2020: O ano do estrangeirismo.


“Então atirei quatro vezes ainda num corpo inerte em que as balas se enterravam sem que se desse por isso. E era como se desse quatro batidas secas na porta da desgraça.” Albert Camus, O estrangeiro – 1942 O romance existencialista do jornalista, filósofo e escritor francês, Albert Camus, é considerado uma das obras mais […]


“Então atirei quatro vezes ainda num corpo inerte em que as balas se enterravam sem que se desse por isso. E era como se desse quatro batidas secas na porta da desgraça.”

Albert Camus, O estrangeiro – 1942

O romance existencialista do jornalista, filósofo e escritor francês, Albert Camus, é considerado uma das obras mais importantes da literatura do século XX.
Em “O estrangeiro”, Camus, vencedor do prêmio Nobel de literatura, nos apresenta uma narrativa que gira em torno de Mersault, esse jovem banal e enigmático nativo da Argélia, local onde se desenrola toda a história.

A narrativa inicia-se com a notícia da morte da mãe do jovem, morte essa que não lhe causa nenhuma comoção, sendo, inclusive, motivo de desconforto para o personagem, não por tristeza ou apego, mas por pura preguiça de deslocar-se até o lugar onde sua mãe estava sendo velada. 
O personagem, que não derruba sequer uma lágrima, inicia um relacionamento amoroso logo no dia seguinte, com uma jovem intitulada Marie, e uma amizade esquisita com um de seus vizinhos, Raymond, que se envolve em desavenças com árabes e é o gatilho para que Mersault assassine um deles e seja levado em julgamento. 

Ao chegar ao tribunal, a narrativa muda seu foco; agora os personagens passam a questionar a insensibilidade que é nata ao Mersault.
Inicia-se uma “guerra de metáforas”, analisando a profundidade das manifestações dessa característica, focando nas suas ações pós o falecimento de sua mãe: o cigarro que foi fumado no velório, o café com leite consumido em frente ao corpo morto daquela que lhe deu a luz, o cochilo tirado durante a cerimônia e, principalmente, o fato de Mersault não ter derrubado sequer uma lágrima. 

Essa indiferença exprimida pelo personagem torna-se peça central de seu julgamento, sendo até mesmo “exorcizado” por um juiz em determinado parágrafo. Ora, não é de se surpreender a reação de estranheza que os personagens manifestam ao notarem essa característica, nada comum, de Mersault. Pois é a mesma que nós, como leitores, manifestamos ao decorrer da narrativa.

“Estamos diante de uma consciência esvaziada, estranha a tudo, que vive no tempo presente e na recusa de estabelecer nexos entre a gratuidade dos fatos ” 

Manuel da Costa Pinto

Trazendo o romance para a nossa realidade, as atitudes de Mersault, quando analisadas calmamente, não são assim tão distantes quanto acreditamos ser. 

A avassaladora pandemia, em que todo o globo se encontra imerso desde março, serviu como uma lupa para observarmos a insensibilidade nata ao ser humano.
As milhares de mortes que foram motivos de comoções, hoje são completamente ignoradas pelos mesmos que levantaram bandeiras de campanhas conscientizadoras.
Manchetes de praias lotadas, festas clandestinas e quebra das orientações dadas pela OMS já não são mais surpreendentes aos nossos olhos e, muitas vezes, são até ignoradas. 
Mas a questão é: o que mudou do início da pandemia para hoje?
Ser consciente já não é mais rentável? Como somos capazes de friamente julgar a insensibilidade alheia quando somos corrosivos tanto quanto o outro? Quanto de Mersault há em nós? E como nós nos recusamos a aceitar este fato, e o quanto ignoramos tudo o que é desconfortável acerca de nossos próprios demônios?

Dentro do próprio universo criado por Camus, existe um pouco de Mersault em cada um dos personagens. Marie, sua namorada, que, mesmo com todos os acontecimentos, ainda insiste em casar-se com Mersault. Raymond, um de seus vizinhos, que espanca sua amante. Salamano, outro vizinho de Mersault, que cria seu cachorro à base de maus tratos. E até mesmo o porteiro do asilo onde sua mãe vem a falecer, que, junto a Mersault, fuma diante do cadáver da senhora. 

Todas essas atitudes são ignoradas pelos personagens durante a narrativa, e até mesmo por leitores desatentos, mas com certeza não estão presentes por puro acaso. Camus, nos faz refletir aqui o quão fácil é demonizar um único ser enquanto reproduzimos ações de caráter tão duvidoso quanto. E isto não apenas em níveis absurdos, mas também em ações simples do nosso dia-a-dia. 

Apesar de que fique implícito quem é o “Estrangeiro” a que Camus se refere no título, numa breve e superficial análise, pode-se associa-lo ao árabe assassinado em meados da narrativa.
Ao encarar a obra de forma mais subjetiva, fica nítido que o estrangeiro é o próprio Mersault; sua associação ao adjetivo não é literal, em termos de nacionalidade, e sim a esse alheamento aos padrões comportamentais de indivíduos inseridos na sociedade. Ele é um estranho aos olhos dos outros, não é fluente nas convenções sociais. 

O país, aqui, iguala-se a sensibilidade, a linguagem a sensatez, e o patriotismo, a empatia. E é justamente aí que se dá o estrangeirismo do personagem. 
E, no contexto em que nos encontramos inseridos, estamos cada vez mais próximos de Mersault, cada vez mais alheios e insensíveis, cada vez mais estrangeiros a nossa própria humanidade.


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