De perto são chatos. A distância maximiza a fantasia de ideal.

Fernanda tinha vinte e quatro anos quando ouviu da sua mãe, Andréia, pela primeira vez, que era chorona e demandava atenção dos outros por causa de “coisas da vida”. Fernanda gostava de Almodóvar, de Édith Piaf; mas amava mesmo Shakespeare, Winnicott e falava com uma certa propriedade de Melanie Klein. Pensamentos, sentimentos e análise da vida, fundamentos básicos da sua construção como indivíduo. Tudo isso a fazia ter uma certa sensibilidade e chorar com facilidade. Eram apenas formas de ser. Nas conversas entre amigos, ria de si em uma tentativa de afugentar o olhar alheio, que parecia ter bastante interesse na vulnerabilidade dos outros. Se ficasse exposta a ponto de perceberem suas fragilidades, poderia tornar-se evidência; e ela tinha pavor de o ser. Da mesma forma como algumas crianças que, ao descobrirem o defeito do amiguinho, usam-no de martírio na tentativa infame de deprecia-lo e minimizar sua potência de atuação no mundo.

Se não fosse costureira, seria atriz; não era necessária alguma sagacidade para perceber que ela costumava atuar no dia a dia. E quem não o faz? Dizia. Duas de suas amigas que só conviviam com ela em sala de aula chamavam-na de “a mais inteligente entre nós” e falavam baixinho, entre si, o quanto gostariam de ser como ela. Não sabiam das críticas de sua mãe, do ex-namorado que preferiu romper a ter que lidar com a sua grosseria tão impregnada na sua forma de existir, nem do dia em que empurrou uma senhora de uns sessenta anos na fila do supermercado durante uma discussão. Tudo por ser impulsiva e por não controlar sua agressividade quando se sentia ameaçada.

Andréia, sua mãe, por sua vez, era chamada de megalomaníaca por suas irmãs mais novas. “Se a mamãe estivesse viva, teria vergonha de você”, diziam, bêbadas, nas festas da família Correa & Silva. Paula, a irmã mais nova, não percebia que seu repertório de conversação estava gasto e que ninguém tinha sequer a paciência para ouvi-la. Era chamada de “faladeira” por falar compulsivamente mesmo quando as pessoas demonstravam impaciência e sequer entendiam todas aquelas palavras que ela repetia sem parar. Mas, dentre todos os membros da família, ela era a única que parecia saber lidar com a construção de ideal e do imaginário coletivo. Nos passeios noturnos com o seu cão, pensava que, de perto, não havia perfeição e que sua vida dependia da sua capacidade de escolher qual defeito alheio iria suportar em prol dos benefícios daquele vínculo afetivo. Para ela, era realmente uma questão de suportar. Como uma probabilidade estatística, tentava desvendar os mistérios de seu próprio eu ousando se conhecer tão bem que certamente poderia realizar encaixes externos cada vez mais satisfatórios; a isso, chamaria de felicidade.

Sua filha mais velha, Beatriz, tímida, de poucos amigos e com personalidade egocêntrica, reclamava da vida na ânsia de que suas lamúrias fossem ouvidas por alguém. Quem? Nem ela sabia. Adorava postar fotos nas suas redes sociais em uma busca incessante por ser vista e admirada; tudo para ver se acontecia de calar sua falta de tudo, tão estrutural. Eles, seus admiradores, de longe, diziam que era linda, tão linda e cheia de qualidades que tinha quase um milhão de seguidores no Instagram. De longe, falavam sobre como a vida dela parecia fantástica pela movimentação das fotos que pareciam, sem esforço, estar dentro de uma rotina entupida de consumismo. Seu hobby predileto era fazer stories falando da importância de se atrever no mundo para conquistar os objetivos. Com dezenove anos, tinha dois imóveis quitados, três idiomas fluentes, um carro importado e quatro sociedades em empresas de publicidade; tudo herdado de seu avô milionário. Pelas fotos, via-se uma pele que fazia muitas pessoas desejarem nascer de novo assim, tão perfeita, tão imune à feiura, tão atleta, jovem, rica e feliz. Ela parecia cumprir todos os requisitos de sucesso tão condicionado ao ter. Tudo, tudo por não a conhecerem pessoalmente.