Zweig estava certo, o Brasil é o país do futuro


Na década de 30, o escritor Stefen Zweig fez pela primeira vez uma viagem ao Brasil, onde encontrou uma realidade completamente diferente a que estava acostumado na Europa, ainda devastada pela Primeira Guerra Mundial. O continente europeu tentava recuperar-se econômica, política e socialmente, mas mantinha um ambiente de conflitos e profundo ressentimentos por parte de […]


Na década de 30, o escritor Stefen Zweig fez pela primeira vez uma viagem ao Brasil, onde encontrou uma realidade completamente diferente a que estava acostumado na Europa, ainda devastada pela Primeira Guerra Mundial.

O continente europeu tentava recuperar-se econômica, política e socialmente, mas mantinha um ambiente de conflitos e profundo ressentimentos por parte de determinados grupos, como os alemães, o que inevitavelmente estouraria em um novo conflito, que veio a ocorrer em 1939. 

Zweig, que era um austríaco judeu decidiu que o melhor destino para si era retornar ao Brasil, fugindo do iminente conflito e constituindo sua vida no país latino. Apesar da introdução, o que importa aqui não é a vida do escritor, mas sim a obra que produziu enquanto esteve em solo brasileiro, chamada “Brasil, País do Futuro”. Neste livro, Zweig mostra-se encantado com as particularidades brasileiras, e destaca alguns pontos que para ele seriam a chave para a inevitável prosperidade de uma nação tão única, fadada ao sucesso de tornar-se um dos países ditos desenvolvidos, servindo como modelo ao restante do mundo.

Os principais pontos de destaque são a miscigenação, uma suposta democracia racial, a ausência de preconceitos, a versatilidade econômica, as riquezas naturais, a alegria, dedicação e outras qualidades mais. Um dos comentários marcantes feitos por Zweig é que a pobreza e a falta de indústrias ainda eram um dos grandes problemas do país, mas que isso aos poucos vinha se resolvendo e que em pouco tempo não haveriam mais favelas no Brasil, apesar de que, mesmo em meio a essa pobreza não via-se tristeza e violência nos subúrbios, diferente do que ocorria no restante do mundo.

Mas afinal, como posso afirmar no título que o autor estava correto se a maioria dos comentários e previsões partem de observações que são irreais ou não se concretizaram? Respondo-lhes: Pelo título. Zweig vislumbrava que o futuro do mundo seria como o Brasil, e ele estava certo, mas diferente do que se pensava, não como um Brasil que corrigiria seus problemas, mas exatamente como já era: com uma extrema desigualdade, uma expansão descontrolada de favelas cada vez mais violentas e uma pobreza vista a céu aberto.

A partir da dissolução da União Soviética, o neoliberalismo tomou conta da discussão político-econômica mundial, e liderado por Margareth Thatcher e Ronald Reagan, e exportada ao restante do mundo por mecanismos como o FMI (Fundo Monetário Internacional) tomou conta da política mundial, que refletiu no desmanche do estado de bem-estar social que vigorava em países europeus e era visto como um ideal a ser buscado pelas nações em desenvolvimento.

A partir disso, o Estado como instituição de organização e regulação econômica perdeu sua força e abriu vácuos a serem ocupados por grandes corporações internacionais, que expandiram-se nas bolsas de valores e adquiriam numerosas empresas e marcas, com uma mesma instituição controlando da fabricação de agrotóxicos a de alimentos e remédios. Dentre essas poderosas aglomerações empresariais, o domínio foi tomado por instituições financeiras, que controlam o crédito e o investimento, apossando-se de títulos da dívida de um país ao fornecimento de materiais básicos ao mesmo.

Com um maior poder dado a tais grupos, a consequência é a formação de megacorporações expatrias, que se organizam e seguem as leis do país que melhor oferece condições, com suas sedes majoritariamente em paraísos fiscais, que lucram bilhões de dólares com a ilegalidade praticada ao redor do globo, sendo a Suíça o principal deles. Com essas mudanças econômicas, deixou de fazer sentido a sustentação de uma crença liberal de que o lucro vem de atender as demandas com maior qualidade e menor preço, passando o papel para controle das legislações e os mecanismos de combate ao crime, afinal, enquanto os mecanismos de controle são nacionais – e insuficientes -, os grandes conglomerados estão divididos entre dezenas ou centenas de países, seguindo as leis que melhor se encaixam ao seu desejo e, quando pegos, pagam pequenas multas e não sofrem maiores punições.

Como resultado, das evasões fiscais, dos afrouxamentos legais e da financeirização da economia, a desigualdade social e as taxas de desemprego vão às alturas, a violência na sociedade e a repressão do Estado aumentam, os grandes conglomerados conseguem através da corrupção ditar quais serão as regras que irão cumprir, colocando o Estado a seu serviço e retroalimentando este ciclo.

Para o controle da classe trabalhadora não são mais necessárias ditaduras como as que aconteceram na América Latina a partir dos anos 60, a propaganda baseada no mérito faz o trabalho de oprimir movimentos de trabalhadores desde a raiz, criando mecanismos de propaganda atraentes e que justificam os problemas em decorrência dessas políticas como algo que em breve será resolvido, colocando como vilão o Estado, a legislação, os direitos trabalhistas ou até mesmo os sindicatos, mas nunca o mercado financeiro, e se esses meios não funciona, utilizam-se da polícia.

No final, se Zweig achava que o mundo seria como o Brasil ele estava certo: caminhamos rumo a um sistema feudal apocalíptico, onde reina o desemprego e a desigualdade, com um racismo cada vez mais forte, porém travestido de igualdade e democracia.


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