25 dias para o maior julgamento do século – o que fazer e como ajudar?

Faltam 25 dias para o julgamento mais importante deste século: o do ativista Julian Assange . Há alguns meses tento trazer atenção para o tópico, assim como atenção para a importância e o legado do WikiLeaks e seu co-fundador.

Quando sou questionada sobre o caráter de Julian Assange, sempre respondo que isto não importa. Se para mim, ele é um ser humano que apresenta moralidade ou ética, isto não importa, ao menos neste caso específico de seu julgamento. Porquê? Porque falta de caráter não é justificativa para se passar o resto de sua vida na prisão. Falta de caráter não justifica ter sua privacidade [e a de sua família, amigos e parceira(s)] violada. Assim como a falta de caráter não justifica ter seus direitos humanos violados.

Neste caso, o que acho sobre Assange não importa.

Para recapitular a história – Julian Assange é o co-fundador do WikiLeaks, [Para saber mais sobre feitos do WikiLeaks, clique aqui e aqui] uma organização que disponibiliza uma plataforma gratuita para vazamentos de documentos internacionais. Devido a uma série de perseguições ao longo dos anos, ele passou sete anos como refugiado na Embaixada do Equador, em Londres.

Ano passado houve uma mudança de governo no Equador e pela proximidade [ou tentativa de] da atual gestão com os Estados Unidos, seu asilo foi encerrado. Com este acontecimento, a Polícia Metropolitana invadiu a Embaixada Equatoriana e prendeu Julian Assange, afirmando que ele havia desobedecido certas normas durante uma audiência, em 2012.

Desde então, ele se encontra em uma prisão de segurança máxima no Reino Unido. Coincidentemente, a Suécia reabriu uma investigação [que foi aberta e encerrada mais de duas vezes, anteriormente] envolvendo uma acusação de estupro contra Assange pouco tempo depois e, junto a isso, os Estados Unidos adicionaram mais 17 acusações contra o ativista. Para entender de maneira mais completa sobre o julgamento e as acusações que lhe foram impostas, clique aqui

Retornando ao presente Sempre que falo sobre o julgamento de Assange, muitos não entendem a importância deste caso. Claro, dezenas, talvez centenas de ativistas, jornalistas e militantes são presos, julgados e condenados todos os anos ao redor do mundo. O que faz Julian Assange especial? Porque você deveria dedicar seu tempo lendo esta matéria, ou se importando com o caso?

Ao falarmos da importância do caso, precisamos falar sobre geopolítica. Os Estados Unidos possuem uma grande culpa, se não toda, na perseguição de Assange e toda a equipe do WikiLeaks. Afirmar isto não é uma teoria conspiratória. Desde 2010, ano do primeiro vazamento reconhecido do WikiLeaks, os Estados Unidos possuem uma campanha ilegal, mesquinha e antiética para apagar Julian Assange do cenário público.

Posso citar aqui uma famosa fala de Hillary Clinton que, em minha opinião, resume perfeitamente o posicionamento dos Estados Unidos diante seus críticos. Após um dos vazamentos do WikiLeaks, a então Secretária de Estado, Hillary Clinton, falou a seguinte frase em uma reunião de gabinete em que estavam discutindo sobre o WikiLeaks: “Can’t we just drone this guy already? – Nós não podemos bombardear este cara logo?”.

Esta informação só foi descoberta em 2016, seis anos após a reunião, e foi publicada no site True Pundit, com auxílio da própria equipe do WikiLeaks. De acordo com o site e a organização, todas as informações, datas e horários exatos foram confirmadas por testemunhas.

A frase de Clinton resume, para mim, a posição dos Estados Unidos por ser completamente ignorante. Não foi Assange que falhou em reportar que oficiais de seu exército haviam estuprado centenas de mulheres no Iraque, foi os Estados Unidos. Não foi Assange que assassinou dois jornalistas da Reuters com drones, foi os Estados Unidos. Não foi Assange que criou centenas de malwares para espionar e invadir a privacidade de diversos diplomatas, ativistas e jornalistas sem consentimento, foi os Estados Unidos. Diversas administrações norte-americanas vieram e foram em todo esse período, republicanas e democratas. Nenhuma assumiu seus erros, nenhuma sofreu consequências, nenhuma criou reparações para a dor que causou em diversas nações.

Este é um dos motivos que difere o julgamento de Julian Assange de outros. Os reais culpados são os acusadores e as provas disso foram divulgadas pelo réu! O mundo inteiro assiste, ano após ano, documentos serem divulgados e crimes revelados, aplaudem o vazamento de informações e suspiram agradecendo pela liberdade de expressão.

Dias, semanas e anos depois, um silêncio ensurdecedor diante a prisão injustificável de quem arriscou sua vida para a divulgação dessas informações.

Sabendo de tudo isso, o que posso fazer para ajudar? – Vide o título, faltam apenas vinte e cinco dias para o julgamento. Existem diversas maneiras de ajudar não só Julian Assange, mas sua família e toda a equipe do WikiLeaks, de uma maneira não presencial e não monetária.

A primeira ação que pode ser tomada é pressionar deputados e senadores de seu Estado a fazerem uma manifestação pública diante o caso. Querendo ou não, o Brasil ainda possui bastante atenção geopolítica, especialmente midiática. Uma manifestação conjunta de parlamentares, seja presencial ou virtual, mostrará que no mínimo uma parcela de brasileiros acredita na inocência de Julian Assange.

Você pode acessar a página Fale com o Deputado, do site da Câmara Legislativa e enviar um e-mail para o deputado do partido de sua preferência. Para falar com senadores, acesse a página Fale com o Senado.

Eu pessoalmente enviei uma série de e-mails para um pouco mais de dez deputados federais e estaduais de todos os Estados brasileiros explicando minha motivação, objetivo e razão por acreditar que uma manifestação deve ser feita até o dia quatro de janeiro. Transcrevo aqui partes do e-mail enviado para que possam servir de base aos que se interessem em tomar a mesma ação:

“Deputados e deputadas, bom dia. Inicialmente, gostaria de agradecer pela atenção, caso algum; ou todos, estejam lendo este e-mail. Compreendo que as circunstâncias políticas do Brasil estejam extremamente difíceis e por este motivo, também compreendo caso não possam ler este e-mail ou atender meu pedido. […]

[…] Julian Assange se encontra atualmente preso em uma prisão de segurança máxima do Reino Unido, após seu asilo na Embaixada do Equador em Londres ter se encerrado ano passado. Em um período de menos de um ano, diversos especialistas em direitos humanos pediram sua libertação. Entre eles, Nils Melzer, relator especial de direitos humanos e tortura da ONU. Melzer afirma que os direitos humanos de Assange serão seriamente violados caso ele seja extraditado e recentemente, esta semana, pediu a libertação de Assange após um novo surto de Covid-19 em sua prisão. 65 dos 160 presos testaram positivo. […]

[…] A importância da libertação de Assange não vem somente desta esfera. Acredito eu que os senhores e as senhoras saibam dos feitos do WikiLeaks, especialmente por serem mais velhos que eu e talvez acompanharam ao vivo o desenrolar dos vazamentos. Sabendo dos feitos, certamente reconhecem sua importância.
Por este motivo, peço para que os senhores e as senhoras se manifestem publicamente contra a extradição de Assange, reafirmando sua inocência. Isto não só traria atenção internacional para o país, mas mostraria que uma parcela digna de nossos representantes apoiam a inocência de um ativista digno, honesto e falsamente acusado. “

A segunda ação que pode ser tomada é a pesquisa e fluxo constante de informações em todas as redes sociais. Um dos motivos para que Assange possua o mínimo de segurança em sua prisão atual é a visibilidade que este caso possui, que faz com que não só diversos profissionais fiscalizadores o visitem constantemente, mas que manifestações também aconteçam constantemente ao redor do mundo. Você pode acompanhar informações através do Facebook, Instagram e Twitter do próprio WikiLeaks, onde informações são diariamente atualizadas.

A terceira ação que pode ser tomada envolve meios financeiros e não cabe a todos. Stella Moris, advogada, parceira de Assange e mãe de seus dois filhos, criou um crowdfunding para pagar despesas jurídicas envolvendo seu julgamento. Ela explica na página como o orçamento de despesas legais já ultrapassou o valor de £500.000, o que atualmente corresponde a mais de 3.3 milhões de reais, que era seu orçamento inicial. A cada novo passo no julgamento, a página é atualizada. Entretanto, reconhecendo a crise financeira no Brasil e a própria cotação atual da libra, é fato que nem todos podem fazer uma doação, por isto, peço para que ela só seja realizada caso você tenha condições financeiras para o tal.

Caso queira fazer uma doação, clique aqui.

Caso queira entrar em contato comigo ou a equipe para enviar um material para publicação sobre o caso ou queira nos atualizar sobre informações, envie um e-mail para osabiacontato@gmail.com.



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