As vidas das vinte e duas crianças presas em Guantánamo – seus relatos, suas dores e seus destinos.


Em um comitê dedicado à proteção dos direitos infantis das Nações Unidas que ocorreu em 2008, o Pentágono afirmou que somente oito crianças e jovens estavam sendo detidos em Guantánamo, por serem considerados de ameaça máxima à segurança do país. Três anos depois, essa afirmação mostrou-se uma mentira. Os arquivos de Guantánamo – também conhecidos […]



Em um comitê dedicado à proteção dos direitos infantis das Nações Unidas que ocorreu em 2008, o Pentágono afirmou que somente oito crianças e jovens estavam sendo detidos em Guantánamo, por serem considerados de ameaça máxima à segurança do país. Três anos depois, essa afirmação mostrou-se uma mentira. Os arquivos de Guantánamo também conhecidos como Gitmo Files foram vazados pelo WikiLeaks, mostrando todos os métodos de tortura usados por guardas na prisão, seu tratamento ilegal com crianças detidas, as violações de Direitos Humanos, entre outros crimes.

Apenas três de vinte e duas crianças eram tratadas diferentemente dos adultos na prisão. Esses três eram meninos afegãos, Asad Ullah, Naqibullah e Mohammed Ismail. Eles foram mantidos em campos separados dos adultos até serem liberados em 2004. Infelizmente, nenhum dos outros meninos possuiu a mesma chance, muito menos uma oportunidade de reintegração social e psicológica. 

Um dos piores casos é o de Hassan bin Attash. Cidadão da Arábia Saudita, foi preso em 2002, aos seus dezessete anos, e encaminhado para a prisão de Guantánamo.

As circunstâncias da prisão de Hassan, divulgadas pelo WikiLeaks, colocaram autoridades responsáveis pela fiscalização dos Direitos Humanos em alerta. Ele afirmou que foi capturado em setembro de 2002 e passou seis meses em uma prisão secreta na Jordânia, onde foi pendurado de cabeça para baixo e torturado diversas vezes. Hassan disse que, enquanto o torturavam, falavam que a única maneira de sair dali seria confessando. Para piorar, as próprias autoridades norte-americanas afirmaram que ele estava sendo interrogado por atos de seu irmão supostamente envolvido no atentado de Onze de Setembro. Hassan continua preso e está com trinta e cinco anos. Você pode acessar a ficha se Hassan aqui (pdf).

Abaixo, está uma lista compilada por mim, após análise das fichas de cada um dos vinte e dois prisioneiros incluindo Hassan, citado acima , contando suas histórias, motivos de serem detidos e informações atuais que consegui encontrar sobre cada um.

1- Faris Muslim al-Ansari: Nascido em 1984, preso em dezembro de 2001, com 16/17 anos, na fronteira do Paquistão, libertado em dezembro de 2007. Faris afirmou que sua família deixou o Yêmen seu país de origem quando ele era criança e se mudou para o Afeganistão. Ele foi preso após ser considerado um possível membro do Talibã. Você pode acessar a ficha de Faris aqui (pdf). 

2- Shams Ullah: Nascido em 1986, chegou a Guantánamo em outubro de 2002, com 16/17 anos. Seu tio afirmou que Shams possuía problemas psicológicos. Ele foi baleado por oficiais norte-americanos no vilarejo em que vivia, localizado no Afeganistão, seu país de origem, após uma invasão dos oficiais. Na ficha de Shams, o comandante responsável escreve que ele “não possui informações de inteligência relevantes para os Estados Unidos”. Você pode acessar a ficha de Shams aqui (pdf). 

3- Mohamed Jawad: Nascido em 1985, preso em 2002, com 16/17 anos entretanto, sua família afirma que ele foi detido desde seus doze anos. Foi julgado por uma comissão militar em outubro de 2007 por supostamente jogar uma granada em oficiais norte-americanos no Afeganistão, seu país de origem. O julgamento colapsou após o juiz responsável afirmar que todas as confissões de Mohamed foram obtidas através de tortura. Ele ganhou seu habeas corpus em julho de 2009. Você pode acessar a ficha de Mohamed aqui (pdf).

4- Abdul Samad: Nascido em 1986, preso em dezembro de 2002, com 15/16 anos, libertado em 2004. Foi um de três jovens detidos em uma batida a um complexo administrado por um latifundiário chamado Samoud que não foi preso, mas possuía supostas ligações com o Talibã. Todos os três foram brutalmente abusados e torturados, em duas bases militares norte-americanas no Afeganistão, até confessarem ter atacado oficiais dos Estados Unidos. Você pode acessar a ficha de Abdul aqui (pdf).

5- Asad Ullah: Nascido em 1988, preso em 2002, com 13 anos, e libertado em 2004. Preso junto a Abdul Samad e submetido aos mesmos métodos de tortura. Você pode acessar a ficha de Asad aqui (pdf). 

6- Naqibullah: Nascido em 1988, preso em 2002, com 13 anos, e libertado em 2004. Foi preso junto a Asad Ullah e Abdul Samad e submetido aos mesmos métodos de tortura. Você pode acessar a ficha de Naqibullah aqui (pdf). 

7- Abdul Qudus: Nascido em 1988, preso em 2002, com 13/14 anos, e libertado em 2005. Ele afirmou que foi vendido para oficiais norte-americanos por soldados afegãos, mas, em sua ficha, autoridades de Guantánamo afirmam que Abdul “perguntou, junto com seu amigo, onde poderia comprar armas para matar americanos”. Você pode acessar a ficha de Abdul aqui (pdf). 

8- Mohammed Ismail: Nascido em 1988, preso em 2002, com 13/14 anos, e libertado em 2004. Mohammed foi preso junto a Abdul Qudus e também afirma que foi vendido para oficiais norte-americanos. Em sua ficha, autoridades de Guantánamo escrevem explicitamente que ele não possuía nenhuma ligação com o Talibã, nem com a Al-Qaeda; mesmo assim, deixaram-no preso. Você pode acessar a ficha de Mohammed aqui (pdf). 

9- Khalil Rahman Hafez: Nascido em 1984, preso em 2001, com 17 anos, libertado em 2004. Khalil possuía ligações confirmadas com um grupo jihad no Paquistão. Você pode acessar a ficha de Khalil aqui (pdf). 

10- Mohammed Omar: Nascido em 1986, preso em 2001, com 14 anos, libertado em 2004. Mohammed viajou com um amigo para o Afeganistão a fim de receber treinamento militar, mas passou a maioria do tempo andando pelo país antes de ser capturado por oficiais afegãos. Você pode acessar a ficha de Mohammed aqui (pdf). 

11- Saji Ur Rahman: Nascido em 1984, preso em 2001, com 16/17 anos Saji afirma que foi preso com 15 anos , libertado em 2003. Ele viajou com dois amigos para o Afeganistão a fim de visitar santuários, mas foi capturado por oficiais afegãos. Surpreendentemente, nenhum oficial norte-americano afirma que sua história era falsa, mas deixaram-no preso mesmo assim, sob a justificativa de que “possuía conhecimento geral sobre os conflitos na região”. Você pode acessar a ficha de Saji aqui (pdf).

12- Abdulrazzaq al-Sharekh: Nascido em 1984, preso em 2001, com 17 anos, libertado em 2007. Após sua libertação, afirmou, em uma entrevista à BBC, que, aos seus dezessete anos, “tinha muita empolgação para participar de grupos jihadistas, mas que, após cinco anos em Guantánamo, havia mudado”. Ele foi acusado por autoridades norte-americanas, um mês antes de sua liberação, de possuir envolvimento com o alto escalão da Al-Qaeda. Você pode acessar a ficha de Abdulrazzaq aqui (pdf). 

13- Yasser Talal al-Zahrani: Nascido em 1984, preso em 2001, com 17 anos, morreu em Guantánamo em 2006. No mesmo ano de sua morte, escreveu uma carta para seu pai, afirmando que dois detentos estavam à beira da morte e que ele suspeitava de envolvimento dos guardas prisionais. Dez dias depois, o Departamento de Defesa afirmou que ele e os dois prisioneiros haviam cometido suicídio. A família de Yasser e a imprensa sempre questionaram as circunstâncias de sua morte, mas nunca houve resposta. Você pode acessar a ficha de Yasser aqui (pdf).

14-Yussef al-Shehri: Nascido em 1985, preso em 2001, com 16 anos, libertado em 2007. Foi preso junto a seu primo e, durante sua estadia em Guantánamo, foi tratado como um adulto e visto como um terrorista extremamente perigoso. Após sua libertação, passou por um programa saudita de reabilitação para prisioneiros e foi repatriado para a Arábia Saudita. Infelizmente, persistiu em um caminho extremista e seu nome parou na lista de terroristas mais procurados em 2009. Yussef foi morto em um confronto com a polícia saudita no mesmo ano. Em meio às pesquisas, não consegui encontrar sua ficha nos arquivos para disponibilização. 

15- Abdulsalam al-Shehri: Nascido em 1984, preso em 2001, com 17 anos, e libertado em 2006. Era primo de Yussef al-Shehri e foi preso junto a ele, como citado acima. Você pode acessar a ficha de Abdulsalam aqui (pdf). 

16- Ibrahim al-Umar: Nascido em 1985, preso em 2002, com 16 anos, e libertado em 2003. Ele era estudante em uma escola religiosa no Paquistão e, após a invasão de tropas norte-americanas, foi convencido por um colega a deixar o país. Ele foi pego pelo Serviço de Inteligência do Paquistão ao tentar sair por um dos “checkpoints” nas fronteiras e foi entregue ao exército norte-americano. Em sua ficha, os comandantes afirmam que “o detento foi transferido para a Baía de Guantánamo por seu conhecimento em uma escola islâmica frequentada por jihadistas”. Você pode acessar a ficha de Ibrahim aqui (pdf). 

17- Mohammed El-Gharani: Nascido em 1986, preso em 2001, com 14 anos, e libertado em 2009. Sua história é uma das mais tristes de todas as crianças presentes nestes documentos. 

Ele nasceu na Arábia Saudita, mas seus pais nasceram em Chade, na África Central, o que o impediu de obter cidadania saudita e de ter acesso às mesmas oportunidades que outras crianças de sua idade. Mohammed sonhava em ser médico e, por isso, visitou a Embaixada de Chade e mentiu, dizendo que tinha vinte anos, a fim de conseguir um passaporte, viajar para o Paquistão e conseguir uma educação de mínima qualidade. Logo após viajar, estava rezando em uma mesquita quando ela foi invadida pela polícia paquistanesa, que prendeu todos os que estavam dentro. 

Ele, depois, foi vendido para oficiais norte-americanos, que estavam pagando cinco mil dólares por cada indivíduo “suspeito de ter envolvimento com a Al-Qaeda e o Talibã”. Após isso, foi transferido para uma prisão comandada pelo exército dos Estados Unidos no Afeganistão, onde foi submetido a tortura extensa e intensa. Depois disso, foi transferido para Guantánamo, onde sofreu ainda mais tortura por oficiais – Mohammed afirma que dessa vez, a tortura foi “mil vezes pior”.  

Felizmente, ele conseguiu seu habeas corpus em 2009, sendo libertado para Chade e repatriado. Ele também escreveu um livro em quadrinhos chamado “Guantánamo Kid”, onde conta, em primeira mão, todo o abuso sofrido dentro da prisão.  Você pode encontrar seu livro na Amazon aqui, e sua ficha em Guantánamo aqui (pdf). 

18- Haji Mohammed Ayub: Nascido em 1984, preso em 2001, com 17 anos, e libertado em 2006. Ele foi um dos vinte e dois uighurs (mulçumanos da província chinesa de Xinjiang) presos por oficiais norte-americanos após falsas alegações de que estavam envolvidos com a Al-Qaeda. Você pode acessar a ficha de Haji aqui (pdf). 

19-Rasul Kudayev: Nascido em 1984, preso em 2001, com 17 anos, e libertado em 2004. Rasul nasceu na Rússia e era campeão de luta livre. Ele foi preso após homens armados atacaram prédios do governo em sua cidade natal e submetido a métodos de tortura. Em meio às pesquisas, não consegui encontrar sua ficha nos arquivos para disponibilização. 

20- Ali Yahya al-Raimi: Nascido em 1985, preso em 2001, com 16 anos. Ali foi aprovado para transferência em 2004, mas não encontrei evidências de que isso tenha ocorrido até hoje. Ele foi preso por supostas ligações com a Al-Qaeda e com o Atentado de Onze de Setembro. Você pode acessar a ficha de Ali aqui (pdf). 

21- Omar Khadr: Nascido em 1986, preso em 2002, com 15 anos, libertado em 2012. Omar nasceu no Canadá e foi levado ao Afeganistão por seu pai, que era afiliado à Al-Qaeda. Em um conflito entre soldados norte-americanos e soldados do Talibã, Omar foi atingido três vezes no peito com tiros dados por norte-americanos. Gravemente ferido, foi transferido para um “hospital” em uma base dos Estados Unidos na capital do Afeganistão e, de lá, enviado para Guantánamo. 

Durante uma das inúmeras audiências de Omar, sua equipe de advogados liberou o vídeo de seu interrogatório, conduzido por autoridades canadenses. No vídeo, Omar chorava incontrolavelmente por sua mãe e cobria o rosto com as mãos. Em 2010, a Suprema Corte do Canadá decidiu que os interrogatórios de Guantánamo haviam violado os direitos constitucionais de Omar. Ele foi transferido para uma prisão no Canadá em 2012 e liberado em 2015. Você pode acessar a ficha de Omar aqui (pdf). 

Não existe uma justificativa plausível, uma ameaça terrorista forte o suficiente, que dê razão à prisão desses meninos. É óbvio que muitos deles tomaram decisões erradas – extremamente erradas, como juntar-se a algum grupo extremista –, mas torna-se claro que o aprisionamento desses jovens só piorou seu sofrimento.

Isso pode ser visto no caso de Yussef al-Shehri, o número quatorze da lista. Ele tomou a decisão completamente errada de entrar em um grupo terrorista, escolha essa que é dele e completamente dele. Mas até que ponto o fato de ele ter sido preso tão jovem – e submetido a torturas tão jovem – influenciou essa decisão? Até que ponto ele ter sido tratado como um terrorista, enquanto ainda era uma criança, influenciou-o para que se tornasse, de fato, um terrorista?

Alguns dos citados na lista possuíam ligações com grupos extremistas e, sim, deveriam ser punidos por tais escolhas, mas em centros de reabilitação juvenis de seus respectivos países, não em uma prisão estrangeira que é considerada uma das mais violentas e abusivas do mundo.

Além disso, alguns desses jovens foram vendidos a oficiais norte-americanos, acusados sem provas de crimes que jamais cometeram e subsequentemente torturados e traumatizados pelo resto de suas vidas.

Até hoje, a prisão de Guantánamo continua aberta e funcionando. No ano passado, o Departamento de Segurança Nacional dos Estados Unidos considerou enviar crianças imigrantes para um complexo de dormitórios em Guantánamo.

Já faz mais de dez anos que alguns dos presos citados nesta lista foram libertados e a prioridade do governo dos Estados Unidos, seja administrado por democratas ou republicanos, é construir mais prisões para crianças. Colocar mais crianças em jaulas. Traumatizar ainda mais crianças de países que não são do “ocidente”.

Sem o WikiLeaks, não seria possível escrever este artigo e saber a história de cada um destes prisioneiros. Mas, atualmente, o governo dos Estados Unidos busca acusar o co-fundador da plataforma – Julian Assange – ao invés de acusar todos os oficiais responsáveis por prender e torturas dezenas de crianças e adolescentes.

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