O silêncio brasileiro diante o cerceamento da liberdade jornalística.


Para compreender a importância do julgamento de Julian Assange e seu veredito semana que vem, precisamos falar de alguns pontos essenciais como a moralidade, o ultra-nacionalismo e o direito internacional. Em 2016, o WikiLeaks foi responsável pela publicação de milhares de e-mails da ex-candidata à presidência pelo partido Democrata, Hillary Clinton. Com a eventual perda […]


Para compreender a importância do julgamento de Julian Assange e seu veredito semana que vem, precisamos falar de alguns pontos essenciais como a moralidade, o ultra-nacionalismo e o direito internacional. Em 2016, o WikiLeaks foi responsável pela publicação de milhares de e-mails da ex-candidata à presidência pelo partido Democrata, Hillary Clinton. Com a eventual perda de Hillary, muitos de seus apoiadores acusaram tanto Assange, quanto o WikiLeaks, de publicar as informações com intuito de beneficiar o candidato de extrema-direita e atual presidente Donald Trump. 

Aqui, entramos em um dilema moral muito importante na geopolítica, que é: devemos nos preocupar com quem uma informação beneficia, ou deixa de beneficiar, no universo dos vazamentos de dados? Um funcionário de uma agência governamental deve se preocupar com “quem isso irá favorecer ao ser publicado“? Ou se preocupar em expor, por exemplo, que o governo norte-americano havia falhado em reportar dezenas de estupros, assassinatos e casos de tortura por seus oficiais do Exército dos Estados Unidos, durante a Guerra do Iraque? Porque isto de fato ocorreu, sendo divulgado em Cablegate, dez anos atrás.

Devemos nos preocupar com a segurança dos Estados Unidos, ou com as vinte e duas crianças presas em Guantánamo que foram torturadas e traumatizadas pelo resto de suas vidas? Novamente, isto ocorreu e foi divulgado nove anos atrás em “Gitmo Files“. O meu questionamento é porque estes são contra a exposição destes fatos preferem jogar um ativista inocente na cadeia pelo resto de sua vida, ao invés de sofrerem com as consequências de seus atos? Devemos nos importar com os criminosos ou com as vítimas? 

Existem pessoas em administrações, passadas e atuais, responsáveis por crimes de guerra e devem ser punidas, não se tornarem presidentes. Sim, estou falando de Joe Biden. Biden foi a única alternativa contra Donald Trump, mas só isto. Toda sua campanha foi baseada no fato de ele não ser Trump, o que é ótimo, mas agora ele é presidente. E agora, ele deve ser relembrado de todas as guerras que ajudou a iniciar, muitas estas que ocorrem até os dias de hoje. Não podemos mais cambalear entre o pior e o péssimo, é necessário acabar com as décadas de impunidade. Atos simples do cotidiano político podem contribuir para a cobrança diária nesses quesitos, como o ato de não se importar com que governo é prejudicado com um vazamento sobre uma guerra, mas com as vítimas e o povo desta nação

Se o “vale tudo” da guerra funcionasse, o número de atentados terroristas não teria crescido desde o onze de setembro. O número de jovens recrutados para organizações extremistas, de todas as religiões, não teria aumentado. Aliás, o número de pessoas ao redor do mundo que se consideram “anti-americanas” não teria aumentado, como mostra esta pesquisa do Instituto Pew Research. Uma outra pesquisa do mesmo Instituto também mostrou que a confiança global nos Estados Unidos decaiu desde a posse de Donald Trump. Isto ocorreu porque Trump é um lunático, ou, porque as instituições do país são frágeis o suficiente para desmoronarem algumas vezes enquanto um lunático esteve no poder? 

Se a confiança global no país é tão decadente, isso é somente mais um motivo para acabar com a impunidade. Tudo isto está intrinsecamente ligado ao julgamento de Julian Assange. Se generais, comandantes, oficiais, soldados, guardas prisionais, agentes de inteligência e todos os envolvidos em todos os crimes comprovados através dos vazamentos tivessem sido punidos, o julgamento não ocorreria. Claro, primeiramente porque neste cenário utópico, não posso nem afirmar que os Estados Unidos ainda existiriam, mas, porque a percepção do país mudaria internacionalmente. Nenhuma autoridade e nenhum tribunal internacional permitiria que um ativista australiano fosse extraditado para passar o resto de sua vida na cadeia. No próprio Reino Unido, um, a cada seis cidadãos quer que o governo interfira na possível extradição.  

Falar do ultra-nacionalismo dos Estados Unidos é extremamente necessário aqui. Para eles, é inimaginável que uma pessoa tenha a coragem de se posicionar contra os Estados Unidos, ou ao menos contra suas ações. Eu não sou contra os Estados Unidos, sou contra toda a estrutura governamental que permite violações humanitárias diariamente, perseguições de ativistas, mortes de comunidades minoritárias  e o aprisionamento de crianças. Ser contra isto não é ser contra ao povo norte-americano, mas uma estrutura que, infelizmente, sustenta a muitos.  Mas é notável que qualquer afirmação como esta te torna anti-Estados Unidos, um opositor. Se estivéssemos na guerra fria, todo este artigo seria considerado como insurgente. Isto precisa parar. 

Isto precisa parar, especialmente, na maneira em que a mídia comercial os retratam aqui no Brasil. Lembro-me de quando eu era pequena e meu sonho, e de muitos colegas, era viajar para os Estados Unidos. Havia uma utopia infantil generalizada por conta da cultura que nos é dada pelos filmes e pelo noticiário comercial, em geral. Hoje, eu sinto horror só em pensar de ir para lá em uma oportunidade de trabalho hipotética, porque só consigo me lembrar de absolutamente tudo que li nos documentos do WikiLeaks. É necessário parar de romantizar toda esta cultura, porque ela influencia nosso cotidiano e inevitavelmente, nossa política. Quantos dos leitores deste artigo se lembravam do WikiLeaks? Ou de Julian Assange? Ou ao menos sabiam que seu julgamento seria semana que vem? 

Se você não acompanha com frequência essas informações por vontade própria, é muito provável que não saberia. Isso ocorre porque não há um movimento brasileiro contra a extradição de Assange, como existe em muitos países da Europa e da América Latina. A romantização dos Estados Unidos é o suficiente para barrar qualquer manifestação de apoio por parte dos grandes jornais brasileiros. Sejam eles de esquerda ou de direita, antes que me questionem. Políticos e jornalistas tão críticos contra Bolsonaro e ao seu posicionamento contra a imprensa estão em silêncio sobre este caso? Por que motivo? 

De maneira alguma quero esconder o fato de que alguns políticos e jornalistas apoiaram o ativista publicamente. Entre eles, o próprio ex-presidente Lula, que, em entrevista a um programa do Reino Unido, disse: “Queria dizer que todas as pessoas que acreditam, todas as pessoas que acreditam em direitos humanos, que todas as pessoas que acreditam na justiça não podem permitir que o Assange seja extraditado”. 

Lula é um dos poucos políticos brasileiros que se manifestou publicamente a favor de Assange e ele está completamente correto. Mesmo com todas as minhas críticas ao ex-presidente, este julgamento não deve ser transformado em algo ideológico. Estamos tratando de um julgamento nunca antes visto no direito internacional, não de uma briga entre esquerda e direita. 

Por este motivo, me choca que não estamos discutindo isto frequentemente, todos os dias. Nós estamos vendo algo que nunca ocorreu em toda a história, sabendo o destino e não fazendo nada. Nenhum jornalista, independente ou comercial, possui o poder para mudar este julgamento e isso é um fato. Mas pequenas ações não mudariam ao menos a opinião do público brasileiro? Que ao menos analisem através da obsessão pelo presidente Jair Bolsonaro. O povo brasileiro não deve saber quem é o país mais amado pelo presidente? Não deve saber quem é o exército que ele bateu continência, anos atrás? 

Que ao menos analisem através da obsessão midiática – justa – pelo presidente Jair Bolsonaro. O povo brasileiro não deve saber como é de fato o país mais amado pelo presidente? Não deve saber quem é o exército que ele bateu continência anos atrás? 

Viver no Brasil é viver onde instituições não possuem poder, deputados e senadores não possuem poder, autoridades policiais falham constantemente e notas de repúdio não conseguem conter o próprio presidente da República. Quem iria impedir que isso ocorresse no Brasil? As redes sociais? Se você pensa que sim, isto é uma ilusão, porque ninguém virá nos salvar, da mesma maneira que ninguém veio nos salvar diante todos os crimes de responsabilidade do presidente da República durante a atual pandemia de coronavírus. Temos mais de cento e noventa mil mortos, alguém impediu que isto ocorresse.

Só este ano, o Governo Federal montou uma lista de “detratores” a pedido do Ministério da Economia. Pode ser ridículo — e é — mas também é perigoso, somente pela existência de uma linha tênue entre perseguição e monitoramento, algo que a administração brasileira atual gosta de alternar. É necessário defender uma imprensa livre que possa questionar e expor todos os lados do espectro ideológico, todas as empresas privadas e todas as figuras públicas. 

É necessário que whistleblowers e jornalistas que divulguem dados não tenham sua liberdade cerceada, ou sejam assassinadas, como foi o caso da jornalista maltanesa Daphne Caruana Galizia, que auxiliou na divulgação dos Panamá Papers três anos atrás e foi assassinada após uma bomba explodir em seu veículo. Se você é alguém que deseja transformar o mundo em um lugar melhor, assim como o Brasil em um país melhor, não é cabível que após ler todos os artigos publicados neste Especial, você não sinta a menor indignação.

Não é cabível que lendo o artigo “As vinte e duas crianças de Guantánamo”, onde explico a vida de cada uma das vinte e duas crianças presas na prisão de Guantánamo pelos Estados Unidos, você acredite que este deve ser um exemplo a ser seguido. Se ler cada palavra de como essas vinte e duas crianças foram torturadas e traumatizadas não te indigna, eu não sei mais como te explicar que os seres humanos devem se importar uns com os outros. Não sei nem se sou capaz de te explicar que crianças não devem ser torturadas, sob nenhuma hipótese e em nenhum país.

Mas agora, eu gostaria de explicar as sérias consequências de uma possível extradição e condenação de Assange. Um dos princípios do jornalismo é cobrar autoridades. Relatar ocorridos, reportar crimes, cobrar responsabilidade. Este princípio está agora sendo ligado a atividades criminais, já o vazamento de documentos secretos se tornou mais importante do que o conteúdo destes vazamentos. Essa é uma das maiores tentativas de silenciar o jornalismo que o mundo já viu. 

Se um australiano pode ser preso pelo resto da vida nos Estados Unidos por ajudar a divulgar documentos relatando crimes, porque um norte-americano deve se sentir seguro? Ou qualquer pessoa, na verdade? A legislação internacional de extradição já é em si somente um ato simbólico. É extremamente difícil que um país interfira na extradição de um indivíduo, justamente porque pode gerar conflitos geopolíticos, especialmente quando um país tão poderoso está envolvido. 

Até que momento os jornalistas poderão confiar que não serão extraditados e presos em qualquer país que escrevam uma reportagem crítica? Porque afinal, nós vivemos em um período de ascensão da extrema-direita, onde um de seus princípios sempre foi acabar com a liberdade de imprensa. Além disso, nenhum país deseja sofrer sanções econômicas de países como os Estados Unidos ou o Reino Unido. Será mesmo que um país como o Brasil atual evitaria a extradição de um jornalista e arcaria com os prejuízos de atritos diplomáticos e sanções econômicas? Mas é óbvio que não. 

Nenhum jornalista, ativista ou militante se sentirá seguro – fisicamente, psicologicamente e monetariamente – de arcar com todos os prejuízos vindos disto, mas estes prejuízos não deveriam existir. Denunciar crimes não lhe torna um criminoso, pelo menos em democracias. 


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