Revisitando a História, revisitando o aprendizado


Em 2017, eu fui apresentada ao mundo dos musicais da Broadway e, naturalmente, apaixonei-me por “Hamilton”, obra essa que recebeu 11 Tony’s (o Oscar do Teatro estadunidense) e, ainda por cima, o Prêmio Pulitzer de Teatro. Muitos talvez conheçam Lin-Manuel Miranda, o criador dessa obra, por seus trabalhos em “Moana” ou em “O Retorno de […]


Em 2017, eu fui apresentada ao mundo dos musicais da Broadway e, naturalmente, apaixonei-me por “Hamilton”, obra essa que recebeu 11 Tony’s (o Oscar do Teatro estadunidense) e, ainda por cima, o Prêmio Pulitzer de Teatro. Muitos talvez conheçam Lin-Manuel Miranda, o criador dessa obra, por seus trabalhos em “Moana” ou em “O Retorno de Mary Poppins”, porém, com a chegada do Disney+ ao Brasil, eu entro na torcida para que os brasileiros também se encantem por “Hamilton”.

Estou fazendo um álbum de hip hop (…) sobre a vida de alguém que eu acho que é a representação do hip hop: o Secretário do Tesouro Alexander Hamilton. Vocês riem, mas é verdade! Ele era um órfão, de nascimento ilegítimo e pobre, nascido na ilha de Santa Cruz; se tornou o braço direito de George Washington, virou Secretário do Tesouro, arranjou briga com todos os outros Pais Fundadores! E, com a força da escrita dele, eu acho que ele representa a habilidade que as palavras têm de fazer a diferença”

Lin-Manuel Miranda

Esse musical é mais conhecido pelo fato de contar, com a ajuda do rap, a vida de Alexander Hamilton, um imigrante caribenho que se tornou um dos pais fundadores dos EUA. No entanto, esse não foi o primeiro espetáculo criado por Miranda alicerçado em tal estilo: em 2005, “In the Heights”mostrou à comunidade teatral que o rap pode sim render musicais incríveis em 2021, inclusive, sua adaptação cinematográfica chegará aos cinemas. Os principais diferenciais de “Hamilton” não são apenas o fato de o coração de suas composições estar no hip hop mas, sobretudo, o fato de serem atores de minorias étnicas nos papeis de personalidades históricas brancas como George Washington (Christopher Jackson), Thomas Jefferson (Daveed Diggs) e, claro, Alexander Hamilton (Lin-Manuel Miranda). Essa mistura de diversidade cultural, musical, étnica é o que dá cor ao musical e permite que a “história dos EUA daquela época [seja] contada pelos EUA de hoje”.

“América. Sua grande sinfonia inacabada, você chamou por mim

Você me deixou fazer a diferença

Um lugar onde até imigrantes órfãos

Podem deixam sua marca e ascender

The World Was Wide Enough

Alexander Hamilton, um dia, foi apenas um garoto órfão nascido no Caribe, mas ascendeu ao ponto de se tornar uma parte essencial das mudanças políticas americanas nos tempos de transição entre colonialismo e democracia. Sabendo disso, o tema da imigração é central na história, sendo, inclusive, mais desenvolvido por produções que foram feitas a partir do musical original, como “The Hamilton Mixtape”, por exemplo. Se, por um lado, a plateia dá uma chuva de aplausos quando La Fayette e Hamilton cantam “Imigrantes / Nós fazemos o trabalho direito”, nós sabemos que a realidade fora do Rodgers Theatre é completamente diferente. Os EUA parecem não ser mais o “lugar onde até imigrantes órfãos podem deixar sua marca e ascender”, e sim aquele que cada vez mais demonstra se recusar a receber estrangeiros, vistos por muitos, através de lentes xenofóbicas e paranoicas, como ameaças aos empregos e à segurança nacionais. Dessa forma, a frase “Immigrants, we get the job done”, quando cantada em cima do palco por um personagem francês e um caribenho em solo americano, recebe uma conotação mais forte, além de muito mais poder.

“Legado, o que é um legado?

É plantar sementes em um jardim que você nunca verá

Eu escrevi algumas notas no início de uma música que alguém cantará por mim”

The World Was Wide Enough

Outro tema que faz parte do coração desse musical é a construção e a preservação de um legado. O espetáculo mostra que Hamilton, desde sua participação na guerra pela independência até os “Reynold’s Pamphlets”, se conduziu à própria ruína por meio da busca desenfreada pelo estabelecimento de seu legado. Sua esposa, ainda que profundamente prejudicada pela insistência cega do marido, foi a chave para que seu nome não caísse no esquecimento; e, claro, Lin-Manuel Miranda garantiu que “Alexander Hamilton” nunca pare de ser pronunciado pelas bocas do povo. No fim do musical, inclusive, vemos uma Eliza Hamilton tomada pela emoção assim que Lin-Manuel Miranda lhe mostra o teatro lotado, as 1300 pessoas que vieram de tantos cantos do país (e do mundo) para assistir à história de seu marido; história essa que ela ajudou a gravar nos livros e, agora, com a contribuição de Miranda, também nas melodias. Mesmo que os esforços de Hamilton tenham dado frutos após sua morte, seu fim poderia ter sido muito diferente e melhor caso ele tivesse aberto os olhos quando chegou perto demais do Sol. De fato, não existe sentido em viver sem trazer qualquer impacto positivo aos lugares por que passamos, mas não podemos existir com o único propósito de jamais sermos esquecidos, afinal, não adianta subir aos céus se morreremos afogados – ou, ainda, existir apenas em prol de nosso pós-morte.

“#MrowbackMonday
Em 2008, eu comprei a biografia que Chernow escreveu sobre Hamilton para eu ler nas férias. O ensaio para o
musical começa hoje.”

“A História destrói

Em cada figura que pinta

Pinta-me com todos os meus erros (…)

Agora eu sou o vilão em sua História”

The World Was Wide Enough

Finalmente, um dos elementos que mais me fez querer escrever sobre “Hamilton” foi o seu impacto sobre estudantes nos EUA. Os maiores fãs do musical costumam correr para comprar a biografia escrita por Ron Chernow, que inspirou as composições de Miranda, mas eles não se restringem a somente essa leitura. Até eu mesma, que não tenho grandes interesses pela história dos EUA, fiquei animada quando vi que estudaria, na escola, um pouco sobre o primeiro Secretário do Tesouro americano; e, sinceramente, esse entusiasmo por aprender parece estar em grande falta nos alunos aqui no Brasil – e, obviamente, ao redor do mundo também , principalmente quando levamos em consideração o fato de que estudamos e memorizamos e seguimos a estratégia do “decoreba” com o foco primário de passar nos vestibulares. Alguns meses depois de me formar no Ensino Médio, por exemplo, quase tudo do que eu aprendera pareceu simplesmente se dissolver [OK, eu realmente não faço a mínima questão de lembrar conceitos e fórmulas científicos, mas fui totalmente incapaz de reter até as informações das matérias que eu adorava, como a Geografia]. Nossos cérebros parecem ficar saturados de aprender de forma mecânica, não? Então, quando elogio o incentivo que “Hamilton” inevitavelmente deu aos jovens estudantes, não estou defendendo a criação de um musical sobre Tiradentes aqui no Brasil (apesar de que isso seria algo interessante de se ver), e sim refletindo sobre como faltam motivadores para que estudemos e (finalmente) de fato aprendamos.

Gostaria de ressaltar: minha admiração por esse musical não é uma admiração pelos Estados Unidos ou figuras de sua história. Sendo eles a maior potencial mundial da atualidade, podemos observar de perto as enormes falhas presentes em seus sistemas políticos e sociais e, querendo ou não, muitas delas existem também no Brasil em formatos similares e análogos. “Hamilton”, então, serve como um abrir de cortinas para injustiças, vozes que precisam ser ouvidas e mudanças que devem ser realizadas. Acredito que vale muito a pena entrar em contato com um formato tão inovador de musical porque, mesmo que você esteja com um pé atrás quanto a ouvir raps sobre a história dos EUA, quando começar a assistir ao filme, saberá o quão especial e incrível essa obra é.



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