Há dias e dias.

Num dia desses, eu quase fui feliz. Acordei aceitando a realidade imposta pela vida na certeza de que nós não controlamos nada.
Divaguei pelo dia como quem apenas existe e nada vive. Pensei sobre a necessidade de ter a alma impregnada nas coisas, em tudo. Não consegui.
Acreditei na importância da ignorância para a humanidade, pois pensar demais nos leva a lugares nem sempre confortáveis. E, mesmo assim, nada fiz além. Segui como quem acredita no destino. Falei da energia que existe, de atrair, de emanar e de sonhar. Não falei de amar. Sei que falar de amor requer sensibilidade, e eu estava oca. Precisava estar oca para conservar uma certa felicidade apática.

Sentir demais sempre fora meu contraponto e, por muito tempo, acreditei que isso fosse uma certa fragilidade. Ninguém é frágil por acaso, pensava. Sabia que, para ser feliz, eu não podia sentir muito. Eu tinha nascido com aquilo, de sensações afloradas, sentimentos profundos e uma enorme necessidade de acreditar que o amor era mesmo tudo o que eu imaginava. Depois de muito tempo, descobri que essas coisas que eu pensava do amor pouco existiam; e falava a mim mesma que era “pouco existiam” porque eu não sei lidar com o “nunca existiram”. Vivo me enganando entre palavras e sentimentos porque seguir de forma tão visceral me custa muito caro. Às vezes falo, com uma certa melancolia, sobre o não saber. Hipóteses fantasiosas me atordoam há muito tempo. Não saber era trágico e extremamente dolorido. Gosto de pontos que afirmam e tenho dificuldade com vírgulas. Deus que me livre de interrogações intermináveis se tenho tantas exclamações para expressar o que sinto.

Percebi que o dia estava sendo feliz porque eu estava me apoiando em alguma coisa e, logo em seguida, comecei a pensar que isso só existia por causa dessa “coisa” que, se não existisse, me deixaria como? Sentindo o que?
Eu precisava ser e não estar. Para ser, o caminho era muito mais longo e eu não estava assim, digamos, tão disposta. Num dia sim, no outro não, talvez. Procrastinar a própria evolução deve ser a maior autossabotagem que existe. E olha eu aqui, novamente, definindo o tamanho das coisas.

A felicidade sorriu-me nesse dia e não me exigiu muito; eu quase soube lidar com ela. Em seguida, ocorreu de chover forte e precisei caminhar na rua nesse mesmo momento. Chuva sempre me remete a tristeza, mas, naquele dia, eu estava feliz. Continuei caminhando, percebi que a rua estava vazia e um cachorro quase tão molhado quanto eu começou a me acompanhar até a chegada a minha casa. A partir desse momento, já não consegui continuar sendo feliz. Fui tomada por uma gratidão absurda que, em poucos minutos, me deixou em lágrimas. Comecei a pensar que, no fundo, eu não estava tão feliz assim e este cachorro de rua era meu alento. Tudo aquilo era para me mostrar que eu não estava sozinha e que ele precisava de mim como eu também precisava dele? Então, a tristeza trivial me ocorreu. Aquele cachorro, a chuva, aquela cena, tudo dizendo a mim que não havia felicidade ali. E eu, que estava me mantendo vazia, vi-me novamente inundada de sentimentos.



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