A corda-bamba entre humor e ofensa

É comum ouvir, sobretudo das gerações anteriores, falas como “Nem se pode mais fazer piada hoje em dia, tudo virou ofensivo!” mas, a um ouvinte atento e responsável, cabe, claro, explicar que não é bem assim. Se uma piada é ofensiva, ela não se transformou, da água para o vinho, em insulto ela sempre foi ofensiva, o problema é que isso costumava ser ignorado por completo. O principal, mas não o único, ingrediente que faltou na sua composição é o bom-senso (o conhecido “desconfiômetro”), enquanto algumas xícaras de preconceitos cristalizados e disfarçados também foram adicionadas à receita. Nós ficamos atentos às falas ao nosso redor porque já basta de propagar tanto ódio acobertado por risinhos. Porém, o humor usado de forma consciente pode ser uma arma poderosa para a luta contra injustiças.

“Jojo Rabbit”, um dos participantes da corrida do Oscar de 2019, é uma das maiores provas disso. Para quem ainda não o conhece, o filme (uma “dramédia”) conta a história do pequeno Johannes Betzler (Romman Griffin Davis) que, em meio à Alemanha dominada pelo nazismo, é tão fascinado por Adolf Hitler que o possui como melhor amigo imaginário (Taika Waititi). Contudo, ao contrário do que alguns críticos levantam, o humor do longa não foi colocado lá para ridicularizar a guerra, a destruição ou a morte, mas sim o nazismo.

Se pararmos para analisar a História e pensarmos um pouco, o quão ridículo, absurdo, inaceitável o nazismo é?

“Uma das coisas que pessoas de tendências autoritárias odeiam é o humor. É muito difícil levar uma pessoa a sério quando se está rindo dela

Stephen Merchant

Rir de algo significa tirar seu poder e nós precisamos tirar o poder das ideologias que se alimentam de ódio e paranoia. Precisamos tirar o poder de influência que a figura de Hitler, do nazismo e de seus partidários, infelizmente, ainda têm hoje, mais de meio século após a derrota nazifascista.

“Primeiro eu pensei ‘Talvez seja bom dar uma pesquisada’. Mas, depois, eu pensei ‘Pera, a gente não deve qualquer autenticidade a ele [Hitler]. E eu não quero ter que atuar como esse cara e dar a satisfação de alguém estar tentando ser ele’”

Taika Waititi

O filme possui incontáveis elementos incríveis, mas, como meu foco aqui é a comédia, abro o espaço especificamente para aplaudir o Waititi, que trabalhou como roteirista (tendo, inclusive, recebido o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado), diretor e ator. Quando eu sentei na poltrona do cinema, esperava encontrar um Hitler como o de “Bastardos Inglórios” ou “Ele Está de Volta” – isto é, adulto –, mas…

“Ao colocar o bigodinho, a roupa, deixar o cabelo horrível daquele jeito, uma coisa toma conta de mim… e eu viro um babaca!”

Taika Waititi

… o que recebi foi muito diferente, afinal, como o amigo imaginário de um garoto de 11 anos pode ter a mentalidade de um adulto? Taika Waititi não entrou no elenco para fazer o papel do führer, ele está lá para nos fazer rir! Imagine só a reação que Hitler teria ao assistir a um filme que o retrata dessa forma e ao ver que todos estamos rindo dele – não sentindo medo ou admiração, sentimentos que poderiam reforçar sua imagem. Nós precisamos não leva-lo a sério e, rindo dessa representação infantilizada, o ditador “perde sua moral”. Esse é o efeito desejado ao assistir a “Jojo Rabbit”.

Ver esse filme é uma experiência única: nós começamos a dar gargalhadas e, depois de alguns milissegundos, tapamos a boca, olhamos as pessoas que estão conosco e pensamos “Mas eu posso rir disso?”. E sim, podemos. Esse longa tem sucesso em uma atividade que pouquíssimos outros realizam bem, já que transitar pela comédia enquanto se fala de temas tão delicados é como fazer malabarismos em uma corda bamba. Mas nós não estamos ouvindo piadas desrespeitosas sobre o holocausto ou achando graça em pessoas sangrando no chão. Estamos rindo do que é ridículo e, acima de qualquer coisa, inadmissível!

Garotos sendo treinados a desejar matar enquanto garotas aprendem que seu único valor está em parir? Um menino de 11 anos que foi ensinado pela mídia e pelas autoridades a ter uma fixação pelo líder do país, ignorando tudo de ruim que esse homem estava trazendo ao mundo? Um garotinho que acha que judeus são monstros vis com superpoderes? Em que planeta algo semelhante a isso foi normal? Infelizmente, no nosso – e há menos de um século. Mas essa história não pode e não deve ser apagada ou esquecida. Nós temos o dever de abrir os livros de História, observar a mídia e entender o que aconteceu antes de nascermos, porque, apesar de tantos de nós sabermos que isso não pode se repetir, vários outros ainda creem que há alguma coisa válida nesse conjunto de irracionalidades que o fascismo do século XX trouxe em pauta. Por isso eu afirmo e defendo o quão valiosa é a chegada de “Jojo Rabbit”, um filme feito para tirar o poder do intolerável intolerante, na luta contra totalitarismo, fascismo, nazismo e contra tantos outros conhecidos “ismos” que maculam nossa democracia.



TEM UMA PAUTA?
ESTAMOS AQUI!

Toda ideia tem o potencial de ser uma boa ideia. Gostamos de ouvir ideias de pauta, denúncias ou sugestões de nossos leitores. Se quiser compartilhar, conte conosco — e olha, pode ser anônimo, tá?


Em destaque

RECENTES

A revista o sabiá é um veículo de mídia independente e sem fins lucrativos, que busca usar o jornalismo e a comunicação como um mecanismo de mudança no futuro das novas gerações.