Desde criança, escuto o Caetano cantar. Suponho que foi uma tia (irmã da minha mãe), que, por ser fanática pelo Chico Buarque, escutava o álbum Caetano e Chico Juntos e Ao Vivo e, assim, colocou-me em contato com ele que, em breve, seria meu grande ídolo. Lembro-me de uma vizinha que adorava escutar Podres Poderes e eu, um tanto perplexa, silenciava em respeito ao seu transe num êxtase. Acontecia de ser tocada pela música sem entender o que ela representava. Sem saber o que era a imposição de voz, melodia e arranjos, por vezes fui tomada de uma emoção tão forte que eu sentia precisar daquilo para entrar em contato com a sensibilidade. Chorava, aflita, sobre os acontecimentos infantis embalada por canções imponentes e extremamente ricas artisticamente. Quando comecei a esfacelar as letras das composições, desmembrando trechos e refletindo sobre eles, muitas vezes me vi sem entender. Era como se, ao ler e ao entrar em contato naquele momento, não fosse proveitoso. Daí acontecia de, no próximo contato, a chave virar e a surpresa acontecer: – Mas, nossa, eu nunca pensara dessa forma, dizia. E, ali, sentia-me tocada novamente. Ainda acontece e, quando acontece, é sempre a mesma surpresa e a sensação de aprender algo novo.

Mas, antes que pense que esse texto é só mais um divagar em rodeios e experiências, digo-lhe que está equivocado, querido leitor.

Vim falar do Caetano e do seu documentário “Narciso em Férias”, que tive o prazer de assistir por duas vezes num deleite prazeroso e etéreo.

Assistir a um artista da sua magnitude falando do passado com tamanha riqueza de detalhes me faz pensar na possibilidade de se envelhecer bem em meio a tantas pessoas que envelhecem mal. O medo é sempre do pior cenário. Mas Caetano é diferente. Ele fala de si e, por falar de si, fala do mundo e das suas dificuldades em ultrapassar os ciclos de repetição. Seu tom afinado e seu olhar ameno se misturam em partes de riso e lágrimas, exalando arte e sensibilidade do começo ao fim. Dá para se manter sóbrio diante do encontro com o passado que dói e jamais se apaga.

Espero que ele saiba o que irradia e da sua importância para o Brasil que fica Odara toda vez que ele resolve cantar. Talvez, neste momento, eu esteja um tanto quanto piegas, mas você sabe, eu amo-o demais.

Dê-me alguns litros de arte, inteligência, infinitas doses de sensibilidade e livros revigorantes. Quero paçoca e kombucha também, pois socorro! Eu quero envelhecer sendo incrível assim.

Sabiá

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