Às segundas se iniciam com uma enxurrada de argumentações de pôr que eu deveria modificar alguns dos meus comportamentos e não realizar algumas atividades que chamo de “perda de vitalidade”. Enfática, começo: não consumir muito álcool e cigarros, não passar tanto tempo no celular enviando memes e sendo fofa e meio psicanalítica com gente escrota que só sabe ferrar a própria vida como tentativa de alívio. Além de me irritar, eles drenam o meu humor. 

Sigo, tentar responder mais entusiasmada as mensagens da minha tia que, não tem foto no WhatsApp, e só me envia vídeos do YouTube em sua maioria da Elis Regina e algumas correntes que dizem que algo vai me acontecer se eu não compartilhar com um milhão de pessoas. Ela sabe que eu sou alucinada com a Elis Regina, mas enviar correntes no zap? Não exagera, tia!

As mais variadas fotinhos de bom dia e boa noite que são disparadas em avalanches no grupo do condomínio merecem, pelo menos algumas vezes, uma risada de quem precisa se enturmar. É, às vezes é o meu caso. Vivo precisando de algum favor dos meus vizinhos amorosos e tão dispostos a contribuir com essa adulta que se sente com vinte e três anos aos finais de semana. Enviar uma ou outra figurinha no grupo do trabalho é cool e tira um pouco do ar tão antissocial que às vezes parece piscar em LED no meu rosto. Sim, eu sou capaz de realizar questionamentos muito mais profundos do que tudo que eu disse até agora, mas hoje é sexta-feira.

Entre tantos nãos e argumentações do porquê de cada negativa ou afirmação, eu existo.

Um tanto cansada do meu próprio repertório, sigo sem concluir a imensa listinha de planejamentos, e repito ilogicamente alguns desses tópicos que mais parecem confusão mental ou ambivalência crônica. Será que existe?

Parece recalcitrante, mas eu chamo de tortura. Tudo bem que há um distanciamento entre o que se é e o que se gostaria de ser. O ritual semanal é o mesmo ritual que antecede o ano novo. Interessantíssimo esfregar na nossa cara uma inadequação estruturada em uma pseudo adequação cheia de métricas, rimas e muita dor. (Desculpe, Caetano, eu não resisti).

É sempre deficit por nós mesmos, pelos outros, pela cultura, pela massificação.

Existe a ampulheta que materializa o escoar do tempo que não para de passar. Desde que comecei a análise, tenho questionado essa posição de exclusão que gera um sentimento de falta. Sempre algo não está bom como poderia estar. Há sempre muito a ser feito, conquistado, ultrapassado e até melhorado. Não importa em qual posição estejamos, parece não ter escapatória entre o ideal e a realidade. Se houver saída, que seja o caminho de se aproximar cada vez mais do desejo que nos move e do que realmente gostaríamos.

Talvez em 2021 mude alguns desses parâmetros.

Agora não, pois tá muito em cima.