sensação que eu tenho depois de assisti-los é de puro mal-estar, pois seus finais, ambíguos ou não, são inerentes à bruta e agonizante realidade a que estarei exposta assim que sair do cinema ou desligar a TV. Em nossas vidas, por outro lado, nós nunca teremos um Final Feliz, pois vivemos em uma montanha-russa na qual cada momento de pura felicidade é seguido por um período de tristeza e dificuldade. Tendo consciência disso, em meu filme favorito, eu quero poder ter o direito de sonhar. Sonhar que vai tudo ficar bem. Criar, eu mesma, um final: Raphina e Conor chegam em segurança à Inglaterra, ele consegue um contrato com uma gravadora e sua banda faz sucesso, ela consegue decolar na vida de modelo – talvez até um infantil “E eles viveram felizes para sempre”. Eu quero poder crer que vai ficar tudo bem porque é difícil manter esse pensamento positivo na vida real, na qual os sofrimentos do amanhã são tão palpáveis e nós precisamos ficar de olhos abertos para eles o tempo inteiro. “Sing Street”, então – essa linda obra de, infelizmente, ficção –, é uma homenagem não só a irmãos, mas a sonhos e à esperança. Eu prefiro usar a oportunidade que esses 106 minutos me oferecem para acreditar que tudo vai, SIM, dar certo.



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