O vício da relativização


Enquanto lia “As Crônicas de Fogo e Gelo” e, depois, assistindo a “Game of Thrones”, eu não conseguia parar de me fazer uma pergunta em especial: qual das irmãs Stark sofreu mais, Arya ou Sansa? Curiosamente, esse é um tipo de questionamento que eu não só faço a todo momento, mas observo muitas pessoas ao […]


Enquanto lia “As Crônicas de Fogo e Gelo” e, depois, assistindo a “Game of Thrones”, eu não conseguia parar de me fazer uma pergunta em especial: qual das irmãs Stark sofreu mais, Arya ou Sansa? Curiosamente, esse é um tipo de questionamento que eu não só faço a todo momento, mas observo muitas pessoas ao meu redor seguindo essa tendência de relativizar seu próprio sofrimento ou o de terceiros. Estranho como nós temos essa mania (consciente ou inconsciente) de querer medir o imensurável, não é?

Vou tentar resumir a antítese entre essas irmãs, a qual me fez ficar tão encucada, com o mínimo de detalhes possível, então não se preocupe com grandes spoilers dos livros ou da série. Bem, se, por um lado, Sansa cresceu como a lady ideal – pronta para ser bela, recatada e do lar, de acordo com o que os tempos medievais de Westeros exigiam das mulheres da nobreza –, por outro, Arya era um caso perdido. A caçula estava sempre se comportando mal e mostrando interesse demais nas atividades “masculinas”, como lutas de espada e arco e flecha. Ao que parece, Sansa havia nascido para ser a Senhora de um castelo, já Arya, para ser uma guerreiraum tabu enorme no contexto em que se passa a história. Enfim, devido à série de acontecimentos que tece a rede de conflitos da história, os caminhos trilhados pelas irmãs bifurcam-se e elas acabam se separando: Sansa é feita de refém na Fortaleza Vermelha e Arya está em fuga.

A partir daí, já não conseguia mais tirar da cabeça a comparação entre as situações vividas pelas meninas Stark. Sansa, que cresceu aprendendo a ser obediente, mansa e quieta, conseguiu sobreviver aos abusos em Porto Real (a capital do reino) porque quase nunca levantava sua voz, sempre passando pelas crueldades calada [um fator que, para ser sincera, deixa o leitor/telespectador muito irritado com ela nessas temporadas iniciais, fazendo-o esquecer que Sansa é apenas uma criança presa em meio a uma guerra]. Arya, no entanto, tem sua espada e sua coragem ao seu lado, e, mesmo sendo ainda mais nova que a irmã, consegue fugir e, quando necessário, lutar pela sua vida. Contudo, duvido que elas viveriam muito se os lugares estivessem trocados – a caçula como refém e a mais velha fugindo.

“Você não sobreviveria ao que eu sobrevivi”

Ou talvez não. Talvez Arya conseguisse destruir os inimigos de sua família do interior do castelo em que estaria capturada. Talvez Sansa, após sua fuga, conseguisse firmar uma aliança de casamento com alguma grande casa e, assim, juntasse tropas suficientes para derrotar seus inimigos. O fato, porém, é: nós nunca saberemos. Na série, as próprias irmãs chegam a ter essa discussão, o que se revela infrutífero, já que nenhuma das duas sabe os detalhes da realidade vivida pela outra [além disso, não é possível fazer algo como voltar ao passado, por exemplo, para testar as habilidades de sobrevivência de ambas, só que com seus papeis invertidos].

Eu já tive minha cota de conversas sobre esse tema, logo minha conclusão é direta: tentar relativizar o sofrimento humano é praticamente inevitável; o que nos resta é tomar cuidado. Quantas vezes não somos tomados por ansiedade, medo, tristeza, etc. e, ao desabafar com alguém, ouvimos a conhecida frase “Você devia ser grato por ter tudo o que possui, considerando que tantas pessoas por aí não têm casa, família, comida, cama…”. Contudo (pelo menos boa parte de) nós reconhecemos nossas vantagens e somos gratos, sim. Talvez a gratidão não seja o sentimento dominante em 100% das ocasiões, mas, quando o sofrimento luta para tomar conta de nós, tentar afastá-lo com pensamentos de agradecimento (e comparações de sofrimento) nem sempre ajuda. De que adianta dissipar uma nuvem escura que estaciona sobre nossas cabeças se isso fará apenas com que ela retorne – com ainda mais estresse e tristeza acumulados? Acima de tudo, de tanto ouvir falas como essa, acabamos nos acostumando a pensar coisas do tipo “Muitas pessoas estão em uma situação pior que a minha”, mas o quão absurdo é o fato de que imaginar o sofrimento dos outros nos serve de consolo? Quando nós deixamos essa insensibilidade ser normalizada?

Não há utilidade em tentar comparar ou ranquear as dores por que passamos em relação às do resto do mundo. O que podemos – e deveríamos – fazer, claro, é reconhecer e respeitar. Apontar o dedo para alguém enquanto pensamos (ou, pior, falamos) “Você está sofrendo mais” ou “Sou eu quem está sofrendo mais” não vai levar a lugar algum. As peles em que vivemos são as únicas que conheceremos até nossas mortes (a menos que sejamos wargs) e, por isso, o que nos resta é reconhecer as dores dos outros e oferecer apoio – ao invés de usa-las como consolação. Afinal, como a relativização do sofrimento nunca chegará a conclusões precisas, quando insistimos em fazê-la, estamos apenas correndo em círculos, que sempre nos levarão ao mesmo lugar: nossa hipocrisia particular e o eterno devir de nossas dores.


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