Rupi Kaur, A Poetisa do Nosso Fim de Mundo

Para Fel
“Artista independente carrega no peito a responsa” - Criolo

O Alto e o Baixo Quando a Gente Fala Sobre Literatura

No ano novo do já longínquo 2019, saiu na revista The New Republic uma matéria, escrita por Rumaan Alam [1], falando que Rupi Kaur era a poetisa do século. Maior parte das pessoas que já consomem literatura nem sequer a leram e já consideraram a sentença do seu título como ofensa (eu incluso), entretanto, é sempre importante considerar as posturas esnobes e os erros que se tem. Então, repensando melhor sobre o assunto, eu li o texto e, para minha surpresa, concordei com o autor, mas não da forma que ele a coloca. Isso vem muito do fato de onde eu e meus textos críticos se encontram e onde o texto de Ruman Alam (autor da publicação) se encontra. É impossível saber com precisão como os intelectuais estadunidenses lêem uma obra de arte mas, e isso é um fato, a perspectiva do centro do capitalismo sobre arte e a perspectiva da periferia é tão diferente quanto as gírias que o Morumbi e Paraisópolis usam. 

Voltando ao texto, Alam diz que, mesmo não gostando de Kaur, ela é a poetisa mais relevante desta década por ter sido a artista que melhor percebeu como a literatura será consumida, ou seja, que o gênero na qual ela consagrou, comumente chamado de instapoetry, é uma forma inovadora de se conectar a leitura com os seus leitores, o que se mostra pelos números de vendas que Rupi Kaur teve em comparação a qualquer venda de um livro de poesia. Esse argumento central está correto, mas também está errado. Em primeiro lugar, vamos falar dos seus acertos, e de meus erros também.

De fato, o fato de uma poetisa mulher e negra conseguir firmar o seu lugar no mercado literário por meio de uma reformulação da mídia de expressão comumente usada é, e continuará sendo, um mérito na qual colocará Rupi Kaur como uma ponta de lança na forma de se experimentar a literatura. Entretanto, uma literatura que faz sucesso não necessariamente é boa, da mesma forma que uma obra de arte erudita e que conversa apenas com um seleto número de leitores também não faz dela genial, e essa questão coloca um ponto que quero esclarecer logo antes de começar esta reflexão. 

Quando se fala de arte, e com literatura não é diferente, logo se pensa na divisão entre alto e baixo que às vezes é colocada como cult e pebleu, erudita e popular, pop ou independente, enfim, chame como quiser, mas há em nosso pensamento coletivo, de fato, uma divisão entre uma literatura alta, que ingenuamente é colocada como boa ou inteligente, e uma literatura baixa, que é imaginada como o oposto. Eu discordo veementemente desta visão e, por isso, vou propor um novo significado para os adjetivos alto e baixa neste texto. Mesmo não havendo julgamento de valor, ainda há uma literatura que é feita para ser consumida e, por conseguinte, geralmente divertida enquanto há uma literatura que é construída com um outro objetivo que vai além da visão consumista de diversão. Estas são, respectivamente a literatura baixa e alta que eu estarei discutindo nesse texto. Como toda classificação, ela não é uma colocação totalmente aplicável à realidade mas,  nesta discussão, ela nos será valiosa e a explicação que eu acabo de dar também é a minha forma de explicitar que não estarei julgando ou rebaixando a inteligência ou o gosto de alguém.

Entretanto, mesmo colocando este ponto é válido dizer que, invariavelmente, um julgamento dessa forma existe na nossa sociedade e é em parte por isso que este texto que estou discutindo foi transformado em chacota ao invés de ser seriamente discutido. As pessoas que já se sentiam pré-dispostas a pensar qual era o autor da década, por si só, já haviam a pré disposição em rir deste título, e eu não sou nenhuma exceção. Nomes como Paulo Coelho e Rupi Kaur habitam no imaginário dos círculos literários como uma espécie de palhaço, um autor que faz sucesso e pretende se tratar como complexo mas que, ao fim, fala as mesmas coisas que um livro de autoajuda, apenas de uma maneira mais rebuscada. Essa visão, invariavelmente, segrega e separa, o que faz com que tais fenômenos não sejam pensados, de fato, como existentes, sendo apenas recalcado por nossa intelectualidade. O problema disso se encontra no fato de que, como já dizia Freud, tudo o que é recalque vira um sintoma pois é algo dentro de si que não pode ser ignorado. Sendo assim, quando eu leio e reflito agora sobre este texto eu vejo a oportunidade que foi perdida de se fazer uma discussão séria sobre o caminho que a literatura e o mundo, por consequência, caminham. Por isso que pretendo com esse texto começar eu mesmo essa discussão mesmo que continue considerando Rupi Kaur, com todo o respeito, como uma coach que escreve auto-ajuda por meio de poesia.

  1. Instapoetry e Como Nós Vemos o Conhecimento e a Tecnologia 

Agora, vamos voltar ao texto, a colocação de que ter entendido a maneira que os jovens irão ler é um argumento que toma o conhecimento e a tecnologia como duas partes separadas de uma realidade social. Nisso vale a pena reafirmar que a tecnologia é criada em um mundo regido por forças materiais que a faz funcionar de maneira semelhante. Um ótimo exemplo disso é a problemática em torno das automatização de certos processos pelo uso de inteligência artificial: Por ela ter sido criada por humanos em uma sociedade capitalista e que reproduz diversos preconceitos, o algoritmo acaba por tomar decisões que reafirmam o racismo, como, por exemplo, reconhecer menos a diferença entre rostos de pessoas negras e outras coisas do tipo. Isso não é uma regra natural na qual a tecnologia funciona, mas sim uma convenção social utilizada por uma sociedade com um determinado sistema de produção que faz com que as pessoas em sua maioria vejam o mundo de certa forma.

Sendo assim, é um argumento muito fácil olhar para um artista ou produtor de conteúdo e dizer que ele é bom porque ele entendeu como as pessoas estão consumindo tal coisa sem se perguntarem porque as pessoas consomem desta forma e quem lucra com isso no fim do dia. É importante aqui delimitar que, por mais que alguns autores tenham tido um pensamento em relação ao marketing, a qualidade da obra de um artista não se coloca no seu marketing pois o consumo e a composição não são a mesma coisa e colocar isso como uma justificativa ou uma qualidade intrínseca a obra composta é reduzir o conhecimento e a educação como meras formas de consumo e não como uma maneira na qual se constrói a própria humanidade. Mesmo sendo absurdo pegar uma informação factível dessa e transformar como um argumento favorável a algo que, por definição, não é algo a ser comido e sim internalizado, esta mesma lógica está em várias outras maneiras de se ver o conhecimento no mundo em que vivemos. Recentemente, por exemplo, passei por perto de uma postagem no instagram que procurava refletir sobre os benefícios de todos estarem se tornando criadores de conteúdo na internet sem, por exemplo, perceber que esse aumento de criação não se dá apenas na condição da quarentena, onde as pessoas têm mais tempo livre mas sim porque um grande  número de trabalhadores informais e formais perderam significativamente a sua renda e precisam trabalhar na criação de conteúdo justamente para conseguir novamente serviços para serem contratados.  

Rupi Kaur e a linguagem do instapoetry, por consequência, acabam ser a forma na qual a literatura se poda para caber e existir no mercado de conteúdos que é a internet. As novas gerações, diferente do que parece pensar o autor do texto, não são mais intolerantes a lerem livros longos e complexos porque a sociedade caminha invariavelmente para esse lado sem nada que se possa fazer mas sim não estão acostumados com a linguagem das formas artísticas porque foram criados em um mundo que historicamente elitizou o conhecimento, sucateou a educação e transformou a cultura não em um trabalho intelectual mas sim em diferentes formas de expressão da ideologia dominante. Com isso não quero parecer um papagaio simplista de conceitos de Theodor Adorno,, mas sim mostrar que os grandes fenômenos culturais como  o funk e o rap se colocaram no mercado não por se adaptar a forma com a qual as pessoas consomem mas sim por terem estado em combate direto contra a ideologia dominante, sendo aceitos apenas quando a indústria percebeu que não se é possível mais contornar tais acontecimentos artísticos.

Rupi Kaur acaba aparecendo na cena cultural como a perfeita conciliação de um mercado cultural que já entendeu a inconsistência de segregar grupos historicamente oprimidos mas que não quer dar voz para uma arte que, de maneira insubmissa e autenticamente artística, consiga confrontar essa segregação e fazer com que os leitores pensem de maneira ativa sobre isso. De súbito, os problemas do nosso tempo se encontram no fato de pais que ensinaram as suas filhas que quando gritam com elas é porque, no fundo, eles as amam e não porque vivemos em um século que pode ser o último antes da humanidade se o sistema de produção que a atualmente rege e a segregação que ele alimenta sejam abolidos completamente. 

Com isso, não quero dizer que o pessoal não é político pois, de fato, tudo pode ser político, mas quero sim demonstrar que essa pensamento artístico onde a criação da arte sai do campo da composição e se mescla a criação de conteúdo e o marketing na qual o artista acaba sempre utilizando a sua vida como material de escrita e nada mais além de uma romantização do seu próprio ego acaba por despolitizar os temas que são políticos e não politizar aquilo cuja política é ocultada. 

E não devemos apenas apontar o instapoetry  como um gênero expressão dessa fase do capitalismo tardio, mas devemos também ver as formas “da moda” dos círculos literários eruditos como a auto-ficção, onde se foi produzido uma centena de livros sobre escritores escrevendo livros, é também uma expressão desse estágio de capitalismo tardio onde para se ser consumido se precisa criar uma literatura submissa ao algoritmo ou, para ser consumida pela elite intelectual, se deve criar uma arte que se perde não apenas em sua forma linguística mas também na alta estima que ela tem de si própria. Isso não quer dizer que também não devemos esquecer que a tecnologia é um fato social na qual a literatura vai trabalhar mas sim que ela nunca deve se servir, da mesma forma que nunca se serviu ao rádio e televisão mas sim os surrupiaram aquilo que lhes havia de melhor. Exemplos ótimos disso são artistas que possuem uma atividade genial na internet como é o caso do Renato Kolla(@renatokolla no instagram) e Ferréz (este, já um escritor mais conhecido) que, assim como Rupi Kaur, tem uma vivência que foi, de fato, desconsiderada e desprezada pelas elites intelectuais mas que, diferente da mesma, não trataram a tecnologia como as regras que delimitam os limites da sua arte mas sim utilizam da tecnologia para que a sua arte insubmissa e poderosa consiga, de fato, ter vez no mercado literário. 

  1. O Nosso Fim de Século 

De maneira curiosa, um dos momentos mais interessantes na história da literatura aconteceu de uma maneira parecida. O modernismo também veio como uma reação a um mundo que está agonizando e uma cultura que estava perdida olhando para o próprio reflexo. Assim, colocou-se como ordem do dia a insubordinação, a recusa de tudo na qual era produzido para seguir maneirismos e gostos historicamente estabelecidos. Creio que talvez nós, enquanto artistas, devemos ver novamente a transgressão não como um experimentalismo que experimenta por maneirismo ou por poder experimentar mas sim porque se é necessário experimentar quais devem ser os  versos para um novo mundo enquanto se mata um velho.

O nosso século XX acaba agora, coincidentemente, em 2020. O capitalismo como o fim da história já se enterra a cada dia que passa junto aos mortos, não de um vírus, mas de um sistema que lucra ativamente com mão de obra sendo enterrada. A arte enquanto a forma do sentimento humano comunicado a um outro não pode viver nesse mundo se não for como um poema da Rupi Kaur: submisso e individualista na sua pior. Mas também ela não é a única dessas expressões da década decadente que passou, o artista contemporâneo que procura a todo o momento em sua obra a falha, o erro, aquilo que não se entende, a falta de sentido inerente a tudo, também é a forma na qual o capitalismo dita até mesmo a arte que não é feita para o consumo.  

Não é à toa que se existe algo em que ambos os círculos culturais convergem é na sua incompreensão da dimensão política na arte. Enquanto o artista que fala francês e lê Proust olha para uma arte engajada e grita como visse um rato na sua cozinha, o criador de conteúdo dos poemas melosos de versos epígrafes motivacionais vai olhar para o fato de que, por se considerar contra Bolsonaro ou qualquer fascista, ele é um militante. Nenhum dos dois de fato consegue entender que a política da arte não é uma submissão da arte à política e que muito menos a lógica da arte deve submeter a política para si e se chamar de “arte militante”.

Para encerrar a argumentação, eu concordo sim que Rupi Kaur é a escritora desta década que se passou, e isso é um grito. Tal fato não deveria ser algo a ser rido ou aceito de maneira passiva mas deveria receber a mesma reação que bombeiros tem ao receber o sinal de um fogo. A que ponto chegou a arte? Ela, de fato, não está numa espiral de decadência mas o nosso  mundo, as suas condições trabalhistas, climáticas e afetivas estão, o que vai fazer a arte? Um novo poema sobre os seus desencantos amoroso que repete a forma da artista que repete a forma? Ou será que vai fazer mais um livro muito rebuscado com centenas de referências a David Foster Wallace e Philip Roth sem olhar para o seu próprio chão e perceber que mais de cem mil pessoas foram assassinadas? Será que a mobilização política de fato, organizada, revolucionária, já não deveria ser o óbvio para agora? Ou a arte acha que quando toda a Amazônia queimar se poderá  publicar mais autobiografias óbvias?

Tudo bem, então qual caminho deveria seguir a arte? Isso, sinto-lhes em dizer, não deve ser nunca o objetivo de um crítico, observar as contradições reais daquilo que consumimos e gostamos é a minha tarefa, o resto é uma especulação. O que eu posso dizer  são as contradições concretas, e estas são que a arte não é um redemoinho de linguagem e muito menos tem  o seu valor atrelado ao seu consumo. A arte é, e isso é verdade, assim como a realidade: impossível diante do sujeito, nunca devendo ser a forma na qual esse glamouriza a si próprio. Isso não quer dizer que a realidade é uma ficção ou que não existem condições reais, não, a realidade existe e é coesa mas, assim como a arte, ela é sempre insubmissa às expectativas do sujeito, principalmente do intelectual. Pois a nossa individualidade não pode ser nada além do que os produtos de condições materiais enquanto a arte é o contrário, é uma quimera indomável que acumula o contexto que a criou e o contexto na qual é lida. Sendo assim, ler não é como comer um prato de comida, ler, assistir um filme ou ouvir uma música é como entrar em contato com outra pele: pode ser um abraço ou um soco ou coisas outras, mas nunca é previsível de acordo com as criações da ideologia dominante que rege, de forma ou outra, nossos desejos de deleite. Há muito mais lá fora e fora disso tudo, a literatura deve chutar a sua bunda pra fora de casa (com máscara, é claro) e não te tirar do mundo que existe lá fora, se você vai ser roubado ou encontrar o amor da sua vida isso já não deve ser medido por nenhum crítico e nenhuma tecnologia, pois isso é que é ser insubmisso. 

Isso não quer dizer que se divertir com uma obra de arte que não foi feita para além disso é errado, e acho que a questão nunca deveria ser essa. O que é realmente colocado aqui é que existe um projeto político atrás da própria formação de uma literatura erudita e uma literatura de consumo, a arte que queira ser verdadeiramente moderna deve abolir e, como sempre, se insubmeter contra aquilo que é ditado homogeneamente, seja pela Cia das Letras, seja pela Netflix, não por um dever moral de se ser mais intelectual mas sim porque uma arte que, de alguma forma, legitima o pensamento do capital é quem vai cantar o fim do ser humano, e  nunca vai conseguir formar uma frente que imponha aquilo que humanidade tem de melhor contra o risco muito real do verdadeiro fim. Uma arte que consiga suprir uma tarefa dessa magnitude deve, pelo menos, entender a condição da arte como algo que é real e pode ser um punhal contra a garganta daqueles que pretendem fugir pra Marte. Ao fim, é justamente por esse poder que ela vai além dos caprichos e das vontades de qualquer um, seja eu ou você, a arte é impossível, o fim do mundo não.

1. https://newrepublic.com/article/155930/rupi-kaur-writer-decade


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