Chelsea Manning e sua importância no WikiLeaks

Chelsea Elizabeth Manning nasceu em dezessete de dezembro de 1987, em Oklahoma. Sua vida foi extremamente complicada desde criança porque ambos seus pais eram alcoólatras. Em entrevistas, ela afirmou que seu pai sempre descontava suas dores após o trabalho e a agredia em alguns momentos. Seus pais se divorciaram quando ela era adolescente, com treze anos de idade.

Com isso, Manning foi morar com sua mãe que, devido a alguns problemas psicológicos e seu vício em álcool, não conseguia ser uma boa mãe. Aos onze anos, ela e sua irmã encontraram sua mãe após uma tentativa de suicídio e a levaram para o hospital. Na época, Manning tinha apenas onze anos.

Por conta da certa instabilidade de sua mãe, ela foi morar com seu pai e sua nova madrasta, que a odiava por sua preferência sexual – na época, ela ainda não havia feito a transição e se considerava gay. Ela convenceu seu pai a expulsá-la de casa ainda quando era adolescente. Ela voltou a morar com sua mãe e se mudou para Gales, no Reino Unido. 

Sendo a única americana em sua nova cidade e considerada afeminada antes de sua transição, ela era frequentemente atacada por seus colegas de sala. Em uma viagem de acampamento com sua turma quando era adolescente, Manning acordou na floresta sozinha e descobriu que todos haviam ido embora e a deixado para trás. 

Ao se formar no ensino médio, ela voltou para os Estados Unidos e foi morar com seu pai. Ela trabalhou em vários lugares diferentes por curtos períodos de tempo, até seu pai convencê-la de entrar no exército. Ela entrou no exército em 2007, com vinte anos, esperando ganhar uma bolsa para a faculdade e depois conseguir um pós doutorado em física. 

Seu período no exército foi extremamente sofrido. Ela sofria bullying, repetidas vezes, de diversos oficiais por alguns problemas de identidade que ela passava. Ela também disse para um de seus superiores que “adentrar um ambiente extremamente masculino” iria “consertar seus problemas de identidade de gênero”. 

Dois anos depois de entrar no exército, ela foi transferida para o Iraque. Antes de sua transferência, alguns de seus superiores discutiram que sua ida não seria positiva por conta de seu estado de saúde mental. Mesmo assim, ela foi transferida.

Durante todo o período que permaneceu no Iraque, ela, assim como a maioria dos soldados em qualquer guerra, foi submetida a péssimas condições de trabalho, com turnos noturnos de quatorze a quinze horas por dia em um quarto pequeno sem iluminação. 

Um ano após ser enviada para o conflito, Manning começou a armazenar documentos do exército dos Estados Unidos. Estes envolviam a guerra do Iraque e do Afeganistão – e seus vazamentos são conhecidos, respectivamente, como Iraq War Logs e Kabul War Diary. Após isso, juntou todos os arquivos em um CD e anexou a seguinte mensagem: 

“Arquivos de significado histórico de duas guerras, no Iraque e no Afeganistão Atividades significativas, Sigacts, entre 1 de janeiro de 2004 e 2359 [arquivos] de 31 de dezembro de 2009, extraídos de documentos CSV do Departamento de Defesa e do banco de dados CDNE.

  Esses arquivos já foram limpos de qualquer informação de identificação de fonte.
  Você pode precisar aguardar essas informações por 90 a 180 dias para ter a melhor oportunidade de enviar e distribuir uma abundante de dados para um grande público e proteger a fonte.
  Estes são os documentos mais significativos de nosso tempo, removendo a névoa da guerra e revelando a verdadeira natureza da guerra assimétrica do século XXI.
  Tenha um bom dia.
  Manning, 9 de janeiro de 2010

Depois, compilou os arquivos em seu notebook e os colocou em um cartão SD para o levar em uma câmera. Em vinte e três de janeiro do mesmo ano, ela recebeu uma licença de duas semanas e viajou para os Estados Unidos. 

Durante este período, ela tentou contatar o Washington Post e o New York Times para que divulgassem os documentos, mas ambos recusaram. Um repórter do Post afirmou que não tinha interesse e não recebeu qualquer retorno do Times. Com isso, enviou os documentos para o WikiLeaks em fevereiro, antes de retornar para o Iraque. 

Entre fevereiro e março, Manning enviou diversos documentos para o WikiLeaks – entre eles, o famoso vídeo Collateral Murder – e, já no fim de março, conseguiu obter todos os telegramas diplomáticos dos Estados Unidos, logo depois ficaram conhecidos como “Cablegate”. O WikiLeaks publicou todos os materiais envolvendo as guerras do Iraque e Afeganistão, os telegramas diplomáticos e os arquivos da prisão de Guantánamo – em que Manning também é suspeita de ser a fonte para o vazamento – entre os anos de 2010 e 2011. 

Em maio de 2010, Manning começou a ter contato com o hacker Adrian Lamo em um chat. Eles conversaram por um curto período e ela acabou confessando que tinha sido responsável pelos vazamentos. Lamo contatou as autoridades e afirmou que havia provas que Manning era a fonte do WikiLeaks. Ela foi presa poucos dias depois e transferida para uma prisão no Kuwait.

No documentário XY Chelsea, lançado no  ano passado, ela afirma que “morreu” quando estava no Kuwait. Em confinamento solitário por vinte e três horas por dia, em uma cela de 1.8m x 3.6m, ela foi posta sob observação após apresentar comportamentos suicidas. Com isso, passou a ficar o dia inteiro em sua cela e não podia vestir nenhuma peça de roupa.  

As condições de sua detenção geraram preocupação nacional e internacional. O relator especial das Nações Unidas sobre tortura Juan E. Méndez disse ao The Guardian que o tratamento que o governo dos EUA deu a Manning foi “cruel, desumano e degradante”. Em janeiro de 2011, a Anistia Internacional pediu ao governo britânico que interviesse no caso devido ao estatuto de Manning como cidadã britânica por sua  descendência. 

Em 10 de março, o porta-voz do Departamento de Estado, Philip J. Crowley, criticou o tratamento de Manning como “ridículo, contraproducente e estúpido”. No dia seguinte, o ex-presidente Barack Obama respondeu aos comentários de Crowley, dizendo que o Pentágono havia garantido a ele que o tratamento de Manning era “apropriado e atendia aos nossos padrões básicos”. 

Depois de mais de mil dias em prisão pré-julgamento, em fevereiro de 2013, Manning se declarou culpada em 10 de suas acusações menores que estavam pendentes.  Embora essas acusações acarretaram uma potencial sentença máxima de 20 anos de prisão, os promotores militares persistiram em continuar com a corte marcial e perseguir as outras acusações adicionais contra Manning.  Em julho de 2013, ela foi considerada inocente dos crimes mais graves – entre eles, “ajudar o inimigo” -, mas foi condenada por várias outras acusações, incluindo espionagem e roubo.  No mês seguinte, Manning foi condenada a 35 anos de prisão.

Enquanto estava presa, Manning pediu tratamento para disforia de gênero, mas o Departamento de Defesa recusou o pedido e, em 2014, a American Civil Liberties Union abriu um processo em seu nome.  

Em 2016, Manning fez uma greve de fome e, após 10 dias, os oficiais do exército concordaram em permitir que ela buscasse tratamento, incluindo cirurgia de mudança de sexo.  No mesmo ano, ela foi hospitalizada após uma tentativa de suicídio e poucos meses depois, foi hospitalizada novamente após outra tentativa.

Em janeiro de 2017, o Presidente Barack Obama, como um de seus atos finais no cargo, comutou a maior parte da sentença restante de Manning, e ela foi libertada da prisão em 17 de maio de 2017. Muitos afirmam que a decisão de Obama veio das tentativas de suicídio de Manning e a degradação de sua saúde mental enquanto estava presa. Em sua primeira entrevista fora da prisão, Chelsea disse que “aceitava a responsabilidade pelos atos”, além disso, agradeceu o ex-presidente por “ter lhe dado uma segunda chance”. 

Desde então, ela vive de palestras e cursos onde fala sobre sua história de vida, experiência no exército dos Estados Unidos, seu ativismo e outros tópicos. Entretanto, em fevereiro do ano passado, Manning revelou publicamente que havia recebido uma intimação para testemunhar perante um júri a favor do governo dos Estados Unidos no julgamento de extradição de Julian Assange. Você pode ler mais sobre o julgamento clicando aqui.

Embora tenha recebido imunidade, ela se recusou a responder a perguntas sobre o WikiLeaks e, em março, foi presa por desacato.

Manning foi libertada após o término do mandato júri, em maio de 2019, mas ela recebeu outra intimação enquanto ainda estava sob custódia. Isso levantou a possibilidade de um segundo julgamento por desacato, e Manning foi presa novamente apenas uma semana depois. Ela permaneceu encarcerada até março deste ano, quando os advogados de Manning relataram que ela havia tentado suicídio. Manning foi transferida para um hospital e um juiz determinou que ela não era mais obrigada a testemunhar.

Atualmente, Chelsea é extremamente ativa nas redes sociais no âmbito político. Recentemente, participou e divulgou de protestos do Black Lives Matter – movimento reiniciado em junho contra a violência policial diante a população negra nos Estados Unidos. Com a proximidade do julgamento de Julian Assange, é necessário relembrar da trajetória desta mulher que, assim como ele, foi presa e julgada por expor ao mundo os crimes de seus acusadores, de tal forma que não se possa nunca mais silenciá-la novamente.



TEM UMA PAUTA?
ESTAMOS AQUI!

Toda ideia tem o potencial de ser uma boa ideia. Gostamos de ouvir ideias de pauta, denúncias ou sugestões de nossos leitores. Se quiser compartilhar, conte conosco — e olha, pode ser anônimo, tá?


Em destaque

RECENTES

A revista o sabiá é um veículo de mídia independente e sem fins lucrativos, que busca usar o jornalismo e a comunicação como um mecanismo de mudança no futuro das novas gerações.