Se não fosse a trajetória da emoção, ela não pensaria nas mais diversas formas de descrever o que sente. Sem diagnóstico, sem formular; apenas pela imensa e eterna questão que lhe aflige: o que estamos fazendo aqui? – Insistente na sua retórica, desejava que, quando a dor a acometesse, alguém denotasse o ponto exato a que ela se referia, pois tudo o que sentiu, sentiu sozinha – ainda que rodeada de pessoas para quem explicasse, elaborasse e expressasse a força de alguns sentimentos que iam surgindo e a marcando. Não sei mais de quem falo. São muitas. É tão vasto. Ao surgir um incômodo cujo nome, a principio, não soubesse, contorcia-se inteira.

Dizia assim: – Algo acontece e incomoda. E, logo em seguida, surge a necessidade das pessoas; algumas delas, somente as que tenham a sabedoria necessária entre o julgamento e a ponderação. Sim, ela tinha muita necessidade de ser ouvida, mas também de ser questionada, ser pesquisada e de que, na verificação, encontrassem alguma coisa que resolvesse e iluminasse a escuridão da própria existência.


De todos os modos que escolheu ser, o maior deles é ser alguém que vive de saudades.
Nostálgica daquelas que vira e mexe, vê-se em meio ao caos das lembranças vividas que já não fazem mais sentido. Os seus livros de cabeceira são uma boa companhia, mas, como é sabido, não dão conta do preenchimento permanente. Ah, solidão? Bom, quem a experimenta sabe que ela se desdobra em várias fases. Uma delas é robusta, fala sobre o exílio do indivíduo na sua estrutura, mas, em segundos, ele vê-se injuriado com a necessidade do outro emergindo junto ao seu próprio ser. Tudo bem ser sozinho e solitário desde que te enxerguem, não é? Porque, se for assim, sabemos: não dá para ser. Sustentar uma vida que nada toca e nada vê é morte e esquecimento.

Por isso não incomoda. Ela existe como um hábito diário sobre o qual não se reflete. É automático. Pulsional. O problema maior é o surgimento do outro. É que viver dói. Minha tia disse isso uma vez, e acho que ela provavelmente não lembra, pois há tempos não nos falamos. Aliás, nunca tivemos tanta intimidade assim. Nos encontramos algumas vezes e ela não sabe como essa frase ressoou em mim e atravessou o tempo nas entrelinhas do que foi dito. Eu entendi, e ela nem sabe. Dói mesmo, tia. E, de tanto doer, às vezes eu escrevo. Nem sempre. Na maioria dos dias, eu apenas existo. Não se nasce com métodos e não se morre com métodos e há quem diga que a condição de vida ideal é fazer academia e não fumar. Eu não faço academia e fumo muito e eis-me aqui, viva, cheia de sentimentos aflorados e inundada de tantas coisas que não se resolvem com academia e ausência de vícios.


Mas, agora, de alguma forma, sinto-me aliviada. O peso se desfez.
Parece uma tentativa de destruir certos sentimentos, não sei.
O pior é que não dura. Amanhã começa tudo de novo.

Sabiá

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