O Diabo na Página em Branco

Eu sempre fui uma pessoa muito assustada, desde criancinha. No ensino fundamental, principalmente, muitos dos meus coleguinhas tinham esta fascinação absurda por experiências aterrorizantes, como brincar de tábua Ouija, ver filmes de slasher e possessão demoníaca, enquanto eu, por mais que partilhasse desse mesmo interesse e tivesse muita admiração pelos meus amigos, preferia sempre evitar tudo o que fosse horrendo, visto que, desde sempre, eu tive uma facilidade ridícula em ter pesadelos. Nessa quarentena, entretanto, chegou um momento em que nada mais conseguia me deixar engajado – nenhum filme ou livro, nenhum jogo de fato prendia minha atenção – principalmente nos primeiros momentos da pandemia, quando os meus professores, ainda confusos com a situação, não estavam dando aulas na faculdade. Para a minha surpresa, nada me assustava muito, eu tinha pesadelos assistindo ou não a O Exorcista, talvez pelo fato de viver em um país que é um grande sonho ruim. Sendo assim, isso me fez voltar a pensar em que lugares ficam esses medos meus e a que lugar essas experiências me levam. Essa indagação me fez perceber que nada, para mim, é tão assustador e difícil de lidar quanto o silêncio; o silêncio é aquilo que mais me assusta e é sobre isso que eu vou trabalhar nesta coluna. 

Faz alguns meses que eu já não escrevo mais nada para a revista e essa quebra no costume de escrever fez com que eu, de fato, perdesse a mão. Não consigo nem mais ter na cabeça alguma situação em que eu consiga analisar de maneira séria, e, juntando isso ao fato de que estou em final de semestre e tenho de analisar alguns livros para passar de ano, eu resolvi escrever um texto falando sobre o mal que fica nos silêncios, tentando fazer um mapeamento do lugar onde verdadeiramente o diabo se esconde antes de analisar por si só o fenômeno. Infelizmente, depois de três parágrafos eu percebi que estava eu mesmo tentando analisar o silêncio da mesma forma como eu já analisei livros, filmes e eventos anteriormente nesta coluna. Certos hábitos não conseguem mesmo sair dos vícios e maneirismos que assumimos, principalmente sendo escritores iniciantes. 

Acho que esta é uma melhor forma de começar, falando sobre um texto que não será publicado e que foi riscado da página em branco para dar lugar a este. Dificilmente a nossa cultura ocidental dá o valor para as coisas que não são ditas ou que, melhor, são deliberadamente esquecidas. Se somos crentes a Deus, então rezamos e gritamos em um espaço fechado uma vez por semana; se estamos nos exercitando, publicamos uma foto sobre; ou, quando fazemos algo que nos interessa, a primeira ação que fazemos é expressar também às outras pessoas como estamos interessados em qualquer coisa. Não apenas isso, mas parece também ser dessa natureza nossa fazer como eu fiz, suprimir e apagar os trechos de que não gostamos, como os jornais frequentemente falam, falando e falando sobre todo fenômeno, ou para exaltá-lo em um nível que não pensamos sequer em questionar ou criticando com tanta intensidade que não é possível entender os pontos dos seus adversários. Não é à toa que a maioria dos nossos jornais fala da China e de outros países inimigos fazendo longas análises, mas sem nunca se aproximar de fato e ouvir a voz que vem de lá, pois o silêncio é realmente uma forma de asfixia muito esperta, que nos permite ser democráticos enquanto, na realidade, suprimimos o livre debate. O diabo – criatura essa que, como eu já disse, vive no silêncio, e não no inferno – provavelmente deve fazer academia ou yoga pela manhã, publicando fotos falando que o de hoje está pago ou desejando gratiluz aos quatro cantos, enquanto que, pela tarde, provavelmente deve escrever várias colunas sobre países totalitários, chamando seus críticos de neostalinistas.

É justamente isso que me atrai em tudo o que eu estudo. Sendo o leitor arrombado que sou, aquilo a que eu mais me dedico, quando leio um livro ou vejo um jornal, é pensar em quantas gargantas esta voz pisa para poder falar e dizer aquilo que é e não é. Interessa-me muito mais os fatos de que os colunistas da Folha de São Paulo não falam – seja contra o Boulos, a China ou o Jones Manoel –, do que aquilo que eles dizem de fato (principalmente porque, se olharmos com muita atenção, eles não falam muitas coisas mesmo). Isso exerce em mim a maior parte dos meus sentimentos; às vezes é ira, outras vezes, é um horror cósmico com pitadas de asco e desprezo. Creio que essa série de sentimentos venha da minha própria vida, eu nasci e fui criado em uma família muito barulhenta, que grita quando chama e que discute à meia noite com toda a força dos pulmões. Eu também não me eximo dessa característica, um dos meus grandes traços é que, desde pequeno, eu nunca consegui calar a boca, ficar de fato quieto e meditar. Mesmo nos momentos de silêncio, a minha mente trabalhava em uma resposta ou dúvida ou qualquer coisa que tivesse a ver com a minha voz, concordo ou discordo? Essa balança é um fantasma que me assombra. Ao mesmo tempo em que isso acontecia na minha infância, uma memória grande que eu tenho é de quando minha família se reunia para viagens de carro, seja para a casa da minha vó, no interior, ou para descer a serra e ir à praia. Esses eram os grandes momentos de debate, fofocas, discussões, intrigas e piadas nos quais os protagonistas eram meu pai e minha mãe, enquanto que minha irmã saía da adolescência e ganhava um pouco mais de fala. Eu, tagarela como sempre, estava sempre muito atento para comentar, qualquer coisa que fosse, e, como qualquer criança tentando entrar em conversas de adultos, na grande parte do tempo, não recebia uma resposta. Isso principalmente pelo fato de que, para todos os envolvidos, havia ali um assunto muito mais importante que precisa de uma resposta ou apontamento à altura e, nisso, eu era esquecido ao longo da seleção natural do discurso. 

Essa sensação, de ir esquecendo lentamente as coisas que eu havia dito enquanto a conversa continuava, tinha um efeito muito existencial na minha mente de 5 anos de idade. As primeiras vezes em que eu contemplei aterrorizado este meu medo do silêncio, foram nesses momentos em que, junto com o esquecimento do que eu havia dito, eu ia também esquecendo meu corpo, me descolando, deixando de vê-lo, sentindo em todos os efeitos um desaparecimento, virando um fantasma, uma espécie de Gasparzinho com transtorno de hiperatividade. Vejo, agora, quase 15 anos mais velho, que talvez seja ali que o meu foco quase exclusivo em escrever, ler e argumentar nasceu; mas não só isso, nasceu, também, uma espécie de rivalidade com o silêncio, com o desaparecimento. Queria não deixar a bola cair na quadra e ficar inerte. O movimento, a fala, essas foram (e são ainda), em maior parte, as coisas que eu mais valorizo nas minhas atividades do dia-a-dia. Escrever não é nada mais senão lutar contra o grande inimigo metafísico da humanidade que é a página em branco, o não dizer nada, a pergunta com a resposta em branco. E acho que não estou sozinho nessa, parece-me, muitas das vezes, que o fato de os filósofos, até o século XIX, terem se esforçado principalmente para interpretar o mundo se deve a esse vício – bem aristocrático, para ser sincero – de não deixar a peteca cair. Deus existe? Essa é uma pergunta que não se dá para responder, mas é claro que um senhor europeu precisava decididamente escrever um tratado filosófico impedindo que existisse uma pergunta sem resposta.

Para sair um pouco deste tom auto analítico/filosófico, acho que também é importante assinalar que, indo para a esfera do comum, uma boa parte da política constrói-se no silêncio. É claro que, para se fazer uma guerra, você precisa das condições materiais em armamento e política externa, mas também é necessário gritar mais alto que o inimigo e, assim, convencer um amontoado de pessoas a lutar uma luta comum. Nenhuma guerra começou com o primeiro tiro, começou, sim, com teorias da conspiração, discursos inflamados, propaganda e livros religiosos. Auschwitz muito provavelmente não teria acontecido se os nazistas tivessem falhado em silenciar tão bem uma população. Por conta disso, é sempre importante se perguntar quais silêncios existem e a quem eles servem. É claramente justo o silenciamento de todo neonazista, pois dar voz a essa política é também germinar algo que vai objetivamente contra o povo, mas e quanto a chamar outro país de totalitário? Não aceitar e virar os olhos para qualquer progresso de um país inimigo das grandes potências capitalistas, tratando-o como uma besta que não se eleva à nossa complexidade e dignidade humana, nas quais um aglomerado de pessoas trabalha mais de dez horas para ganhar um quinto do mínimo necessário para que levem uma vida decente. Quem ganha com isso? É o acadêmico especialista em Hannah Arendt? Ou são aqueles que já antes cometeram um genocídio à etnia da filosofia com o intuito de barrar o avanço do povo? 

A primeira coluna que eu escrevi teve isto como pergunta principal: porque todo mundo simplesmente ignorava as torturas cometidas contra o Baader Meinhof e a série de políticas que fizeram um terço da juventude de um país europeu desenvolvido ver, em algumas dezenas de guerrilheiros, a esperança para um mundo mais justo e compreensível? Ferrez, o grande escritor marginal dos nossos tempos, diz que um escritor está sempre tentando contar uma mesma história, tentando passar um mesmo sentimento. Acho que todos os meus esforços fora da academia também se dão no sentido de pensar qual é o lugar do maior medo da minha vida no mundo. Mas, também, é meio simplista resumir todas as coisas que eu digo a uma só questão; entretanto eu não posso esconder o fato de que, sendo uma pessoa muito medrosa e, na mesma medida, obcecada, o silêncio ocupa esse papel de irmão e inimigo ao mesmo tempo. 

Por conta disso é que eu comecei o esboço deste texto citando uma fala de Guimarães Rosa, em que ele dizia que todas as noites, antes de escrever, ele lutava até a morte, se rolando no chão, contra o demônio e, só após vencê-lo é que começava a escrever. Essa pequena anedota teve um efeito muito grande em mim e talvez seja por conta dela que Grande Sertão Veredas é o meu livro favorito. Nele, o personagem principal faz um pacto com o demônio para não ter mais medo do mal e, assim, derrotar a sua encarnação no sertão. Sendo assim, eu, menino pretensioso que sempre fui, resolvi eu mesmo fazer o meu pacto, chamar o diabo na sala, em frente à cama, para deixar de ter medo do silêncio e, assim, destruí-lo. 

Preparei, então, o meu amontoado de velas, sal grosso e enxofre e fui. Comecei com rezas inflamadas, já que não há nada mais cristão que chamar o demo, e já elaborava, no segundo plano dos meus pensamentos, a forma de tentar parcelar a minha alma ou, pelo menos, pedir o direito de ter uma xilocaína astral quando eu já me fosse desta vida material. Foi então o momento e chamei a coisa, nada me respondeu. Chamei mais algumas vezes, cada vez me sentindo mais ridículo, e nada da madame das trevas dar o privilégio de sua presença. Olhei ao lado e pensei “Talvez eu devesse dizer alguma coisa a mais”, só então percebi que não. Quis rir ou sorrir, mas não fiz nada, fiquei quieto. Em silêncio. Achei um verdadeiro porre. Escrevo, agora, este texto pisando nas cinzas de um outro, mais analítico, porém menos sincero, ou não. Só conseguia, na hora, pensar em uma redação coletiva que escrevi com os meus colegas no ensino médio. Achávamos que valia a pena experimentar a paciência do corretor e, então, escrevemos uma redação que dizia: “Falar é de Prata, Calar-se é de Ouro” junto com pontos no início de cada frase seguinte até atingir a linha 30. Tiramos 0 e nunca mais falamos nada, da mesma forma que eu não disse mais nada para o diabo, e nem para você, leitor. Pelo menos até a próxima semana, no próximo texto, porque, ainda assim, o silêncio não deixou de ser o meu grande inimigo. Fim.



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