Indecifráveis papéis


“Nasci no interior, cidade pequena, daquelas que quase ninguém sabe que existe. Meu pai era pescador, “cabra macho” daqueles bem tradicionais, e minha mãe era costureira de mão cheia. Morávamos nós três e meus quatro irmãos naquela casinha que meu avô havia construído quando ainda era vivo; nenhum espaço, mas fazíamos ser o necessário”. “Como […]


“Nasci no interior, cidade pequena, daquelas que quase ninguém sabe que existe. Meu pai era pescador, “cabra macho” daqueles bem tradicionais, e minha mãe era costureira de mão cheia. Morávamos nós três e meus quatro irmãos naquela casinha que meu avô havia construído quando ainda era vivo; nenhum espaço, mas fazíamos ser o necessário”.

“Como disse, éramos cinco filhos: Doralice, Luiz, Paulo, Francisco e eu. Todos nós, desde muito novos, já tínhamos funções dentro da família, já que precisávamos ajudar com o dinheiro do sustento da casa. Os meninos costumavam subir o rio com meu pai; ele pescava, meus irmãos aprendiam e tentavam vender os peixes pelas casas ribeirinhas enquanto desciam o rio de volta. Era tudo muito incerto, a pesca é uma arte imprevisível (Na verdade, para nós, naquela época, era só imprevisível); dependíamos da lua, do rio, se tínhamos isca, sem falar que nem sempre meus irmãos conseguiam vender muito daquilo que pescavam. Mas, vendo pelo lado bom, ao menos assim conseguíamos ter o que comer à noite”.

“Quanto a Doralice e eu, costurávamos, assim como minha mãe. Mas não havia tanto trabalho, até porque não havia tanta gente. Então, sempre que possível, eu e minha irmã saíamos andando e batendo de porta em porta para fazer as entregas e buscar mais trabalhos. Fora isso, minha mãe tinha uma amiga, Ana Paula; ela havia nascido no interior e mudara-se para capital depois de se casar com um homem de lá e resolver que queria fazer faculdade. Ana trazia os tecidos para minha mãe junto com papéis cheios de números que até hoje não sei o que diziam”.

“Certo dia, Ana Paula trouxe mais que tecidos e papéis indecifráveis, trouxe uma proposta. Soube de uma senhora que buscava alguém que cozinhasse e fizesse trabalhos domésticos para ela. Minha mãe, relutante, disse que eu fosse (Eu não costurava tão bem e Doralice não era um ás da cozinha), assim, poderia mandar dinheiro para a família e, quem sabe, ter alguma oportunidade na capital”.

“Fui-me para capital com Ana. Chegando lá, deixou-me em um ponto de ônibus, disse que eu deveria pegar o ônibus de número 2474 e descer depois de oito paradas. Lá haveria um prédio e eu devia entregar o papel que me deu para o homem da porta. Ele explicaria como chegar à casa da senhora”.

Essa é a história de Dona Márcia, mãe do Pedro, que estuda aqui no projeto de alfabetização infantil em que trabalho. Márcia morou no trabalho, durante anos, com a patroa e o patrão. Um dia, apareceu “misteriosamente” grávida e mudou-se para um barraco qualquer, pelo menos não perdeu o emprego. Nunca mais soube de Ana Paula e muito menos sabe se aqueles 60% do seu salário de fato vão para sua família, mas ela é otimista. Pedro é um menino sonhador, diz que, assim que aprender a ler, vai tentar ensinar a mãe. Um dia, vai leva-la de volta ao interior e conhecerá seu avô pescador, cujo nome carrega hoje em dia. Eu acredito em Pedro, mas sou tão otimista quanto Dona Márcia.


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