Julian Assange – Criminoso ou mártir?


Fundador do Wikileaks, Julian Assange é uma das figuras mais importantes do jornalismo internacional. Justamente por sua importância e seu legado, farei uma série de artigos explicando não sua história, mas tudo de importante que o envolve, incluindo seu julgamento que acontecerá este ano por complicações legais e acusações que envolvem sua plataforma. A história […]


Fundador do Wikileaks, Julian Assange é uma das figuras mais importantes do jornalismo internacional. Justamente por sua importância e seu legado, farei uma série de artigos explicando não sua história, mas tudo de importante que o envolve, incluindo seu julgamento que acontecerá este ano por complicações legais e acusações que envolvem sua plataforma.

A história de Assange com a internet não é nova. Quando adolescente, hackeou diversos sistemas de segurança [incluindo os da Nasa e do Pentágono] e, em 1991, foi processado com 31 acusações de ciber crime pelas autoridades australianas. Ele se declarou culpado na maior parte das acusações e, por isso, apenas pagou uma pequena multa. A ética e a moralidade dessa, e de mais atitudes, de Assange entram em debate. Porém, seja qual for sua opinião, vemos que seu propósito de combater autoridades que ele considera como danosas sempre foi presente.

O WikiLeaks, site que marcou o nome e a história de Assange, foi fundado em 2006. A primeira postagem em seu site foi de um rebelde Somali, em que esse encorajava o uso de violência contra oficiais do governo. Após isso, o site publicou diversos documentos sobre governos e agências de inteligência ao redor do mundo, como detalhes do exército americano e suas atuações na Baía de Guantánamo em Cuba e documentos expondo a igreja da Cientologia.

Entretanto, o vazamento mais famoso aconteceu uma década atrás. Em 28 de Novembro de 2010, cerca de meio milhão de documentos, telegramas, vídeos e diálogos confidenciais e diplomáticos do Departamento de Estado dos Estados Unidos foram divulgados, revelando diversas falhas, crimes e violações por parte do governo norte-americano. Documentos sobre outros países e outros governantes também foram divulgados, entre eles, o próprio Brasil. Os documentos principais não só foram divulgados pelo próprio site do Wikileaks, mas também foram entregues para cinco grandes veículos jornalísticos, entre eles o New York Times e Le Monde Diplomatique.

Esses documentos [especificamente os que abordavam o governo norte-americano] foram vazados por uma oficial de inteligência chamada Chelsea Manning [que após esses vazamentos ficou presa por 6 anos, sendo solta apenas em 17 de maio de 2017] e, em sua maioria, abordavam os Estados Unidos e suas atuações nas guerras do Iraque e do Afeganistão. Os documentos datavam de 2007-2010, mas alguns eram mais antigos e chegavam até 1966.

Como supracitado, esses vazamentos abordaram diversos países e governos. Pela extensão no vazamento e de seus conteúdos, produzi uma lista analisando parcialmente os documentos, especificando as principais descobertas sobre cada país ou região, claro, deixando muitas descobertas de fora. É importante ressaltar que todos os documentos mostraram participação ou algum tipo de influência dos Estados Unidos. Para acessar um resumo dos principais tópicos dos vazamentos de 2010, clique aqui. Para acessar o arquivo completo dos vazamentos do período, clique aqui.

Estados Unidos:

  • Os documentos de 2010 mostraram o esforço por parte do governo norte-americano para isolar a economia do Irã, assim como de suas relações diplomáticas. Os Estados Unidos temiam o desenvolvimento da ciência nuclear no país.
  • A administração de Obama trabalhou com republicanos nos primeiros meses de governo para acobertar uma investigação internacional contra o ex-presidente George Bush, as acusações eram de que algumas políticas militares de sua gestão se qualificavam como tortura. Telegramas confidenciais, datados de 17 de abril de 2009, enviados pela embaixada dos Estados Unidos em Madri foram obtidos pelo WikiLeaks, detalhando como o governo Obama, trabalhando com os republicanos, confiando no governo espanhol para inviabilizar esse possível processo.
  • O WikiLeaks divulgou um telegrama secreto do Departamento de Estado dos Estados Unidos que fornecia uma lista de sites ao redor do mundo que o governo norte-americano considerava essenciais [ou perigosos] para a segurança nacional dos EUA, entre eles minas na África até laboratórios na Europa.

Brasil:

  • A morte da missionária norte-americana Dorothy Stang, naturalizada brasileira, foi pauta entre oficiais diplomáticos dos Estados Unidos. Segundo os vazamentos, o embaixador do período [2004-2005], John Danilovich, afirmou em telegramas que o Estado do Pará parecia “com a imagem popular do velho oeste”. Os documentos também mostram a participação do FBI [Federal Bureau of Investigation] durante as investigações sobre a morte da missionária.
  • O governo brasileiro estava, há ao menos cinco anos, se opondo a receber como refugiados pessoas detidas na prisão de Guantánamo, localizada em Cuba mas administrada pelo governo dos Estados Unidos. A justificativa dita no telegrama era de que não podia “aceitar imigrantes de Guantánamo porque é ilegal designar como refugiado alguém que não está em solo brasileiro”.
  • Um telegrama escrito em novembro de 2008 pelo embaixador norte-americano do período afirmava que o MST [Movimento dos trabalhadores Sem Terra] era um dos motivos para a dificuldade da criação de uma lei antiterrorismo no Brasil. O documento também afirma que o governo brasileiro voltou atrás na criação de uma lei dessa forma por motivos políticos. Um dos documentos mais críticos ao movimento foi enviado ao Departamento de Estado norte-americano em 2009. O título: “O método MST: Trabalhar com o Estado, alienar os locais”.

Oriente Médio:

  • Documentos militares mostram que autoridades norte-americanas falharam em divulgar centenas de acusações e denúncias de estupro, tortura e assassinato pela polícia iraquiana e pelo exército norte-americano. Os documentos mostram como essa conduta, por ambas as organizações, era sistemática e raramente punida. Muito provavelmente ainda é.
  • O Wikileaks publicou em seu site um vídeo de 2007 mostrando dois oficiais do exército norte-americano assassinando dois jornalistas da Reuters e alguns civis em Baghdad. O vídeo, com quarenta minutos de duração, mostra em detalhes a conversa entre os dois militares, que confundiram as câmera de jornalistas com armas, junto às cenas dos ataques. [O vídeo contém cenas explícitas de violência e morte e pode causar algum dano emocional].
  • O então presidente do Iêmen, Abdullah Sallah [assassinado em 2017], concedeu uma permissão sigilosa para os Estados Unidos adentrarem o país para combater a Al Qaeda e o grupo posteriormente tentou explodir aviões em espaço aéreo norte-americano. Abdullah Sallah disse a John Brennan, na época o conselheiro de antiterrorismo de Obama, que os Estados Unidos possuíam “uma porta aberta para combate ao terrorismo no Iêmen”.
  • Documentos e telegramas mostraram que Israel destruiu um reator nuclear na Síria em 2007, construído com ajuda da Coréia do Norte, pois acreditavam que seu propósito era construir uma bomba nuclear, mesmo sem provas. Em um dos telegramas vazados pelo WikiLeaks, a então secretária de Estado dos Estados Unidos, Condoleezza Rice, escreveu, em abril de 2008: “Nossos oficiais de inteligência estão convencidos de que o ataque direcionado pelos israelenses é em um tipo de reator atômico construído pela Coréia do Norte em Yongbyon”. Logo após, escreveu: “Nós evitamos compartilhar essa informação com você até agora por medo de um possível conflito.” Ela concluiu o telegrama com: “As mentiras contadas pela Síria nos meses após o ataque significa que eles possuem algo a esconder”.

Europa e África:

  • Durante o período datado pelo vazamento dos documentos, foi divulgado que mais de 200 armas nucleares norte-americanas foram importadas para a Europa. Dezenas dessas armas ainda estão na Alemanha, Holanda e Bélgica.
  • O antigo Papa Bento XVI, nascido Joseph Aloisius Ratzinger, impediu uma investigação sobre abuso sexual infantil dentro da Igreja Católica. O então Papa não só impediu as investigações, como não permitiu que nenhum oficial do Vaticano testemunhasse em qualquer local.
  • A Shell, empresa gigantesca da área petrolífera, havia infiltrado altos escalões do governo da Nigeria. Um executivo de alto porte da empresa afirmou para diplomatas norte-americanos que a companhia estava tão bem infiltrada e posicionada dentro do país, que “o próprio governo da Nigéria havia esquecido de sua existência e o nível que a empresa possuia dentro do país.”

Pontuando essa lista, é de suma importância compreender a necessidade da quebra de sigilo dessas informações. Foram, e ainda são, informações que afetaram toda a população mundial e mostraram aspectos específicos da geopolítica. Eles revelaram o crescente esforço dos Estados Unidos de monitorar, adentrar ou ocupar outros países da maneira que for conveniente para eles e a quantidade de conflitos, a inserção e a vigia absurdas no Oriente Médio e região, que não recebem a mesma atenção que países ocidentais.

Entretanto, da mesma maneira que é essencial afirmar a importância destes grandes vazamentos iniciais do WikiLeaks no ano de 2010 e de como eles revolucionaram a maneira de fazer e agir no jornalismo, é de suma importância abordar o debate ético e moral que o circula.

Muitos questionam se o WikiLeaks possui o direito de publicar documentos de segurança nacional. De um lado da mesa, existem os que acreditam que tudo feito pelo governo deve ser público, de domínio público e aprovado pelo público. Do outro, existem os que acreditem que um Estado, qualquer que seja, possui o direito de esconder atitudes em prol da população.

Os críticos ao WikiLeaks e suas atuações são, em sua maioria, políticos. Tanto de esquerda, quanto de direita. Tanto liberais, quanto conservadores. Um dos grandes exemplos desses críticos é a política norte-americana Hillary Clinton, que, na época dos vazamentos iniciais, era secretária de Estado na gestão Obama [em 2016, a própria Hillary foi alvo de vazamentos].

Logo após os vazamentos, em um discurso para a imprensa, ela deixou a sua posição e a do governo de que participava bem claras. Suas palavras exatas foram: “Vamos ser claros. Essa revelação não é apenas um ataque à América – é um ataque à comunidade internacional”. Esses vazamentos, disse ela, “destroem o tecido” de um governo responsável.

A fala de Hillary Clinton pode ser generalizada para grande parte dos críticos da plataforma, por acreditar que vazamentos de documentos desse tipo podem criar uma crise diplomática, acabar com acordos internacionais ou colocar seriamente um país em risco.

É extremamente provável que desde o início da democracia e a construção dos Estados democráticos de direito, segredos de Estado existam e se perpetuem ao longo de décadas. Diversas dúvidas sobre moralidade e vazamentos de documentos e segredos de Estado em geral ficam, a principal sendo: isso deve continuar? A partir desse questionamento principal, diversos galhos questionários aparecem, como a dúvida de se o WikiLeaks e pessoas como Julian Assange possuem o dever público, como organizações e cidadãos, de publicar e expor esses segredos. Ou o certo dilema de se é justo, ético e de uma certa maneira, moral, colocar segredos e documentos de um certo Estado acima da segurança de um país marginalizado, oprimido e massacrado.


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