O sempre outro geográfico

Nos dois últimos parágrafos de “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, tece-se a seguinte fala:

E andavam para o sul, metidos naquele sonho. Uma cidade grande, cheia de pessoas fortes […]. Chegariam a uma terra desconhecida e civilizada, ficariam presos nela. E o sertão continuaria a mandar gente para lá. O sertão mandaria para a cidade homens fortes, como Fabiano, sinha Vitória e os dois meninos.

Embora publicado em 1938, o cenário descrito por Ramos, lamentavelmente, ainda segue atual. Para além da perspectiva geográfica, a palavra “Sul” não representa a região administrativa de divisão brasileira seguindo critérios do IBGE, mas sim um projeto de futuro. Além disso, associa-se a ideia do eixo Sudeste-Sul a lugares mais ” civilizados” e “desenvolvidos”, os quais trazem, para si, milhares de “homens fortes” que “carregam o país nas costas”.

Para além das migrações inter-regionais no Brasil e das questões socioeconômicas e políticas do Sertão (que, na obra, é uma metonímia para a região Nordeste e seu “atraso”), este texto busca discutir os estigmas associados aos nordestinos a partir de uma perspectiva colonialista do “Sul”.

Primeiramente, é preciso enxergar que as mais diversas esferas da sociedade, a partir de um processo histórico, concentraram suas organizações no eixo São Paulo-Rio de Janeiro. Tanto a mídia como a moda e as inovações tecnológicas concebem essa região como um centro, enquanto colocam o resto do país mais especificamente o eixo Norte-Nordeste como o outro geográfico. Com isso, diversos símbolos surgiram: o “sotaque nordestino” que minimiza a diversidade cultural da região , a ideia da região Norte como apenas “mato” e a concepção do Nordeste como local de mero turismo.

Justamente pela construção desse cenário, inúmeros estigmas são associados aos nordestinos, traduzidos em perguntas absurdas como: “Você tem acesso à água encanada?”, “Como vai a seca?”, “Meu avô era do Ceará e você é de Sergipe, será que somos parentes?”. Ao meu ver, podemos trazer como principal característica, entre essas perguntas, a reprodução colonialista.

Assim como tratado no filme “Bacurau”, dirigido por Kleber Mendonça Filho, os “sudestinos” se enxergam como superiores e também representam elementos opressores da lógica colonialista. O Sudeste tornou-se muito mais que apenas concentrador de renda ou oportunidades e passou a ser colonizador. Ironicamente, assim como retratado na obra fílmica, embora o Sudeste também tenha um olhar opressor em âmbito nacional, sofre, assim como o restante dos brasileiros, opressão a partir da perspectiva do norte global.

Um espaço essencial de discussão é a mídia e a maneira como ela encara o resto do país. Enquanto notícias do eixo SP-RJ são veiculadas para todo o território e causam comoção nacional, isso não ocorre quando partem das periferias. As vidas dos nascidos nos “outros geográficos” valem menos. No caso da moda, muito se discute acerca da apropriação cultural, que transforma em produto inúmeras simbologias populares, não trazendo nenhum tipo de retorno para a população local. No campo das inovações tecnológicas, poucas também provêm de fora desse eixo e, consequentemente, preocupam-se em resolver questões e necessidades dele.

Nos últimos anos, uma mudança nessa perspectiva, sob o tom de elogio, começou a surgir: ser do nordeste pela visão sudestina se tornou algo “cult”. Mas é preciso ressaltar que esse nova perspectiva também é opressora, uma vez que retrata o nordestino como um indivíduo “exótico” e continua o colocando como o outro do outro.

Em suma, a problemática da reprodução colonialista no Brasil é uma pauta essencial e precisa ser discutida. A Região Nordeste, composta por 9 estados, apresenta inúmeras diferenças culturais entre si. Como já afirmado pela pesquisadora Carla Akotirene, as diferenças são bidirecionais. É preciso ir além das diferenças, concebê-las de forma a não promover uma hierarquização nas mais diversas áreas da sociedade. O “sempre outro geográfico” precisa ser visto como também centro. Dessa vez, não como outro núcleo opressor, mas de maneira horizontal, interditando opressões.



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