O projeto de apagamento de Julian Assange

Criador do site WikiLeaks, desde 2006, que expôs inúmeros escândalos governamentais, principalmente dos Direitos Humanos em guerras – como foi na Guerra do Iraque, o seu fundador conseguiu asilo político na Embaixada do Equador em Londres. Permaneceu sob a soberania equatoriana até 2019, quando o governo resolveu negar seu refúgio – dado a um governo de direita pró-EUA que fora eleito em 2017. Com isso, Assange será julgado em 4 de janeiro de 2021.

Embora evidentemente seja de notória importância o julgamento de Julian Assange, no que tange à geopolítica, uso de dados e espionagem internacional, pouco se fala sobre isso. A história de Assange não é nova, inclusive, muitos julgam seu caráter, principalmente no âmbito pessoal, para justificar sua prisão. Nesse contexto, é preciso entender que Assange está sendo arbitrariamente preso pelo vazamento de informações de governos no Wikileaks, visando, principalmente, o fim da veiculação das notícias e sua intimidação.

Esse é um fato importante a ser mencionado sobre os Direitos Humanos: eles são direitos nos quais os Estados-nações- assinantes da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 – comprometem-se em exercer, para todos os indivíduos. Isso, assim como exposto no Artigo 2 – inciso 1- independe de qualquer “distinção de qualquer espécie”.

Artigo 2

Todo ser humano tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição.

Mais especificamente sob o caso de Assange, inúmeros outros artigos também foram violados, tendo em vista sua prisão notavelmente arbitrária, seu julgamento claramente imparcial e problemático – infringindo os Arts. 8, 9, 10 e 11. Além disso, os amigos e familiares dele também foram ameaçados, sendo uma clara ameaça ao Art. 12. Tendo em vista o exposto, é evidente a problemática do julgamento, mas vamos nos atentar aqui a uma pergunta: a situação de Assange não é tratada na internet e tem uma tímida cobertura, principalmente no Brasil, por quê?

Notadamente, a tentativa de prisão de Assange é um fenômeno político, sendo utilizado para promover o apagamento de sua voz e de seu pensamento. Ao expor os absurdos cometidos por inúmeros governos, Assange se tornou um “perigo” – principalmente pelos Estados Unidos – que detém de um aparelho de espionagem em nível mundial exposto no WikiLeaks. Todavia, o mais grave ainda acerca do julgamento de Assange é o seu apagamento midiático e o projeto de esquecimento de sua figura. Bauman dizia que, em um mundo de informação e hiperconexão como o nosso, não estar nas redes é semelhante à morte.

Justamente foi isso que ocorreu com Assange, seu apagamento das redes sob seu julgamento é a morte de seu legado.

Além disso, com o apagamento de Assange, outros possíveis futuros apoiadores nunca o conheceram, impedindo que o apoiassem e que ele entrasse também para a história, seja pela figura da resistência, seja pela figura do mártir.

Embora o mundo das redes sociais seja repleto de informações e dados, nem todos são convenientes de serem transparentes. Com a tentativa de Assange de retirar a roupagem neutra dos governos e escancarar seus escândalos, rapidamente ele saiu da figura de um jornalista ativista, para um criminoso. A veiculação de informações na contemporaneidade, sem dúvidas, ampliou-se, como também os recursos de controle desses dados e a manipulação dos usuários.

Há outro paradoxo: enquanto se vive o século XXI baseado nos estados democráticos, há uma roupagem autoritária por parte dos Estados.

Muito embora os Estados Unidos se afirmam como o berço da democracia mundial, a liberdade de expressão é, muitas vezes, cerceada. Por mais inconcebível, a transparência e a democracia não seguem o mesmo ritmo e sites como WikiLeaks representam uma ameaça a esse sistema.

Se o ano de 2020 não foi fácil nem em âmbito nacional, nem em âmbito global, 2021 também não se inicia bem para a liberdade individual. Como dito por Sofia Schurig nesse artigo, é preciso se posicionar acerca da questão e cobrar mudanças.



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