As mortes são números no Brasil

No Brasil contemporâneo, mais precisamente com a Pandemia de Covid-19, evidenciou-se um repleto descaso com a morte, seja por parte do presidente – que adota um tom negacionista, prescreve medicamentos milagrosos sem conhecimento técnico e promove aglomerações – seja pela população que também desrespeita as recomendações. Além disso, ocorre pelo próprio Estado, que não fornece a infraestrutura adequada para diminuir a transmissão do vírus. Enxergando de uma perspectiva ainda mais ampla, o próprio sistema capitalista, que apresenta como única finalidade o lucro e não a vida, também corrobora para esse cenário.

De qualquer forma, este texto não irá abordar a pandemia e as causas em si, mas sua principal consequência: a morte e a morte da morte. Para isso, vou recolher a uma notícia veiculada no G1 durante as comemorações de Fim de Ano, cuja manchete é a seguinte e está disponível aqui:

Aeroporto de Trancoso tem ‘congestionamento’ de jatinhos

É indubitável que a possibilidade econômica de possuir ou voar um “jatinho” não é acessível a todos. Na verdade, apenas a elite econômica do país tem esse privilégio e essa mesma parte da população apresenta fácil acesso a informação e escolarização para haver compreensão. Mesmo assim, cenas de aglomeração e desrespeito aos protocolos de saúde tornam-se frequentes nas redes sociais e também passaram a ser reproduzidas fora da camada mais rica da população.

Para além da barbárie durante a pandemia, esse fenômeno não é novo. Em terras brasileiras, as mortes tornaram-se números faz tempo, desde a exploração de almas durante a escravização de pessoas. Em um país moldado no racismo estrutural, na desumanização dos corpos e, portanto, da morte, a “morte da morte” é presente.

Mais hodiernamente, as vítimas de homicídio – que, segundo o Atlas da Violência, somaram 62.517 pessoas em 2016 – também são apagadas e tornam-se números. Entre essas vítimas, inúmeras crianças – majoritariamente negras –, como João Pedro e Ágatha, são mortas nas comunidades periféricas e, muitas vezes, tais mortes são causadas pela própria polícia, que tem o dever de proteger vidas. Essa dor é retratada por Conceição Evaristo em seu conto “Zaíta esqueceu de guardar os brinquedos”:

“Balas, balas e balas desabrocharam como flores malditas, ervas daninhas suspensas no ar. Algumas fizeram círculos no corpo da menina. Daí um minuto tudo acabou. Homens armados sumiram pelos becos silenciosos, cegos e mudos. Cinco ou seis corpos, como o de Zaíta, jaziam no chão”

Dado o exposto, o descaso com a morte no mundo, em especial no Brasil, não é recente. Mas não é por isso que esse fenômeno pode ser naturalizado. Organizações da sociedade civil são essenciais na humanização das vítimas, como é o caso do Movimento Negro, que cobra a justiça das vítimas de racismo. Na pandemia, vale destacar o Memorial Inumeráveis, que desempenha esse trabalho por meio da construção de texto-tributos com as memórias do ente perdido.



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