Kabul War Diary: o vazamento que expôs crimes durante a guerra do Afeganistão.


vinte e cinco de julho/2010 | mais de noventa mil relatórios, arquivos e documentos sobre a Guerra do Afeganistão foram publicados pelo WikiLeaks, apelidados de Kabul War Diary. O conflito ocorre há anos, entretanto, o país foi oficialmente invadido por tropas norte-americanas onze anos atrás e continuam presentes até os dias de hoje. Atualmente existem, […]



vinte e cinco de julho/2010 | mais de noventa mil relatórios, arquivos e documentos sobre a Guerra do Afeganistão foram publicados pelo WikiLeaks, apelidados de Kabul War Diary.

O conflito ocorre há anos, entretanto, o país foi oficialmente invadido por tropas norte-americanas onze anos atrás e continuam presentes até os dias de hoje. Atualmente existem, aproximadamente, quatro mil e quinhentos oficiais do Exército norte-americano em território afegão. Um mês antes do vazamento oficial, Julian Assange – co-fundador do WikiLeaks – e um jornalista do The Guardian afirmaram que o Exército dos Estados Unidos havia construído uma base de dados gigantesca. Nela, sensíveis informações militares eram guardadas. Milhares de soldados tinham acesso a esta base de dados e podiam fazer cópias de seu material e assim, a plataforma conseguiu acesso a uma das cópias. 

Cada um dos setenta e cinco mil relatórios contêm datas e localizações exatas. Também possuem uma série imensa de subclassificações, como “combate” ou “propaganda”. Algumas destas subclassificações levam a documentos detalhados de quantos civis foram detidos, mortos, feridos e torturados. Para o WikiLeaks, deixar as subclassificações é essencial para compreender a organização do Exército norte-americano. 

Semelhante aos documentos da Guerra no Iraque, Kabul War Diary levanta o véu sobre assassinatos em massa de civis, oposição popular afegã contra a invasão e posturas criminosas dentro de divisões do exército norte-americano no país. Outra semelhança é que todos os números reportando mortes de civis estavam manipulados, mentindo para o público – novamente – sobre o real número de vítimas.

Entretanto, a contagem de vítimas não foi manipulada somente quando o agressor era o exército norte-americano. Em várias instâncias, eles ajudaram a esconder ataques do próprio talibã que resultaram em mortes de milhares de civis. Colocando o próprio motivo da invasão ao Afeganistão em cheque – eles não queriam “parar” o Talibã? Se esta foi a real justificativa, consideraram esconder milhares de mortes apenas para que o público não visse que perderam mais uma guerra?

Centenas de civis morreram nas mãos de forças de coalizão – estas normalmente são chamadas pela comunidade internacional como “pacificadoras”. De acordo com o The Guardian, a situação ficou tão violenta que o presidente do Afeganistão da época, Hamid Karzai, veio a público dizer que “Os Estados Unidos vêem as vidas afegãs como baratas, sem valor”.

Os relatórios também mostravam que quando parentes de um civil assassinado vinham questionar forças de coalizão ou o exército norte-americano, eles eram “presenteados” com latas de feijão e barras de chocolate Hershey’s. Uma recompensa certamente justa, após ter seu país destruído e sua família assassinada.

Um telegrama específico também mostra que autoridades do alto escalão do exército dos Estados Unidos também negociaram pagamentos de 100 mil afeganes – moeda do país – para famílias de vítimas, especialmente em casos de assassinato de crianças. Este valor equivale hoje a pouco mais de mil dólares.

Em outra ocasião, oficiais norte-americanos perceberam rapidamente que um esquadrão polonês de uma das forças de coalizão havia cometido crimes de guerra. Em dezesseis de agosto de 2007, o esquadrão invadiu uma festa de casamento em um vilarejo – a justificativa seria de que este seria um ato de vingança, pois o esquadrão havia sofrido um atentado com bombas pouco tempo antes.

No total, seis civis foram mortos e uma mulher grávida ficou gravemente ferida. Membros do esquadrão foram enviados para casa e eventualmente postos em julgamento por seus atos. O desdobramento mais recente do julgamento ocorreu em 2016, quando a Câmara Militar do Supremo Tribunal de Varsóvia declarou que não houve crime de guerra, mas cumprimento de ordens de maneira negligente.

Uma grande revelação dos documentos era a existência de paramilitares da CIA em território afegão. Em uma instância, os paramilitares invadiram um vilarejo fortemente armados e atiraram sem parar em Shum Khan, um homem surdo e mudo. Ao assistir a entrada dos paramilitares em sua vila, Shum correu desesperadamente por medo e os paramilitares pediram para que ele parasse. Por sua surdez, obviamente não ouviu o que foi dito e continuou correndo. O grupo começou a atirar em Shum, já que, por algum motivo, acreditavam terem o poder para fazer isto.

Shum ficou ferido mas sobreviveu. Membros do vilarejo explicaram as condições de Shum e, após isso, norte-americanos deram uma “compensação” ao vilarejo – chamado de “solatia” nos documentos. O relatório específico do caso termina com: “Foi determinado por meio de discussões com os anciãos locais que o homem era um surdo-mudo que estava nervoso com a operação de CF. Solatia foi feita na forma de suprimentos e a missão progrediu”.

Os registros da guerra também mostraram que o número de bombardeios suicidas realizados por “combatentes” estrangeiros e não-afegãos estava aumentando, com um impulsionamento da Al-Qaeda e de Osama Bin Laden. Um relatório feito em 2004 por oficiais norte-americanos afirmava que terroristas foram designados pelo grupo  para realizar um ataque suicida contra o, na época, presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, durante uma coletiva de imprensa. Mais ataques suicidas foram supostamente planejados com grupos aliados da Al-Qaeda, como milícias e grupos terroristas. Em um relatório, a Al-Qaeda foi identificada como envolvida em um plano para fabricar cargas de armas químicas para granadas propelidas por foguetes.

Os documentos também mostraram que funcionários de empresas privadas contratadas pelos Estados Unidos para missões no Afeganistão estavam se envolvendo com pedofilia e contratando “prostitutos mirins”. 

Em junho de 2009, a Embaixada dos Estados Unidos no Afeganistão enviou um telegrama para Washington, sob a assinatura de Karl Eikenberry (embaixador na época), relatando fatos discutidos em um encontro entre Joseph Mussomeli – chefe assistente na Embaixada- – e o ministro do Interior afegão Hanif  Atmar. Entre as questões discutidas, estava o que os diplomatas delicadamente chamavam de “Problema Kunduz DynCorp”.  Kunduz é uma província do norte do Afeganistão e DynCorp é a empresa em questão. Para ler o telegrama completo, clique aqui

Muitos dos funcionários da DynCorp são  veteranos e a empresa foi contratada pelo governo dos Estados Unidos para fornecer treinamento à polícia afegã.  De acordo com a maioria dos relatórios da época dos vazamentos, mais de 95% de sua receita anual de 2 bilhões de dólares vem dos contribuintes americanos através de impostos. A DynCorp também se envolveu em um escândalo de escravidão e abuso sexual de crianças na Bósnia e Herzegovina em 1999. Na província de Kunduz, de acordo com este telegrama, esse dinheiro estava indo para traficantes e cafetões.  Cafetões de crianças, para ser mais precisa. No telegrama, o “problema” em questão era este:

1. Em uma reunião de maio de 2009, o ministro do Interior, Hanif Atmar, expressou profunda preocupação com a possibilidade de que vidas corram perigo se a notícia vazar de que os treinadores da polícia estrangeira que trabalham para a empreiteira comercial norte-americana DynCorp contratam “dançarinos mirins” para se apresentarem.

Existe uma tradição no Afeganistão destes “dançarinos mirins”. Meninos são comprados e traficados nacionalmente, vestidos como mulheres e forçados a dançar, em festas exclusivas para homens.  Muitas vezes, eles são estuprados ou mortos. Essa tradição também é chamada localmente de Bacha Bazi

O telegrama contribuiu para que certas demandas do governo afegão fossem ouvidas, entre elas, a limitação de poder de empresas contratadas pelo Exército dos Estados Unidos. 

O ministro, de acordo com o telegrama, “estava convencido que o incidente em Kunduz, e outros eventos relacionados onde funcionários obtiveram acesso a drogas, não aconteceriam sem ajuda afegã”. Além disso, o ministro também disse que “dois policiais afegãos e nove outros civis foram presos em decorrência das investigações de um crime descrito por Atmar como “‘comprar um serviço de uma criança’“. Ou seja, pedofilia e solicitação de prostituição infantil. 

Assim como o vazamento de documentos da guerra do Iraque, Kabul War Diary apresenta ao público todos os erros – e crimes – que o governo dos Estados Unidos pretendia esconder. Usando dinheiro público para promover assassinatos de civis, esconder ações de grupos terroristas, crimes de guerra e humilhações como a tal “Solatia”, porém sem o conhecimento do público.

Sob o pretexto de “parar o Talibã” e outros grupos terroristas e extremistas, o exército norte-americano devastou mais um país no Oriente Médio, impulsionando o extremismo dentro destes mesmos grupos que pretendiam exterminar e destruindo vidas de milhões de civis no caminho.

A guerra do Afeganistão ocorre até hoje, mesmo com uma redução extrema de oficiais norte-americanos. O povo afegão nunca foi ressarcido por todo o estrago feito pelo Exército dos Estados Unidos e pelas forças de coalizão estrangeiras – assim como o povo iraquiano, iemenita, somaliano, sírio e todos que possuíram sua terra invadida e devastada.

Aqui, se deve ficar extremamente claro que defender o povo de tais países não equivale a defender seus governos, muito menos os grupos extremistas que participam ou controlam tais países. O terrorismo deve sim, ser parado e controlado, porém todas as tentativas dos Estados Unidos de fazer qualquer um dos dois claramente não funciona há mais de uma década. Não cabe a mim decidir qual maneira seria ética e realística, mas somente criticar o que foi feito lendo os documentos do WikiLeaks.


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Nota: em 2021, os Estados Unidos oficialmente anunciaram retirada do Afeganistão.

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