Durante mais de uma década, eu me recusei a assistir a animes [OK, exceto quando faltava à escola porque estava doente e “Pokémon” era a única coisa passando na TV]. Eu acho que sempre tive algum preconceito enraizado no fundo da minha cabeça, mas nunca cheguei a entender direito a origem disso. Porém, para as pessoas que também têm uma espécie de aversão a desenhos japoneses, eu afirmo: veja “Fullmetal Alchemist: Brotherhood(ou seja, o de 2009-2010/2009-2012) e é garantido que você não vai mais conseguir reclamar, debochar ou evitar esse tipo de séries.

“A alquimia é a ciência da compreensão, decomposição e reconstrução de matéria. Apesar disso, possui limitações: é impossível criar algo a partir do nada. Para se obter uma coisa, deve-se  retornar algo de igual valor. Essa troca equivalente é a base da alquimia”

A história se passa em um país chamado Amestris, onde a política é dominada pelos militares e comandada pelo Führer Bradley (Hidekatsu Shibata) – imparcialidades à parte, um dos meus personagens favoritos. Nesse lugar, existe uma “ciência puxada para magia” chamada de alquimia, que permite a transmutação da matéria – isto é, mudar seu formato, composição, etc –, sendo que aqueles que a estudarem podem se juntar ao Exército Amestrino como alquimistas federais e, assim, servirem como armas humanas em casos de conflitos armados. Em meio a essa conjuntura, estão Edward (Romi Park) e Alphonse Elric (Rie Kugimiya), irmãos que, após perderem sua mãe, tentam trazê-la de volta à vida com alquimia. No entanto, o processo não dá certo e seus corpos, segundo a troca equivalente, acabam sendo o preço que pagam – Ed perde um braço, e Al, seu corpo inteiro. Anos após o ocorrido, Edward se torna o Alquimista de Aço, o alquimista federal mais novo da história, e, junto com o irmão caçula, vai em busca da pedra filosofal, que é a chance de eles, enfim, recuperarem seus corpos.

A série transita por diversos campos, temas e debates desde a ciência até a filosofia, mas o que mais chamou a minha atenção foi a esfera política – afinal, toda a história acontece em um país em estado militarista. Contudo, no início, não é dada muita atenção a esse fato, já que a busca dos protagonistas não é por democracia ou reforma. Mas a discussão inevitavelmente torna-se cada vez mais presente e central à medida que os episódios vão passando.

“Sou um seixo lançado no Exército Amestrino. Com o tempo, talvez minhas ondulações se tornem grandes”

Mesmo que os personagens jovens comecem a série tentando vencer em suas jornadas pessoais, todos acabam se envolvendo intrinsecamente na complexa teia política de Amestris. Os forasteiros de Xing, Ling Yao (Mamoru Miyano) e Mei Chang (Mai Goto), por exemplo, estão buscando a imortalidade em uma corrida entre seus respectivos clãs na qual a sobrevivência de suas famílias está em jogo. Ainda assim, esses estrangeiros embaraçam-se cada vez mais na política amestrina devido a um senso de responsabilidade cívica humana dentro do conflito que está escalando lá. Eles podem até não ser amestrinos na lei ou de nascença, mas terão fortes impactos no destino desse país e de toda uma população. Bom, pensar no envolvimento (intencional ou não) desses adolescentes na política da fictícia nação de Amestris me fez refletir muito sobre minha própria participação no Brasil [Eu sei, eu viajo muito quando vejo televisão. Mas uma das belezas dessa série é justamente o seu potencial de provocar reflexões em nós, que a assistimos].

“O poder de uma pessoa não é suficiente. Assim, farei o que eu puder, mesmo que seja pouco, para proteger os que amo. Aqueles abaixo de mim protegerão aqueles abaixo deles. Nós, míseros humanos, deveríamos ao menos fazer isso”

Assim como muitos outros, não tirei meu título de eleitor aos 16 anos; acreditava que ainda era alienada demais para votar com consciência – e, de fato, eu era. Continuo a ser relativamente ignorante e não tenho opiniões formadas sobre “direita” ou “esquerda”, mas, sinceramente, de que importa? Essa divisão entre lados separa tanto a população entre polos de ódio recíproco, então por que abraça-la se ser de direita é taxado como “conservadorismo”, e ser de esquerda, como “comunismo”? Hoje, eu vejo que o fator mais importante que está em jogo é a luta por uma verdadeira democracia, logo não posso colocar minha indecisão como desculpa para não usar o poder de voto que me foi garantido pelo nosso (ainda muito falho) sistema democrático. Quanto à minha alienação, o que aconteceu é o passado: se meu tempo foi totalmente consumido pelos estudos do ensino médio, já passou da hora de eu me esforçar para me manter informada sobre o que acontece ao meu redor e abrir a mente para o espectro político que existe. Caso queiramos ver nosso país mudar, nós, míseros cidadãos, deveríamos, ao menos, fazer nossa parte. Minha idade e minha cabeça não podem ser uma desculpa para me manter separada do futuro deste país.

“Nós, adultos, não podemos descansar enquanto os jovens estão lutando”

“Como será se nós, adultos, que carregamos o mundo, não conseguirmos mostrar como se vive aos jovens, que carregarão o mundo depois de nós?”

O segundo aspecto-chave para o diálogo político presente em FMAB é a transição de poder entre gerações, já que, dentre os personagens mais importantes para a história de Amestris, existem grandes diferenças de idade – os mais novos são meros pré-adolescentes, e os mais velhos, os que dominam a política há anos. Nas eleições de 2018, por exemplo, vi opiniões divididas quanto ao fato de vários dos eleitos serem jovens: de um lado, uns chamavam os novos políticos de “inexperientes” e variações; mas, do outro, muitos defendiam e aplaudiam a passagem da política para os mais novos, pois eles trariam novos ares, pontos de vista e estratégias para o cenário, além de estarem mais conectados aos jovens – afinal, já faz muito tempo que não confiamos naqueles que insistem em manter suas mãos no poder ao custo do bem-estar nacional. Muitos de nós desacreditam dos políticos que dominam o cenário brasileiro porque eles falharam conosco não uma, mas várias vezes, e durante anos. Tudo parece ser apenas mais um jogo de poder e luta por interesses; a pergunta que domina é “Como ganhar a (re)eleição?”, e não “Como servir às necessidades da população?”. A democracia deveria ser uma questão de poder ao povo, mas, mesmo que escrito à tinta no papel, essa expressão nunca pareceu ter expectativa de se tornar mais do que rabiscos de caneta. Se os mais velhos não nos dão o exemplo de como carregar o mundo que está gradativamente sendo colocado em nossas mãosnos deixam à mercê do autodidatismo, digamos – como conseguir acreditar que alguém, dentre eles, sabe carregar esse peso?

No que se refere ao aspecto político de FMAB, esses não são os únicos tópicos trazidos à tona, e sim os que mais chamaram minha atenção; mas é muito curioso pensar que um desenho sobre alquimia é capaz de trazer tantas reflexões não só políticas, como também sociológicas, éticas, existenciais… Tudo bem que eu, de fato, divago muito quando vejo TV; mas afirmo e reafirmo, aqui, como “Fullmetal Alchemist:Brotherhood” não se mantém na superficialidade comum a séries/filmes de ação e fantasia. Há muito mais nesse anime além dos intrincados detalhes da alquimia, a começar pela complexidade da teia tecida sob Amestris, que sustenta toda a sua política. Quanto a esses assuntos, no entanto, deixo em suas mãos a oportunidade de elaborar reflexões e realizar suas próprias viagens mentais. Seja você um fã consagrado de animes ou caso esteja ainda preso ao preconceito contra esse tipo de desenho, não vai se arrepender de ver esses 64 episódios; estou certa.