Lembrar o passado, mudar o futuro


No ensino médio, escrevi um texto modelo Enem sobre o incêndio no Museu Nacional e decidi inicia-lo com esse trecho de “Waterloo” [pois é, eu escolhia citações muito estranhas para as minhas redações]. Mas não quero que a prova da escola seja o único lugar em que eu escreva sobre esse assunto, pois, ainda que não eu seja uma estudiosa da ciência, tenho, sim, medo do que pode acontecer se a humanidade continuar a se manter na ignorância do passado.


“O livro de História na estante está sempre se repetindo”

No ensino médio, escrevi um texto modelo Enem sobre o incêndio no Museu Nacional e decidi inicia-lo com esse trecho de “Waterloo” [pois é, eu escolhia citações muito estranhas para as minhas redações]. Mas não quero que a prova da escola seja o único lugar em que eu escreva sobre esse assunto, pois, ainda que não eu seja uma estudiosa da ciência, tenho, sim, medo do que pode acontecer se a humanidade continuar a se manter na ignorância do passado.

Primeiramente, consideremos “Dark”, uma série alemã que gira em torno da viagem no tempo. O conflito da trama poderia ser resolvido muito facilmente se os personagens ao menos pudessem saber o que acontecera nos ciclos de tempo passados. Se o Jonas (Louis Hofmann), no ano de 2019 do segundo ciclo, por exemplo, soubesse o que acontecera ao Jonas em 2019 do primeiro ciclo, a confusão talvez fosse resolvida em um piscar de olhos. Apenas uma escolha diferente – isto é, que não fora tomada pelo Jonas do ciclo anterior – poderia poupar os personagens do sofrimento. Claro, não havia como o garoto saber o que aconteceu no ciclo anterior, contudo, na vida real, a História não é constituída de ciclos separados. Livros, pessoas, histórias, filmes, séries: tudo isso está aí para que nós possamos aprender com as falhas cometidas antes mesmo de nascermos e para que possamos, assim, evitar que elas sejam repetidas e afetem muito mais pessoas. Então, por que raios a humanidade ainda insiste em ignorar essas vivências e em tentar aprender “na marra”, cometendo os mesmos erros wieder und wieder?

A vida real não é “Dark”. Basta uma simples olhada nos livros da escola e nós podemos ver que os humanos vêm se mantendo em um estado de constante e repetitiva condenação. Em 2018, as falas de políticos – e, inclusive, de parte do povo – assustavam aqueles que estudavam um pouco da História dos momentos de crise que antecederam desastres políticos. Não estou, aqui, tentando igualar Bolsonaro a Hitler (imagem essa comum, principalmente desde as campanhas eleitorais de dois anos atrás), mas precisamos reconhecer o quão perigosas são as falas que ouvimos, sobretudo, da seção da direita que parecia estar tentando encarnar, em um homem, a resolução de todos os problemas do país. Homem esse que não foi a resolução de nossos problemas, nem nossa salvação, nem nosso messias. O que estou dizendo é que, caso fazer análises dos impactos do passado sobre o presente fosse uma prática comum, nós poderíamos ser cidadão mais eficazes em nossos julgamentos.

A situação da Covid19 já é outra questão importante, afinal, vivemos em meio a uma conjuntura infelizmente marcada pelo negacionismo científico. Seja ele incorporado pelo movimento antivacina, pelo terraplanismo ou pela defesa de que o coronavírus foi criado em laboratório, o fato é que a cultura de teorias da conspiração parece não ser mais a mesma daquela época em que se acreditava que canetas Bic eram alienígenas. Todos nós estamos loucos para que uma cura milagrosa chegue logo, então ficamos vulneráveis a jogos de poder envolvendo medicamentos, vacinas, culpados e soluções.

Assistindo a “Chernobyl”, por exemplo, eu achei curioso ver tantos políticos ouvindo as palavras de Valery Legasov (Jared Harris) e simplesmente dizendo que não, a situação não era tão alarmante assim e as medidas de contenção que ele estava propondo eram desnecessárias. O homem com a maior autoridade científica dentro daquela sala estava sendo calado por aqueles que mal entendiam como a Usina de V. I. Lenin funcionava.

A descrença na ciência privou a URSS da possibilidade de conter, de antemão, os danos da explosão de 1986. Ainda na série, ouvimos sobre como, pouco depois de ser descoberto o alastramento dos impactos do acidente nuclear, os alemães são ordenados a ficarem em casa para evitarem a contaminação. Enquanto isso, o povo russo estava sendo mantido sem conhecimento da real gravidade da situação e, por causa disso, até aqueles que moravam em cidades próximas à usina estavam vivendo suas vidas normalmente e sem grandes preocupações – ainda que estivessem sendo constantemente expostos a quantidades enormes de radiação. Tudo bem que eu passei boa parte de “Chernobyl” perguntando-me coisas como “O quanto disso é baseado nas informações que a URSS deixou serem divulgadas?”, “O quanto das informações divulgadas pela URSS são verídicas?”; mas, seja lá qual for o percentual de veracidade da série, o fato é que, agora, mesmo que nós tenhamos acesso à informação suficiente para que saibamos a seriedade, os avanços e as atualizações dessa conjuntura global, muitas pessoas ainda preferem a descrença seletiva – que tem tido o potencial de prejudicar a saúde de inúmeros por pregar as curas milagrosas que nós tanto sonhamos que sejam descobertas.

Acho que nós nunca vamos aprender a aprender com o que aconteceu. Preferimos errar nós mesmos para aprender na prática, não é? E, assim, o livro de História continua a se repetir.


Tem uma pauta?
Estamos aqui

Toda ideia tem o potencial de ser uma boa ideia. Gostamos de ouvir ideias de pauta, denúncias ou sugestões de nossos leitores. Se quiser compartilhar, conte conosco — e olha, pode ser totalmente anônimo, tá?


  • Após infiltração, grupos bolsonaristas no Telegram reforçam moderação

    Após infiltração, grupos bolsonaristas no Telegram reforçam moderação

    ,

    Dois dias após o primeiro turno das eleições, usuários de esquerda passaram a infiltrar grupos bolsonaristas no Telegram. O resultado foi o reforço da moderação por parte dos administradores, e a aposta em teorias conspiratórias.

  • Todo fascista é corno

    Todo fascista é corno

    ,

    Não é difícil entender que a vontade de escrever é nula, assim como a vontade de acordar, sair da cama e realizar que esse bando de corno não tem mais medo de cantar aos quatro ventos: “sou fascista na avenida e minha escola é a mais querida dos reaça nacional!”.

  • No Telegram, bolsonaristas espalham fake news sobre eleitores mortos votando no Nordeste

    No Telegram, bolsonaristas espalham fake news sobre eleitores mortos votando no Nordeste

    ,

    Grupos bolsonaristas no Telegram reforçam táticas xenofóbicas e criam fake news sobre eleitores mortos votando no Nordeste.

  • Anunciando um novo modelo: notas

    Anunciando um novo modelo: notas

    Anunciamos as notas, reportagens curtas sobre temas relacionados às eleições de segundo turno.

  • A falta da política externa

    A falta da política externa

    , ,

    Às vésperas da eleição mais importante desde a redemocratização, e ainda sob efeito da ressaca moral que assola o país após o clássico debate presidencial da Rede Globo, a ausência da política externa como pauta de discussão demonstra o enorme apequenamento do Brasil.

  • Pesquisa aponta que norte-americanos desaprovam  apoio militar na Ucrânia

    Pesquisa aponta que norte-americanos desaprovam apoio militar na Ucrânia

    , , ,

    Muitos americanos pensam que Biden deveria se apressar e encontrar um acordo diplomático. Mas para os apoiadores da Ucrânia, seja à esquerda ou à direita, a resposta é que Biden se apresse e vença, dando à Ucrânia mais ajuda militar e aceitando mais riscos.

Seja notificado de novas publicações, assine.

Ao se inscrever, o WordPress te atualiza gratuitamente toda vez que publicamos algo novo. Assim, você pode acompanhar nossa redação! Não se esqueça de nós seguir nas redes sociais.

A revista o sabiá é um veículo de mídia independente e sem fins lucrativos criado e equipado por jovens. Buscamos usar o jornalismo e a comunicação como um mecanismo de mudança do futuro das novas gerações.