A veloz lentidão de cada dia

Durante a quarentena, imagino que a maioria de nós esteja se sentindo estagnada. Os dias passam (vazios e monótonos, porém rápidos demais para acompanharmos) e parecem existir poucas oportunidades de progredir em nossas vidas enquanto estamos confinados em nós mesmos e, claro, em nossas casas. Foi nesse contexto pessoal que eu entrei em contato com BoJack Horseman, o que explica porque essa série me envolveu e comoveu tanto.

“Nos anos 90, eu fiz um programa de TV muito famoso / Eu sou BoJack, o cavalo / Não finja que não me conhece / E eu estou tentando me prender a meu passado / Faz tanto tempo / Não acho que vou durar”

Back in the 90s

A série fala sobre um cavalo humanoide (Will Arnett) que foi o astro de uma sitcom e, agora, nos seus 50 anos e dentre as estrelas apagadas de Hollywood, continua a prosperar nos vestígios de sua fama. Porém, afoga-se em melancolia por saber que é uma pessoa horrível e por não conseguir mudar. Bem, a música-tema dos créditos de encerramento é uma sinopse ainda melhor do que a que eu escrevi.

“Você acha que, no fundo, eu sou uma boa pessoa?”

“Aí é que está. Eu não acredito em ‘no fundo’. Acho que você é as coisas que você faz”

As seis temporadas desse desenho, a olho nu, podem parecer cair em um clichê repetitivo por possuírem estruturas semelhantes: nos últimos episódios de cada uma, BoJack conquista a proeza de cavar um novo fundo do poço enquanto abala sua própria vida e as das pessoas ao seu redor. No entanto, logo em seguida, volta a seguir, convencendo-se de que a pedra no caminho foi superada, e inicia mais uma onda de renovação que, em teoria, levará a seu avanço como pessoa. No final da primeira temporada, por exemplo, BJ embebeda-se, droga-se e cai em uma espiral de questionamentos profundos e pessoais, duvidando de suas escolhas e de seu cerne como pessoa. Esse episódio, enfim, acaba mostrando a nós o quão perdido o cavalo-homem se encontra, o que encerra a temporada em um tom extremamente pessimista.

“Eu sei que você quer ser feliz, mas não vai ser (…) Não é só você, sabia? Seu pai e eu, nós… Você herdou a feiura dentro de você. (…) E, agora, pode encher sua vida com projetos (…), mas, eles não vão te completar. Você é BoJack Horseman, não existe cura para isso

Logo no episódio seguinte, uma nova temporada parece subitamente enxaguar toda a negatividade da anterior, trazendo uma virada de página para o protagonista. BoJack assume uma atitude completamente otimista e sente-se tão bem que nem ao menos consegue realizar as cenas tristes do filme que está gravando. É aí que nós, telespectadores, pensamos “Pronto. Agora ele vai mudar, se transformar em uma pessoa melhor, e sua vida dará uma guinada”. Ledo engano. A maré de good vibes é interrompida com uma abrupta reconexão com sua mãe, que muito objetivamente diz tudo o que ele já pensava de si, mas tentava ignorar para seguir em frente, melhorar. Somente assim BJ consegue finalizar a gravação a cena.

“Sinto que nasci com um vazamento. Toda bondade que eu tinha escorreu lentamente para fora de mim e agora não há mais nada e ela nunca vai voltar para dentro. Tarde demais… A vida é uma série de portas se fechando, né?”

Mesmo traumatizando as pessoas ao seu redor, o que resta de sua fama como “O Cavalo de ‘Horsin’Around” permite que ele continue a viver não só imune às consequências de seus atos, mas em uma teórica prosperidade. Essa impunidade é, pois, o denominador comum que, ao longo da série, permite a BoJack passar por  ciclos intermináveis de destruição alheia e de si mesmo, seguidos por premonições feitas por si de que tudo está bem, porque julga que já juntou seus cacos – mesmo que as pessoas ao seu redor permaneçam despedaçadas.

“Você é uma pessoa horrível, e você não entender isso não te faz uma pessoa melhor”

{SPOILERS DA 6ª TEMPORADA NESTE PARÁGRAFO}

Somente após seis temporadas, o passado volta atormentá-lo quando uma entrevistadora aponta o dedo para BJ e expõe algumas de suas culpas – mas nós sabemos que ele causou muito mais males, que provavelmente nunca serão mencionados em público. A partir dali, não havia mais volta. O único caminho era assumir seus erros e arcar com as consequências, mesmo que isso significasse o fim da bonança material e um mergulho na tormenta interna constituída por sua identidade como “pessoa ruim”. Nós somos aquilo que fazemos no final das contas e, até que compreendamos e reconheçamos o que há de mau em nós mesmos, nada mudará.

“A vida é uma $#@%, e a gente morre, né?

“Ás vezes… Às vezes, a vida é uma $#@%, e a gente continua vivendo”

As fases em que nos sentimos bem, puramente bem, vêm e vão; nós vivemos em um eterno devir, afinal de contas. Contudo, isso não significa apenas que tudo que há de ruim voltará; as coisas boas retornam e se renovam. Nós nos renovamos. A cada fim de dia, porém, temos o compromisso de estar pelo menos um pouquinho diferente de como começamos, o que não significa estar, especificamente, melhor ou pior. Se existe algo a aprender com “BoJack Horseman” e com a forma como essa série foi escrita é: às vezes faremos progresso, logo depois haverá um grande regresso, mas a frequência com que entramos em fase de retrocesso não pode significar resignação a permanecer como quem somos hoje. A beleza desse desenho, enfim, está em como ele é um reflexo de nossas ponderações, inseguranças, pesadelos. Nada melhor para ver em um sábado à tarde que um programa que cutuca todas as partes de nossas mentes que preferimos deixar dormentes.



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