“Não exatamente como gotas d’agua, embora esta, na verdade, seja capaz de cavar buracos no granito mais duro; mas, antes, como gotas de cera derretida, gotas que aderem e se incorporam àquilo sobre o que caem, até que finalmente, a rocha não seja mais que só uma massa escarlate.”

– Aldous Huxley; Admirável mundo novo.

“Admirável mundo novo” publicado em 1932 é considerado a mais célebre das obras de Huxley e um dos clássicos, juntamente a obras como Fahrenheit 451 e 1984, que fazem parte do gênero distópico. Como em toda distopia, aqui nos é apresentado um futuro, não muito distante, onde a humanidade se encontra mergulhada em bizarrices. Nesta em específico, os seres humanos agora se encontram num modelo societal baseado nas ideias de Ford. A reprodução já não é mais natural e sim através de engenharia genética, o que facilita o sistema de distribuição de castas: Alfa, Beta, Gama, Delta e Ípsilon, onde os das castas inferiores são projetados à trabalhos braçais e pouco, ou nenhum, intelecto, também existindo em maior quantidade quando comparados às castas “superiores”, pois muitos são frutos de um único óvulo, sendo fisicamente idênticos.

A narrativa se inicia aí, com um tour pelo instituto de reprodução onde é apresentado ao leitor como essa realidade se torna possível. Adentrando por salas frias, corredores silenciosos e trabalho minucioso, todas as etapas do processo são colocadas à mesa e aos poucos imergimos neste microcosmos

Em poucas páginas nos é apresentado uma das cenas mais impactantes: bebês delta são colocados em uma sala e lhes é oferecido livros flores. Ao se aproximarem dos objetos são agredidos com fortes descargas elétricas, levando-os assim a evitar esses objetos não só naquele momento mas, involuntariamente, em toda sua vida. 

“Eles cresceram com o que os psicólogos chamam de um ódio ‘instintivo’ aos livros e às flores. Reflexos inalteravelmente condicionados. Ficarão protegidos contra os livros e a botânica por toda a vida”

– Admirável mundo novo.

A cena retrata a aplicação de uma teoria behaviorista, que é uma das vertentes mais estudadas da psicologia, e como já é explícito no próprio nome, busca a compreensão dos seres humanos através da observação do comportamento, tendo justamente um dos estudos mais importantes o condicionamento Pavloviano visto em cena, que se resume na resposta automática aos estímulos que nos são provocados.
Apresentado inicialmente nesta cena, podemos ver reflexos deste em todo seguimento da narrativa.

Partindo para a nossa a realidade, um dos acontecimentos recentes mais impactantes foi a falência da livraria Saraiva, que apesar de, ter sido uma consequência de má administração da empresa também é um reflexo dos nossos hábitos com o consumo de cultura.
Pensar que, no sistema governamental e econômico que estamos inseridos, temos como prioridade ao acesso à cultura e desenvolvimento intelectual é algo completamente utópico.
Os motivos dos empecilhos já são de nosso conhecimento, que vagueiam entre: baixa escolaridade, baixa autoestima intelectual e, o mais gritante de todos, as discrepâncias econômicas.

E é a partir deste ponto que estas três linhas, até então paralelas, se conectam e seguem numa única direção.

“As flores do campo e as paisagens, advertiu, têm um grave defeito: são gratuitas. O amor à natureza não estimula a atividade de nenhuma fábrica. (…) Era preciso aboli-lo nas classes baixas.”

– Admirável mundo novo.

O que busco aqui, é a reflexão de como, involuntariamente, repetimos discursos que reforçam a ideia de elitização de determinados hábitos.

Quando associamos o hábito de ler a uma atividade culta, ou quando estigmatizamos arte como algo imparcial e distante, quando em textos informativos encontramos linguagem de difícil compreensão, tudo isso contribui para o afastamento da grande massa à essas atividades.

É necessário entender o quão nocivo a persistência desse comportamento é não só aos que são “privados” a esses hábitos mas na sociedade em geral. Um exemplo prático é a popularização das fake news, ou a alienação midiática de algumas emissoras de televisão, tudo isso contribuindo para o reforçamento de uma sociedade manipulável.

Somos inseridos em determinadas condições sociais como em um sistema de castas e, através disso, em um universo exclusivo aquela realidade, e a partir de determinados discursos levados a nos conformar com o que somos submetidos.

Podemos encarar “admirável mundo novo” como uma alegoria a nossa própria realidade enquanto sociedade. Mesmo sendo vista, num primeiro momento, como uma narrativa distante e onírica, quando observada com mais calma, ela se mostra vivida, sagaz e um reflexo nítido dos nossos próprios comportamentos.