Guantánamo Files – expondo a vida dentro da prisão norte-americana.

vinte e quatro de abril/2011 | o WikiLeaks começa a publicar junto a diversas organizações de mídia mais de setecentos documentos secretos da prisão de Guantánamo.

O WikiLeaks afirma em uma de suas páginas que os Estados Unidos “criaram [na prisão] um sistema policial e penal sem garantias no qual só importavam duas questões: quanta informação se obteria dos presos, embora fossem inocentes, e se podiam ser perigosos no futuro”. Os arquivos consistem em entrevistas, relatórios especiais e memorandos internos sobre detentos, datando do período de 2002 – 2008 e escritos pela Força Tarefa Especial do Pentágono em Guantánamo. Eles abordam todos os detentos presentes na prisão neste período, com exceção de vinte. 

Todas as “missões” especiais envolvendo detentos e oficiais norte-americanos eram classificadas como secretas. Porém, em alguns momentos, os arquivos falam da existência de dossiês de “inteligência compartimentada secreta” mantidos em outro lugar fora da prisão.

A prisão de Guantánamo foi fundada um ano após o atentado de Onze de Setembro e, desde então, é frequentemente utilizada para alocar prisioneiros de guerra ou pessoas que são consideradas uma ameaça terrorista para o país. Uma das revelações mais chocantes vem a ser a extensão da paranoia de oficiais norte-americanos envolvendo terrorismo. 

De acordo com os arquivos, oficiais dos Estados Unidos acreditavam que cada detento possuía filiações e conexões com a Al-Qaeda, Talibã e outros grupos. Por isso, criavam um relatório de inteligência extremamente específico sobre cada indivíduo e, em seguida, um relatório explicando a ameaça que estes indivíduos representam, caso soltos. Entretanto, toda ou a maior parte das “evidências” previstas nos relatórios são provenientes de uma série de interrogatórios não convencionais – envolvendo métodos de tortura e manipulação psicológica. Além disso, oficiais da prisão ofereciam a presos que testemunharam uns contra os outros, em troca de melhores condições de vida na prisão. 

Um dos exemplos é o caso de Ibn al-Shaykh al-Libi – descrito nos documentos como ISN 212, Ibn não estava preso em Guantánamo, mas seu arquivo junto com os outros. Ele era um emir em um campo de treinamento militar e teve seu campo fechado pelo Talibã nos anos 2000, pois se recusou a deixar que fosse controlado pela Al-Qaeda. Mesmo assim, oficiais norte-americanos os descreviam nos documentos como o comandante militar de Osama Bin Laden. 

Após ser preso pela CIA no Egito, Ibn confessou falsamente – sob tortura e afogamento – que a Al Qaeda estava tendo reuniões com Saddam Hussein para discutir a compra de armas químicas e biológicas. Ele retirou esta “confissão” dois anos depois, afirmando que havia sido submetido a uma tortura extrema por oficiais norte-americanos, mas isso não adiantou. Em 2003, George Bush utilizou esta falsa confissão para justificar a invasão do Iraque. 

Existem muitos casos semelhantes – como o do iemenita Al Haji Abdu Ali Sharqawi. Sharqawi havia sido torturado em uma prisão da CIA na Jordânia, onde ficou detido por quase dois anos, por ser considerado um “facilitador da Al Qaeda”. Ele escreveu em cartas que “havia sido capturado, não sabendo qual seria seu destino, com torturas contínuas e interrogatórios durante dois anos”. Também escreveu que “lhe foi dito que se ele quisesse sair sob um atestado de deficiência mental e física, isto poderia ser arranjado. Eles disseram que possuíam todas as prisões na Jordânia e que eu precisava falar. Eu precisava lhes contar tudo”

Sharqawi continua preso até hoje. 

Outra informação extremamente importante são os relatórios sobre os duzentos e um presos liberados da prisão até o período de 2004, que nunca tinham sido expostas ao público antes. A maior parte destas informações já confirmava teses de pesquisadores e analistas da prisão: muitos eram presos injustamente em consequência da “guerra ao terror” – War on Terror – sem evidências de qualquer participação em grupos considerados terroristas. 

Em 2002, o ex-vice-presidente Dick Cheney afirmou que a prisão apenas continha “indivíduos muito, muito ruins”. Novamente, os arquivos mostram uma imagem diferente. 

Um dos relatórios sobre os prisioneiros mostrava que seu detento mais velho, o afegão Mohammed Sadiq, de oitenta e nove anos, apresentava sinais graves de depressão e demência. O histórico de Sadiq mostrava que ele tinha sido detido após “documentos suspeitos” de seu filho terem sido encontrados em sua casa. Seis meses depois, ele foi enviado para Guantanamo. Os interrogatórios feitos por oficiais concluíram que Sadiq “não era afiliado à Al Qaeda, ao líder do Talibã e não possuía nenhum material de inteligência importante para os Estados Unidos”. Ainda sim, ele só voltou ao Afeganistão quatro meses depois dos interrogatórios. 

Outra descoberta importante era que havia a detenção de crianças – enviadas de seus países em jaulas para a prisão. Você pode acessar um artigo completo em que descrevo a trajetória de cada uma das crianças presas ilegalmente aqui – suas fichas prisionais também estão disponibilizadas em pdf. 

Um dos casos mais chocantes de detenção de crianças é de Hassan bin Attash, preso aos seus dezessete anos por autoridades norte-americanas e enviado para Guantánamo.

Hassan foi preso por acusações feitas a seu irmão, que supostamente teria ligação com o atentado de onze de setembro. As circunstâncias de sua prisão, expostas pelo vazamento do WikiLeaks, são grotescas e desumanas. Ele afirma que também passou seis meses em uma prisão secreta na Jordânia, assim como Al Haji Abdu Ali Sharqawi, onde foi pendurado de cabeça para baixo e torturado de diversas maneiras. Hassan disse que enquanto oficiais o torturavam, falavam que o único meio de sair de lá seria confessando. Ele “confessou” e continua preso até hoje, com trinta e cinco anos. 

Lendo os documentos, percebi que métodos de tortura são aplicados – sem remorso e sem vergonha – a crianças frequentemente. Em diversas fichas que encontrei, de todas as vinte e duas crianças presas em Guantánamo até 2011, vi autoridades norte-americanas afirmando “o indivíduo não possui informação de inteligência relevante” ou “o indivíduo não apresenta risco para os Estados Unidos”. 

Mesmo sabendo que estas crianças não representavam risco – e se representassem, que fossem internadas em centros de reabilitação de seus respectivos países – e não possuíam ligações com qualquer grupo terrorista, os mantinham lá. 

Outro caso, entre os vinte e dois, chocante é o de Mohammed El-Gharani. Nascido na Arábia Saudita, não possuía status de cidadão pela nacionalidade de seus pais – nascidos em Chade, na África Central. Mohammed sonhava em ser médico, mas não tinha permissão legal de acessar o ensino secundário. Por isto, enganou autoridades da Embaixada de Chade para conseguir um passaporte falso e viajar para o Paquistão. 

Ele conseguiu e chegou ao país com quatorze anos de idade. Logo nos primeiros dias, estava rezando em uma mesquita, quando a mesma foi invadida por uma batida policial e todos os indivíduos presentes na mesquita, incluindo ele, foram presos. 

Logo após sua prisão, Mohammed foi vendido para oficiais norte-americanos, que pagavam cinco mil dólares por cada indivíduo “suspeito de ter envolvimento com a Al-Qaeda e o Talibã”. Logo depois, foi transferido para Guantánamo – ainda com quatorze anos. 

O historiador Andy Worthington reportou no Lebanon Daily Star que Mohammed estava sofrendo com torturas extremas. Guardas prisionais estavam o privando de sono, apagando bitucas de cigarro em sua pele, jogando água extremamente gelada nele e ligando mecanismos de ventilação e o prendendo no teto pelos braços com seus pés fora do chão. Esta reportagem foi feita em 2008, enquanto Mohammed teria 21-22 anos. 

Um ano depois, o juiz Richard J. Leon ordenou que Mohammed fosse liberado, afirmando que as “evidências” que o mantinham preso não eram confiáveis. Infelizmente, até onde encontrei, ele não recebeu documentos de identidade em Chade – onde foi repatriado. As autoridades locais não sabem decidir a questão de sua nacionalidade e a Arábia Saudita se recusa a deixar que ele retorne para o país e veja seus pais. Mohammed colaborou com a artista norte-americana Laura Anderson, criando um trabalho chamado de Habeas Corpus, baseado em sua vida. Ele também lançou um livro em quadrinhos chamado “Guantánamo Kid”, disponível em inglês, francês e alemão e apoiado financeiramente pela organização Anistia Internacional. 

Nos documentos, uma pessoa extremamente importante para os Estados Unidos é citada. Khalid Sheikh Mohammed, o homem que planejou o atentado de onze de setembro. Ele afirmou que caso algum dia Osama Bin Laden fosse capturado ou morto pelos Estados Unidos, seu grupo detonaria “armas de destruição em massa em um local secreto na Europa”. Em seu primeiro mês preso por autoridades norte-americanas, Khalid havia sido afogado mais de cento e oitenta vezes e foi transferido para Guantánamo em 2006. Ele será julgado ano que vem por crimes de guerra e terrorismo. 

Outra descoberta impressionante, mas nada surpreendente, foi o árduo esforço de autoridades norte-americanas para acusar e julgar alguns dos prisioneiros. Isto ocorreu por diversos motivos, desde o pagamento ilegal para detenção de prisioneiros – como o caso de Mohammed El-Gharani – até a simples xenofobia e islamofobia presente em algumas fileiras do exército dos Estados Unidos. 

Também houve envolvimento de tortura por membros do alto escalão da Casa Branca. Um deles é Mohammed al-Qahtani, que seria um dos responsáveis por roubar um dos aviões envolvidos no onze de setembro. Ele foi torturado com o consentimento do próprio secretário de Defesa de George Bush, submetido por mais de quarenta e nove dias a vinte e quatro métodos de tortura diferentes. 

Os documentos também mostravam alguns manuais secretos de agentes de inteligência dos Estados Unidos, onde eram ensinados a procurar por “sinais” de ligação a grupos terroristas. Entre eles: viajar para o Afeganistão após o onze de setembro e relógios da marca Casio. O mais ridículo de todos é: ” indivíduo capturado sem documentação citando perda, roubo ou inabilidade de recuperar seus documentos”, sendo que países e vilarejos foram completamente devastados. Gostaria de saber como uma pessoa consegue manter seus documentos organizados em uma pasta morando em uma zona de guerra. Você pode acessar o manual completo clicando aqui (pdf). 

O ex-presidente Barack Obama prometeu em discursos que a prisão seria fechada, alegando que “terroristas usam a prisão como um instrumento de propaganda para recrutamento e que os custos esgotam recursos militares”. Ele não cumpriu sua prisão e a administração de Donald Trump foi extremamente favorável ao continuamento das atividades em Guantánamo.

De acordo com um acompanhamento feito pelo New York Times, existem quarenta prisioneiros em Guantánamo atualmente. Seis destes recomendados para transferência, sete acusados em Comitês Militares, dois condenados nos mesmos Comitês, três que serão acusados futuramente e vinte e dois em detenção indefinida que não são recomendados para transferência. Em quinze de dezembro deste ano, o jornal também publicou um artigo mostrando as atuais condições do complexo prisional. Chuvas tropicais inundaram a prisão, fazendo com que a energia elétrica sofresse com curto circuitos, portas de cela travassem e a água fervesse. Uma testemunha afirmou que “A manutenção não consegue mais consertar as coisas. As paredes estão rachadas, você consegue enxergar as luzes entre as celas. O chão está rachado. A água é inconsistente e quente”.

A imprensa norte-americana está fazendo um trabalho intenso para que o presidente eleito Joe Biden feche, de uma vez por todas, a prisão de Guantánamo. Entretanto, até a publicação deste artigo, a futura administração ainda não apresentou planos, mesmo com o próprio complexo prisional sendo fisicamente destruído.



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