Clarice Lispector: 1 Centenário, 3 Homenagens

Três Tentativas Falhas de Tentar Ter Três Vezes Clarice Mais Perto de Nós

Clarice Lispector teria 100 anos de idade hoje caso ainda estivesse viva, e é por conta disso que estamos escrevendo este texto hoje. Ao invés de lhe falarmos, caro leitor, sobre quem foi ela, qual foi o seu papel na literatura e como foi a sua vida, concordamos que estes são dados que outros já o fizeram tão bem e que não teríamos muito mais a oferecer na realidade. Para além disso, seria curioso fazer uma análise tão rigorosa e impessoal de uma escritora cuja a marca não é apenas a sua pessoalidade mas sim a existência expansiva que não abre brechas para negociações ou análises cartesianas. O profundo do texto se transborda a um nível em que não existe mais raso, Clarice é o dilúvio, e celebramos aqui a experiência de fim do mundo que é ler suas palavras, sentenças que decretam um fim de nossas certezas de nós por inteiro, para depois nos colocar de volta à velha vida e nos desafiar a continuar sendo, como se nada houvesse acontecido. Sendo como? Creio que esta é uma pergunta que ficará sem resposta para todos nós, leitores de Clarice, tropeçando sempre agora nesses costume de olhar desconfiado que nos foi ensinado pela mestra ucraniana.

De tal forma que não vemos maneira melhor de homenagear escritora da pessoalidade, da perspectiva e dos olhares esquivos fazendo nós mesmos os nossos próprios espelhos difusos do que é Clarice para cada um de nós. São perspectivas que não abrem um leque completo de quem foi ela, mas com certeza trazem um convite para quem quer quiser que abra também a sua visão, pois, se a literatura é o encontro amoroso com um outro totalmente estranho, Clarice é a mais outrem dos outros, a mais altera e difícil personalidade de entrar mesmo que, paradoxalmente, a sua vida esteja dissolvida em cada linha escrita.

“Se Eu Fosse Falar de Clarice” de Luíza Zacarias

“É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo”. Este trecho foi retirado do livro A Paixão Segundo G.H., tal passagem nos coloca diretamente em contato com a busca humana pela verdadeira identidade individual. Isso me ocorreu aos 17 anos quando o li pela primeira vez, perído em que estava justamente no meio dessa busca. A leitura era quase sempre nas idas e vindas de ônibus no trajeto da casa a escola e vice e versa. Pouco entendi. Achei monótono, confuso, começava num local e logo se estava em outro. Se eu fosse mais audaciosa, o que nunca fui, diria que a escritora não era das melhores. Mas limitava-me a pensar que certamente era dificuldade de compreensão mesmo. Insistia, procurava outras obras, afinal a professora de português tinha um amor tão forte por ela que acabou me contaminando porque no fundo, eu amava mesmo era a professora.

     Com o passar do tempo e o desdobramento da vivência cotidiana passei a reconhecer na sua escrita um modo de ser. A identificação era tamanha que muitas vezes reescrevia seus contos em cadernos no intuito de decorá-los pois num relance inconsciente aquilo era um manual sobre mim.

Se eu fosse falar da Clarice, falaria que a magnitude da sua existência não me permite equívocos. Por isso não falo. Pois se eu falasse imediatamente adotaria uma postura altiva e seria sucumbida pelo erro que me é corriqueiro e mais natural. Mas se insistissem muito e eu então cedesse, diria sem delongas: Ela é o inatingível da criatura humana. Ela é aquilo que pensamos e, muitas vezes, não sabemos dizer. Ou então não damos conta que pensamos. O encontro com a Clarice se dá quando ao se reconhecer na perdição, na epifania, no maldito dentro da epistemologia da palavra, você se percebe nú do mais profundo reconhecimento de si mesmo. Parte do não conhecimento de si e navega nas águas obscuras do que seria então se conhecer. Ela escrevia indiscriminadamente de forma visceral. Sem fazer concessões. Na materialidade da sua escrita se encontra as mais variadas formas de percepção do eu e a repercussão dessa mesma percepção atuando no mundo. 

Clarice foi e é muito mais do que uma escrita ativa e puramente sentida. Ela é luz no fim do túnel. Energia solar, sustentável, que também se renova a cada encontro consigo. É possibilidade de vislumbrar um afago em meio ao desconhecido e sentir-se muitas vezes em casa por compartilhar com ela tantos questionamentos em comum. Por isso, não ouso falar sobre ela. Isto é apenas um esboço de pensamentos dançantes que me ocorrem quando penso em seu nome. Poderiam ser, se o fosse, mas não há linguagem que possa efetivar a sua relevância e que me concedesse a graça de atingi-la em cheio. 

E por falar em força e energia, a minha gratidão pela iminência da sua existência e a felicidade por comemorar seu centenário iluminaria esse país inteiro.

“Os Olhos de Clarice e a Voz do Impossível” de Arthur Albuquerque

A Voz foi a primeira caneta na qual se escreveu a primeira história e tudo o que se conta até os dias de hoje, falado ou escrito, é dito, falado, com esta mesma arma arcaica do homem sobre o desconhecido. Se antes de tudo havia o verbo então antes do próprio verbo havia uma voz para dizê-lo, foi a voz que fundou Deus e qualquer Nação, não é a toa que os grandes poemas da Antiguidade como A Ilíada ou o Épico de Gilgamesh contam histórias de um passado fundacional de toda a nação. A voz é o órgão central, sejam das classes, dos países e, fazendo-se um zoom microscópico, de nós mesmos. Sendo assim, muitas vezes entender a voz é também entender a própria obra literária, qual era a voz de Dom Casmurro? Foi a partir de perguntas assim que se percebeu que talvez Capitu não tivesse de fato traído. E é dentre a nossa gigante galeria de vozes grandiosas e imponentes existe Clarice Lispector, uma voz desafiante e perturbadora. 

Desafiante porque como pôde? Enquanto a literatura se ocupou tanto em encher o cânone de grande embates do espírito humano, tomos gigantescos com mais de quinhentas páginas onde o lugar da humanidade é procurada, como pôde uma moça escrever em contos e romances tão curtos algo que desestabiliza tanto tudo que toca? Clarice é como um Rei de Midas do Caos. 

E desestabiliza tão bem pois sabe exatamente onde dói, é justamente no que menos se destaca de nossa vida banal que Clarice tira as suas armas, instala as suas minas e lança suas granadas. A partir de então, você já não olha mais uma barata com os mesmos olhos, talvez aquele  velho estranho do metrô que te prende a atenção tenha alguma iluminação arcana para lhe revelar ou talvez nada disso e nunca mais. Saímos de pernas bambas de um livro de Clarice, é claro, pois como pode-se ter paz agora? Agora que sinto que alguém esfregou a essência humana na minha cara e eu não estive à altura de totalmente a agarrá-la. 

Após isso pode-se até perguntar: Então, mas quem era esse ser? E a partir daí, como todas as perguntas que envolvem Clarice, não se encontra mais respostas que tragam paz. Eu digo, é claro que se pode ler uma ou duas biografias e pesquisar sobre as relações de seus contos com a Cabala Judaica mas será que é apenas isso? Não, porque Clarice, como me disse uma amiga querida uma vez, é a nossa esfinge. 

Sendo muito realista, é impossível de fato se conhecer por completo de qualquer pessoas, todos os seus tiques, memórias e traumas, simplesmente não é possível pois existe uma infinidade estelar dentro da experiência subjetiva e é justamente isso que nos prova a romancista ao fazer de sua vida o amontado de tripas, ossos e penas para a sua bruxaria. Processo este quase alquímico pois, ao olhar para as excrescências no fim, não conseguimos olhar para alguma parte e dizer “Este fígado que está aqui é de Clarice!” pois, de fato, tendo tão bem se afogado e marinado no molho da ficção, tudo que era de Clarice vira algo de outrem, impossível de se saber e às vezes etéreo quando se tenta tocar. Não é a toa que Clarice, junto com Guimarães, é a queridinha dos nos nossos professores de Literatura, pois isso é um verdadeiro trabalho literário. Literatura é dar este salto de se desnudar ao outro mas tapeá-lo pois, no processo tiragem de cada peça de roupa, você já não é mais você e muito menos a interpretação do outro sobre daquele corpo que se vê. Clarice dá mais saltos também, não só esse. 

Por mais que, de fato, seja lindo e perfeito o universal de Clarice Lispector, ele não é de nenhuma forma metafísico. Não é tudo que não tem forma que não existe, e a literatura de Clarice é prova viva disso. Ao invés de olhar para as estrelas e conjecturar sobre a alma humana do alto, como já tão bem fizeram grandes poetas, Clarice faz o contrário, ela mergulha para baixo, no chão duro, sem nenhuma água, mesmo que quebre a cara, Clarice alcança algo que atinge todos, tirando as facas que atingiam apenas a ti. A voz que eu falava no início do texto pode também ser interpretado como um par de olhos pois, na realidade, a fala também indica uma ótica do narrador sobre o fato narrado e, como toda história, ela possui a sua parcela de incompletude já que todos somos humanamente parciais. Sendo assim, Clarice é genial pois a tal dita “essência humana” que ela procura está sendo perseguida com lupa em um ângulo que socialmente foi impedido de ser mostrado: o ângulo feminino. De uma forma que podemos dizer que as narradoras na obra de Clarice estão sempre olhando pra baixo, de olho nas sacolas do supermercado, nos deveres de casa dos filhos e na janta que precisa ser feita antes que o marido volte. É a partir desta divisão sexual do trabalho, em que a mulher é historicamente colocada como proletariado do proletariado nas palavras de Alexandra Kollontai, que a narradora de Clarice surge como uma erupção, esfregando em nossos rostos uma universalização do universal. 

Usando de um sentimentalismo que ainda hoje é mal interpretado e estereotipado por muitos críticos vulgares junto com o material artístico composto de mulheres e temas que eram relegados como apenas para a “literatura feminina”, Clarice dá mais um salto olhe lá, e não se transforma mais em literatura feminina, mas sim literatura brasileira e da melhor qualidade, pois não há escrita existencial e filosófica no resto desse mundo que explore por meio desta ótica o que é estar no Brasil de uma maneira tão boa quanto é em Clarice.

Disse que Clarice dá muitos saltos, porque acho que de fato é necessário se ser honesto. Não se atinge Clarice enquanto leitor, não se consome de maneira canibal a sua obra. Na realidade, é o oposto, Clarice nos consome como Cronos consumia seus filhos, deixando o som dos relógios mais altos e a experiência de estar vivo mais intensa e, paradoxalmente, mais da mesma. É esse paradoxo, esse impossível, que mantém Clarice, um século depois, continuar tendo o seu nome na boca de tantos e tantos como nós.

“Clarice: A Esfinge Nacional” de Tarsila Martim 

Existe uma loucura de teoria chamada O Vale da Estranheza. Provém de uma nova necessidade de análise da nossa clareza em terceira pessoa, numa espécie de projeção do espelho lacaniano que, ao invés de reforçar a auto percepção, nos causa rejeição. A teoria, é verdade, aplica-se ao mundo tecnológico, à robótica: é quando nos vemos diante de um robô que se parece conosco, mas artificial o suficiente para que possamos perceber a diferença. Essa rejeição enfática a uma figura que nos imita, mas fracassa. Da teoria, me atenho ao nome: o vale da estranheza. Não se sente algo esquisito, beirando o risível? Me vejo perambulando pelas montanhas ucranianas e de repente estática, subitamente atravessada por estímulos que me lembram como sou estrangeira no mundo. E não há nada que me faça pensar mais em Clarice do que a vertigem, dor e gozo em reconhecer-me como uma estranha.

    A construção dessa esquisitice é cutânea, quase um contágio com o epicentro nos dedos já um tanto feridos de datilografar. A primeira instância do enigma parte dela mesma, Chaya Pinkhasovna Lispector, antes de chegar a se materializar em palavra. Sagitariana com ascendente em aquário. Se eu fosse astróloga, diria que não há nada mais clariceano do que o fogo ardente da liberdade em sagitário, e o descontentamento com tudo que é banal, a sede que nunca passa de descobrir o mundo aquariano. Mas não sou astróloga, e o que acho que faz de Clarice a mais corajosa das escritoras é habitar a vulnerabilidade. Criada em iídiche, falava e lia em francês, inglês e italiano, mas veja que sorte a nossa, foi em português que criou sua gramática própria, fruto desse revérbero de descontentamento. A necessidade de ir além talvez tenha implicado um novo idioma, e daí a barreira entre seus escritos e aqueles que dizem ser tão difícil ler Lispector. Eu acho que depende dos olhos. O que há de peculiar na sua forma literária é, sobretudo, a transmissão das sensações para além dos fatos. A segunda camada, indissociável, é verdade, da primeira, são as próprias personagens. Se Gregor acordou um dia materializado num inseto para então refletir sobre o grotesco e a crueldade humana, trazendo essa esquisitice inevitavelmente de dentro pra fora, ora, o estímulo é visual e escancarado – o homem virou um bicho pisável -, Clarice não se contenta com essa subversão. Vai um tanto além. Comer a barata, junto com o processo epifânico que isso causa, é ao mesmo tempo catártico e solitário. É um segredo que somente nós partilhamos com G.H., porque esse pecado não é visível aos olhos. É categoricamente interno, enquanto a barata passa crocante pelos dentes e gengiva, garganta e enfim estômago, toda a brilhante revelação do ser transcende única e exclusivamente dentro daquele universo pessoal. O que há de perceptível esteticamente? A princípio nada, se o nada for uma colação enfim com a essência e a presença. A resposta às dificuldades da sua escrita eram sempre inapeláveis – “não escrevo pra agradar ninguém”. E também suas personagens não são do mundo: é o mundo que tem o privilégio de as ter. Da esfinge estranha de Clarice, resta uma variável: o leitor. Desagrada-me pensar que exista alguém imune à insólita maneira que Lispector reflete sobre o mundo. Mercúrio, o planeta da comunicação, está em escorpião, o signo mais misterioso e que não se contenta com a primeira camada de nada, disseca tudo que atinge os olhos. É engraçado que, por mais que esse conhecimento astrológico parta de um súbito lapso de autobiografia do conto “Dia após dia”, – “mas sou sagitário com escorpião, ascendente em aquário. E sou rancorosa” -, parece que, com Clarice, não é ela moldada pelo mapa astral, mas a própria mulher que explica e determina o que cada zodíaco pode fazer com ela. E é irresistível o passeio em chamas, que só com mais fogo é possível apagar. Mas queima. Não é viável passar ileso por sentenças como “se eu fosse eu”, sem sofrer o mínimo de instabilidade às nossas certezas tão adultas. Talvez Clarice fosse a mãe que foi porque há algo de infantil na maneira como nos constrange sem pudor algum. A diferença é que a famosa e fofinha pergunta do porquê o céu é azul transforma-se na dissolução de algumas mentiras e a soltura da nossa esquizofrenia mais íntima. Penso que Clarice inventava para se reconhecer, toda a palavra criada em torno do momento purificado em que se admite a birutice, e talvez sem pretensão, acabou nos convidando a queimar junto na labareda da língua mordaz. 



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