Identidade em lugares inusitados

Todas as artes usadas neste texto são de autoria de Eric Baket

A cena que inicia “O Poderoso Chefão” – toda a família e amigos reunidos para o casamento da Connie – fez-me lembrar de uma (talvez a única) festança de família a que fui quando era ainda muito pequena. Mas, tudo bem, há duas enormes diferenças entre a festa de Natal da minha família e o casamento da filha do Don Corleone: minha família é composta de descendentes de portugueses que têm pouquíssimos laços com suas origens culturais e – –  ah sim – – eu não faço parte de uma dinastia do crime organizado.

Brincadeiras à parte e indo direto ao assunto: eu acho incrível quando vejo – seja na vida real, seja nas telas – histórias de famílias que se mantêm ligadas às suas heranças culturais. Eu gostaria muito de ter essa conexão com as minhas origens, mas, sempre que perguntava a um familiar “De onde nós viemos?” ou “Quem foi meu bisavô?”, as respostas eram do tipo “Para que olhar para trás?”, um simples “Não tenho ideia” ou “Como saber mais sobre um antepassado que viveu anos atrás vai ser útil à sua vida hoje?”. Bem, talvez não seja muito, mas seria maravilhoso ter algo, uma identidade, a que me prender. O fato é que não há grandes esperanças de eu conseguir me conectar ao meu passado familiar, então, se não tenho cão, que eu cace com gato.

[Já vou avisando: esse texto vai acabar sendo uma grande mistureba de pensamentos que se interligam na minha cabeça durante as horas vagas – e, ultimamente, elas têm sido longas –, não uma leitura especificamente sobre a trilogia da família Corleone. Enfim, sigamos.]

É engraçado, depois de quase duas décadas, finalmente assistir a um dos filmes mais clássicos do mundo (isto é, “O Poderoso Chefão”), já que eu passei minha vida inteira vendo a televisão e meu pai contando piadas e fazendo referências sobre esse longa. Agora, depois de assistir a ele, eu posso deixar de rir por pura osmose e finalmente entender de que as pessoas estão falando…!

Isso é uma das coisas que eu mais admiro na cultura pop. Deixando de lado o fator lucro por um instante, pensar em como amizades podem ser iniciadas e reforçadas por interesses em comum parece-me incrível, afinal, as coisas de que gosto – filmes, séries, livros, até memes – são basicamente a única identidade que eu tenho. [Preciso admitir, também, que nunca nem me conectei muito ao meu país ao ponto de bater no peito e dizer “Sou brasileira”] É incrível lembrar que aqueles compilados de Vines que eu via quando começava a surtar durante o ensino médio literalmente renderam-me amizades. Pense só: o fato de eu ter assistido a um bando de vídeos bobos na internet e, alguns anos depois, ter feito uma referência a um deles em voz alta fez com que alguém virasse o rosto para mim e perguntasse “Isso é do Vine???”; eu conheci gente nova e, eventualmente, essas pessoas tornaram-se partes intrínsecas da minha vida. Isso somente porque eu cliquei em um vídeo com um título bobo. Posso, também, lembrar como eu reconectei-me com uma amiga distante quando ela recomendou que eu visse “BoJack Horseman” e, assim, nós passamos a gastar horas conversando sobre cada episódio que eu terminava. Ou, voltando ainda mais atrás, as amizades que eu fiz, no 6º ano, com os pirralhos que também jogavam Minecraft. Tudo isso começou porque eu interessei-me por alguma coisa banal – uma forma de entretenimento que rende uma boa dinheirada para seus desenvolvedores – e terminou comigo sentindo-me um pouco menos sozinha e um pouco mais ouvida.

Eu posso não falar uma segunda língua quando estou sozinha com minha família, posso não fazer parte de uma comunidade ramificada e tecida a partir de heranças genéticas em comum, posso não ser capaz de ter o sonho de viajar para um país específico e conectar-me ao lugar onde meus ascendentes viveram…  Mas, pelo menos, eu posso rir, junto às pessoas que me são importantes, quando o Sr. Big aparece em Zootopia ou quando Phil Dunphy manda seu filho colocar a cabeça decepada de uma zebra de pelúcia na cama do Reuben. A mídia é feita para que aqueles que a controlam ganhem dinheiro, mas ainda bem que nós podemos tirar algumas boas coisas dela.



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