Sinfonia do Sofrer


A arte não é sólida, fixa ou pré-determinada: uma mesma obra pode ter significados diferentes para pessoas diferentes. Então, para que serve brigar sobre o que está por trás de um poema, uma música, uma tela? Na prática, admirar arte não é como responder a uma questão de literatura que exige a análise exata que […]


A arte não é sólida, fixa ou pré-determinada: uma mesma obra pode ter significados diferentes para pessoas diferentes. Então, para que serve brigar sobre o que está por trás de um poema, uma música, uma tela? Na prática, admirar arte não é como responder a uma questão de literatura que exige a análise exata que o professor tem em mente. Nós temos a arte para nos expressarmos, seja no momento da criação, no caso dos artistas, ou para admirar e transpor a ela o significado que nós enxergamos por causa de nossas conjunturas de pessoais. “Bohemian Rhapsody”, a grandiosa e tão famosa música de Queen, é, creio eu, o maior exemplo disso.

“Todos querem saber se significa isso ou aquilo. Eles que se danem, querida. Não direi nada além do que qualquer poeta decente contaria a você caso ousasse pedir a ele que analisasse a própria obra: se você enxerga, é porque existe.”

Freddie Mercury

Muitas pessoas já perguntaram a Freddie Mercury o significado de sua composição, mas a resposta exata não era dada – ou, pelo menos, nunca chegou aos olhos e ouvidos da mídia. Eu acho, porém, que a cortina de mistério envolvendo essa música é algo admirável, já que, caso o cantor houvesse abertamente explicado o que escreveu, a canção estaria, de certa forma, limitada. A cada vez que a ouvíssemos, estaríamos pensando na explicação que nos foi dada de bandeja, mas a riqueza da arte está em como nós – leitores, admiradores, espectadores, ouvintes – damos nossas significações particulares às obras com que entramos em contato. O meu significado de “Bohemian Rhapsody” – o que compreendo e sinto quando a escuto –, então, é relativamente simples: trata-se de uma música sobre o as várias faces do sofrimento.

“Is this just fantasy?”

A canção nos é apresentada de maneira simples: algumas camadas de vozes e instrumentos suaves… Durante essa introdução, tudo o que eu sinto é uma atmosfera de negação misturada com desorientação. O eu lírico [vou ter que usar esse termo das aulas de literatura afinal de contas!] está perdido, mas não o suficiente para ser incapaz de reconhecer seus arredores. É como se todas as coisas ruins de sua vida estivessem diante de si, mas são tantas que é difícil acreditar que a presença delas não é uma simples miragem. Para mim, esses segundos iniciais representam os momentos em que, com lágrimas nas bochechas e encolhidos em um canto, nós desacreditamos daquilo que estamos vivendo; torcemos que apenas um beliscão seja capaz de nos fazer acordar de um sonho obscuro. Mas, quando as luzes são finalmente ligadas, tudo o que vemos são as sombras em nossas faces, o contraste entre aquilo que vivemos e a crença que cultivamos de que nunca teríamos de passar por algo semelhante. Não digo isso especificamente para o contexto atual da pandemia, mas todos bem sabemos quantas vezes essa sensação esteve presente em nossas vidas.

“And now I’ve gone and thrown it all away”

Falar da balada é fácil, já que suas palavras são bem objetivas. A parte mais famosa de “Bohemian Rhapsody” – quando os instrumentos e as vozes começam a adquirir mais paixão, desespero e força – é uma incorporação do arrependimento, transcrito como música por meio do apelo à representação materna. Quando éramos crianças, parecia que, sempre que fizéssemos algo de errado, se falássemos com nossas mães, elas nos dariam um abraço [ou uma chinelada] e ajudariam a resolver a situação que criamos em um piscar de olhos. À medida que crescemos, porém, nossos delitos apenas se afastam do simples “Mãe, eu comecei uma briga na escola”. Claro, não são todos dentre nós que matarão um homem, mas esse crime parece estar na letra para representar todas as tantas coisas ruins que cometemos ao longo de nossa vida e que, impunes ou não, nos assombram até nossos últimos suspiros. Ainda assim, gostaríamos que elas pudessem ser resolvidas de maneira fácil, que um simples abraço ou olhar acalentador significasse que fomos perdoados e aceitos de volta.

“I’m just a poor boy nobody loves me”

Eu sempre ouvi psicólogos dizerem que, quando reclamamos de alguém estar “Só querendo chamar atenção”, estamos certos, afinal conseguir chamar a atenção das pessoas ao nosso redor significa ter sucesso em buscar ajuda. Quantas vezes nós não tivemos coragem suficiente para olhar nos olhos de quem está do nosso lado e dizer “Eu não consigo mais. Ajude-me”? Por mais que eu já tenha ouvido várias vezes expressões como “fetichizar” ou “cultuar” a tristeza, elas não poderiam ser mais imprecisas para gritos por ajuda como esse. Sofrer não me traz prazer. Se eu pudesse afastar as nuvens cinza que parecem estacionar em cima de mim sem permissão, eu o faria. Mas não consigo. E também não consigo pedir apoio. Então eu grito por socorro – – – ou canto uma ópera, esperando que alguém a ouça e cante o coro em resposta.

 “Just gotta get right outta here”

Todos nós já devemos ter passado por momentos de pura fúria em que tudo o que precisávamos era questionar um certo alguém com “Quem te deu o direito de fazer isso comigo?”. Às vezes, direcionamos essa pergunta – mental ou verbalmente – às pessoas que nos fizeram mal; porém imagino que, na maioria das vezes, a dirijamos à vida, ao acaso, aos deuses, à ciência… Quero dizer, seja lá o que acreditarmos que seja responsável por controlar nossa existência. De certa forma, sermos jogados para baixo pode ser uma grande motivação para nos levantarmos e provarmos nosso valor, mas – bem sabemos – nem sempre é fácil assim ultrapassar as pedras e cuspes que são atirados em nós ao longo de nossas jornadas. Se a vida real fosse um musical, eu já teria cantado esse trecho de BoRhap várias vezes (para uma boa lista de pessoas), torcendo que ele me motivasse a me erguer!

“Anyway the wind blows”

Finalmente, o que resta? Continuar. Continuar a viver. A tentar. E a resignar-se à não resignação. Tudo o que temos é aquilo por que passamos e por que passaremos, logo a única coisa que resta a fazer é prosseguir e ver até onde seremos levados ou nos levaremos. Enquanto o vento sopra para leste, podemos segui-lo ou criar nosso próprio impulso para sair do buraco em que caímos. No entanto, o que existe quando olhamos para cima é sempre o mesmo: uma saída. E o que resta é passar por ela, sofrer as consequências de nossos atos – sejam eles bons ou maus – e lutar para que sejamos capazes de trazer um amanhã melhor.

Durante as quase duas décadas em que conheci “Bohemian Rhapsody”, eu a ouvi enquanto passava por cada um desses moldes de sofrimento, por isso essa é a minha análise. Isto é, ao longo do tempo, esse significado pessoal foi sendo construído pelas minhas experiências de vida aliadas aos momentos e períodos em que escutei a canção. Mas, ao conversar com outras pessoas, posso ouvir infinitas e variadas análises. Algumas são mais convergentes ou divergentes que as outras, claro, mas o que há em comum em todas é o fato de que BoRhap, uma obra de arte escrita há mais de quatro décadas, continua se enriquecendo porque transforma-se e renova-se a cada vez em que é ouvida.



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