A whistleblower da NSA que revelou interferência russa nas eleições norte-americanas de 2016.


Reality Leigh Winner, veterana da Força Aérea dos Estados Unidos, se encontra presa após se declarar culpada em junho de 2018 de uma acusação de crime por “transmissão não autorizada de informações de defesa nacional”, por fornecer um relatório confidencial sobre a interferência russa nas eleições presidenciais norte-americanas de 2016 a um veículo de imprensa.  […]


Reality Leigh Winner, veterana da Força Aérea dos Estados Unidos, se encontra presa após se declarar culpada em junho de 2018 de uma acusação de crime por “transmissão não autorizada de informações de defesa nacional”, por fornecer um relatório confidencial sobre a interferência russa nas eleições presidenciais norte-americanas de 2016 a um veículo de imprensa. 

Winner havia acabado de sair da Força Aérea (onde serviu por seis anos) e começou a trabalhar como tradutora para a Pluribus International, empreiteira ligada a Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês), responsável por suporte analítico, operacional, de engenharia e gerenciamento de programa de alta qualidade ao governo dos Estados Unidos. Seus clientes incluem agências federais de defesa, segurança, militar e inteligência.

Em maio de 2017, promotores afirmam que ela imprimiu um relatório secreto de seu computador de trabalho detalhando ataques de hackers por um serviço de inteligência russo contra locais eleitorais e bancos de dados de registro de eleitores. Mais tarde, ela disse aos investigadores que contrabandeou o relatório para fora dos escritórios do empreiteiro, Pluribus International, em Augusta, Geórgia, em sua meia-calça, e depois o enviou para o The Intercept.


O que o documento dizia e qual foi a análise do Intercept:

Um perfil biográfico produzido pela New York Magazine – o qual usarei de referência em alguns momentos – afirma que em seus primeiros meses de trabalho na Pluribus International, Winner começou a escutar um podcast chamado Intercepted, contando com a participação de Gleen Greenwald – um dos fundadores, que está afastado até a publicação deste artigo- e Jeremy Scahill – que também ajudou a fundar o jornal.  

“Há uma tremenda quantidade de histeria, muitas teorias, muitas conclusões prematuras sendo tiradas em torno de todas essas coisas da Rússia”, disse Scahill em um episódio do podcast. “E não há muitas evidências concretas para sustentá-lo. Pode haver evidência, mas ainda não está aqui. ”

Ela também chegou a pedir a transcrição de um podcast através de um e-mail, usando seu computador de trabalho.

O questionamento levantado pelo perfil é de que Winner tinha essas evidências, o que pode ter a impulsionado para vazar os documentos para o Intercept.

Imagem: NSA

Quando o documento chegou ao Intercept, houve uma dúvida se o documento era real. Em 30 de maio, de acordo com os autos no tribunal, um repórter não identificado enviou fotos do documento a um contratante do governo dos Estados Unidos. A empreiteira disse inicialmente que os papéis eram falsos, mas, após checar com alguém da NSA, relatou serem reais. A New York Magazine afirma na publicação que o Intercept se recusa a comentar sobre esta história.

A matéria envolvendo o documento foi ao ar em 5 de junho de 2017. De acordo com o site: 

“A inteligência russa lançou um ataque cibernético em pelo menos um fornecedor de ‘software’ de votação dos EUA e enviou e-mails de phishing* a mais de 100 funcionários de seções eleitorais poucos dias antes da eleição presidencial norte-americana, em novembro do ano passado. É o que aponta um relatório de inteligência secreto obtido por The Intercept.”

* Phishing é a tentativa fraudulenta de obter informações confidenciais como nomes de usuário, senhas e detalhes de cartão de crédito, através de um disfarce de entidade confiável em uma comunicação eletrônica.

A missão dos hackers russos era realizar espionagem no sistema eleitoral norte-americano através da internet. Se passando por vendedores de urnas eleitorais – conseguiram esse disfarce após invadirem sistemas internos de um fornecedor de software eleitoral – conseguiam com que funcionários de secções eleitorais abrissem documentos do Word com vírus, dando aos hackers completo acesso e controle sobre os computadores infectados.

O relatório da agência também mostrou que dois ataques foram feitos antes das eleições. O primeiro ataque foi feito em agosto, três meses antes da eleição. Já o segundo foi feito no início de novembro, pouco tempo antes da eleição, atingindo os computadores de 122 membros do conselho eleitoral.


Como Winner foi ‘dedurada’ por uma impressora:

Após a publicação da reportagem, o documento ficou disponível gratuitamente na internet e mostrava marcas que sugeriam que havia sido impresso, ao invés de enviado online. Também continha marcas d’água mostrando a data de sua impressão, 9 de maio de 2017, às 6h20, em uma impressora com o número de série 535218 ou 29535218.

Entretanto, a NSA já sabia – por conta de sua vigilância interna – que apenas seis pessoas haviam imprimido o documento. Desses seis, apenas um havia enviado um e-mail ao Intercept.

Criador: Michael Holahan | Crédito: AP Direitos autorais: Michael Holahan © 2018 The Augusta Chronicle

Além disso, é crucial ressaltar o papel do Intercept na exposição da identidade de Winner, mesmo que indiretamente, já que não acredito que esse era o objetivo do jornal. Como dito, eles haviam entrado em contato com a NSA para confirmar a veracidade dos documentos e, sem a menor justificativa do porquê, aquele repórter em questão disse ao empreiteiro que o documento havia sido enviado de Augusta, Geórgia – onde Winner morava.

Após isso, a empresa entrou em contato com o Departamento Federal de Investigação (FBI, na sigla em inglês) e de acordo com esta reportagem, a conversa com o repórter em questão consta no mandado de prisão de Winner.

Ao tentar confirmar a veracidade do documento, o Intercept enviou o documento completo, sem edições – lembre-se das marcas e números de impressão – para a NSA. “A U.S. Government Agency (Agência Governamental dos Estados Unidos, tradução livre) examinou o documento compartilhado pelo jornal e determinou que as páginas do relatório de inteligência pareciam dobradas e / ou amassadas, sugerindo haverem sido impressas e realizadas manualmente em um espaço seguro”, diz um dos documentos do tribunal, sugerindo que a falta de cuidado do repórter culminou, intencionalmente ou não, na revelação da identidade de Winner.

O WikiLeaks chegou a oferecer 10 mil dólares para que o repórter responsável pela exposição da identidade de Winner fosse demitido. “Parece provável que o depoimento do FBI se refere ao The Intercept, mas não é certo, por isso dizemos ‘suspeito de repórter do Intercept”, disse Assange. “Mas quem quer que seja esse repórter, eles são uma ameaça não apenas para as fontes, mas para todos os jornalistas, pois diminuem a confiança entre as fontes e o jornalista e, em última instância, o público. A democracia morre na escuridão. ”

Porém, o comportamento de Winner não a ajudou nessa situação. Ela já havia contatado o Intercept e acessado o site pelo seu computador de trabalho, o que deu ainda mais pistas para os detetives do caso. Outro fator importante é que em sua página específica para leaks, o Intercept avisa sobre os perigos de vazar documentos ultraconfidenciais. Como afirma o próprio site do Intercept,

Em seu site, o Intercept fornece um tutorial para possíveis whistleblowers em todo o funcionalismo dos Estados Unidos. Ele os aconselha a tirar proveito de seu servidor SecureDrop, por exemplo, e os alerta para ter cuidado com seus hábitos de Internet. Se você teve acesso a informações sigilosas que foram publicadas, suas atividades na internet possivelmente serão monitoradas, incluindo quais sites você visitou ou compartilhou nas redes sociais (como o Intercept)", diz o guia. "Certifique-se de que você está ciente disso antes de nos enviar informações e ajuste seus hábitos conforme necessário bem antes de decidir se tornar nossa fonte."

Também: "Não entre em contato conosco em um computador ou rede do trabalho. A maioria das redes corporativas e governamentais registra o tráfego virtual. Mesmo se você estiver usando o Tor, ser o único usuário do Tor no trabalho pode fazer com que você se destaque."

Com base em documentos do governo dos Estados Unidos, é justo dizer que Reality Leigh Winner, aparentemente, não seguiu todos esses avisos.

Winner cometeu alguns erros graves, incluindo o prévio e-mail para o Intercept pedindo a transição do podcast. Não está claro por que ela optou por essa tática, em vez de, digamos, capturar os documentos de um telefone celular pessoal ou capturá-los e depois imprimi-los. Existia um infinito leque de possibilidades para que Winner conseguisse vazar os documentos com segurança.


A prisão de Winner e sua vida no complexo prisional:

Ela confessou rapidamente ao FBI. Essa confissão depois foi contestada pela mesma, pois, ela não estava ciente de seus Direitos de Miranda (Miranda Rights, em inglês). Os Direitos de Miranda são a notificação de que uma pessoa está sob custódia da polícia norte-americana, para que o imputado possa ficar em silêncio ou estar ciente de seu direito de defesa antes que lhe façam perguntas relativas ao crime ou ato em questão.

O Departamento de Justiça processou Winner sob a Lei de Espionagem, uma lei da época da Primeira Guerra Mundial que tornava crime revelar segredos que poderiam ser usados ​​para prejudicar os Estados Unidos ou ajudar um adversário estrangeiro. Como ressaltei no Especial sobre o WikiLeaks e a perseguição do Governo dos Estados Unidos contra Julian Assange, co-fundador da organização, a Lei de Espionagem foi criada em um contexto histórico que não é cabível hoje em dia. Ao longo da história, ela foi usada diversas vezes contra whistleblowers, jornalistas, militantes socialistas e até políticos. 

O maior caso de uso dessa Lei contra adversários ou figuras políticas polarizantes foi o caso de Eugene V. Debs, líder trabalhista, político norte-americano e cinco vezes candidato do Partido Socialista da América à presidência. Em junho de 1918, Debs fez um discurso anti-guerra em Ohio, protestando contra o envolvimento dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial e suas consequências na sociedade norte-americana. Ele foi preso sob a Lei de Espionagem e condenado a cumprir dez anos de prisão, além de perder todos seus direitos pelo resto da vida.

Alguns grupos de defesa aos direitos humanos afirmaram que o vazamento proporcionado por Winner alertou os estados norte-americanos sobre os perigos representados por hackers externos nas eleições – algo que as agências de segurança do país demoraram a fazer, de acordo com um relatório do Senado dos Estados Unidos

O Intercept, que publicou o material vazado, contribuiu financeiramente para sua defesa. Em uma declaração pública, a editora-chefe do Intercept, Betsy Reed, disse que Winner “havia prestado serviço público.” 

Winner se declarou culpada em junho de 2018 de uma única acusação de transmissão de informações de segurança nacional com base na Lei de Espionagem previamente citada. A sentença do juiz correspondia com um acordo de confissão entre a equipe de defesa de Winner e os promotores, que recomendou que ela ficasse cinco anos e três meses atrás das grades. Os promotores disseram em um processo judicial que a punição equivaleria a “a mais longa sentença cumprida por um réu federal por uma divulgação não autorizada à mídia”.

Ela passou um ano na cadeia antes de chegar a um acordo judicial com os promotores. Seus advogados argumentaram que Winner seria libertada sob fiança, já que ela não tinha antecedentes criminais e havia servido com honra no exército. O juiz tomou o partido dos promotores, que afirmaram que Winner representava um risco potencial de voo – fugir para outro país para evitar acusações, como o caso de Edward Snowden – e podia ter roubado outros documentos confidenciais.

Imagem:Sean Rayford/Getty Images

Os promotores disseram durante o julgamento que ela era uma analista experiente e bem treinada, cujas crenças políticas e levaram Winner a violar as restrições de segurança e vazar os documentos, contrariando a versão dita pela defesa, de que ela era uma patriota que lutou na Força Aérea. A promotoria também afirmou que nos meses anteriores ao vazamento do relatório, Winner havia baixado um software que ajudou a ocultar seu histórico na internet, expressou apoio consistente a Edward Snowden (outro whistleblower da NSA) e “expressou repetidamente desprezo pelos Estados Unidos”. 

“É literalmente a pior coisa que aconteceu no planeta”, disse Winner sobre os Estados Unidos em um bate-papo no Facebook com sua irmã em fevereiro de 2016, segundo os promotores. “Nós inventamos o capitalismo e a degradação do meio ambiente.”

Em abril do ano passado, um juiz federal rejeitou o pedido de Winner para comutar os 19 meses restantes de sua sentença e ser libertada para confinamento domiciliar devido à nova pandemia de coronavírus. A advogada de Winner argumentou que seu histórico de doenças respiratórias (asma, entre outros) e sistema imunológico comprometido pela bulimia que adquiriu na prisão a tornava altamente vulnerável ao vírus. Três meses depois, ela testou positivo para Covid-19, mas se recuperou sem sequelas.

Em janeiro desse ano, veio a público que Winner havia sido abusada sexualmente por um guarda federal na prisão onde está cumprindo sentença. “É meu entendimento que um guarda a tocou de forma inadequada enquanto ela estava dormindo”, disse Alison Grinter, advogada de Winner, em coletiva a imprensa. “Reality registrou uma reclamação em março (de 2020) e nunca recebeu uma resposta sobre isso.”

Grinter disse que planeja se encontrar com Winner ainda esta semana para discutir a queixa de agressão, apresentada sob a Lei de Eliminação do Estupro na Prisão, ou PREA na sigla em inglês, que exige que os funcionários da prisão investiguem prontamente as alegações de má conduta sexual contra os detidos.

A alegação foi divulgada pela primeira vez quando a mãe de Winner, Billy Winner-Davis, enviou uma carta aos funcionários da prisão, que também foi publicada na página do Facebook, Friends of Reality Winner, pressionando-os a investigar o assunto.

"Minha filha Reality L. Winner apresentou uma queixa PREA de abuso sexual contra um oficial em março de 2020. Isso foi ignorado ou bloquado, nunca agido ou investigado e o guarda nunca foi tirado da unidade. Semana passada minha filha tentou novamente entrar em contato para poder se proteger e na quarta-feira a noite, o guarda falou, em frente a todos presentes no local, "se você mentir sobre mim, eu irei atrás de sangue", o que minha filha tomou como uma ameaça direta de agressão física. 
Minha filha se sente insegura com esse oficial na unidade. Ela também se sente medo de que ela sofrerá retaliações (...) Esse oficial precisa sofrer retaliações."

Trecho retirado e traduzido da carta escrita por Billie Winner-Davis, mãe de Reality Winner. Clique aqui para acessar a carta completa, em inglês.

Até o presente momento, não há nenhuma expectativa de que Winner consiga uma medida para cumprir o resto de sua sentença em prisão domiciliar. A última vez que o nome de Winner esteve nas notícias, ao menos nas mídias comerciais e hegemônicas, foi por não aparecer na lista de perdões e comutações de sentenças feitas pelo ex-presidente norte-americano, Donald Trump. Muitos estavam na expectativa de que o republicano perdoaria whistleblowers, como Snowden ou Assange, devido a uma pressão interna no partido e na sociedade norte-americana em seus últimos dias de mandato.

Entretanto, sempre é triste e um tanto deprimente ver como pessoas dispostas a abdicar de sua liberdade para que um segredo ou crime de Estado seja exposto – como é o caso de whistleblowers – são tratadas.

Reality Leigh Winner deveria estar livre.


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